Uma Trilogia Científica sobre Fractais, Cidades e Mente Humana

Uma Trilogia Científica sobre Fractais, Cidades e Mente Humana

Airton Deppman e Alex Soletto

Uma Trilogia Científica (continuação)

Cidades: As Leis Urbanas e o Nosso Cérebro Social

A Relação Socioeconômica de Uma Cidade e o Seu Crescimento Populacional.

Parte 2: A Organização Fractal e a Alometria Urbana

Em uma classificação clássica, o corpo humano possui 78 órgãos principais. Nos últimos estudos, a medicina moderna acrescentou mais dois órgãos nesse total. São eles: o Mesentério, que é uma estrutura única no nosso abdômen e os Interstícios, que são cavidades espalhadas por todo o nosso corpo e principalmente sobre a nossa pele, que atuam como uma espécie de amortecedores de choques. Todos eles são vitais para o perfeito funcionamento deste curioso e complexo organismo, mais conhecido como ser humano. Mas dois deles concorrem ao prêmio de melhor destaque em importância: o cérebro e o coração. Vamos tentar explicar fazendo uma comparação com o nosso dia a dia (uma metáfora) para ajudar a compreender melhor a importância destes dois candidatos. Comparemos esses dois órgãos com o motor de nossos carros: o cérebro seria como o motor, com todas as suas conexões, que comanda todo o funcionamento do veículo, assim como o cérebro que comanda todas as funções do nosso corpo. O coração é como a bomba de gasolina e esta, a gasolina, seria nosso sangue. Mas para o nosso artigo, vamos nos concentrar em um deles, o mais importante talvez: o cérebro. Obviamente, sem coração ou sem o sangue, ninguém sobreviveria, mas é o cérebro que controla tudo. Ele é responsável pelo nosso raciocínio lógico, nossa linguagem, sensações de dor e temperatura, memória, reconhecimento facial, identificação visual como forma, cores e dimensões.

A princípio pode parecer que nosso cérebro lida só com atividades inerentes aos nossos corpos. Sim, é verdade, mas ele também cuida e influencia tarefas, digamos assim, fora do nosso corpo. Para que isso ocorra, é preciso analisar uma característica particular e funcional que só o cérebro consegue realizar: ele consegue lidar com os chamados pensamentos complexos. O que são eles? São processos cognitivos que vão além dos reflexos e sensações que experimentamos no nosso dia a dia. Esses processos são responsáveis por analisar dados sob vários aspectos, estabelecer soluções para problemas conceituais ou abstratos e respostas para várias áreas do conhecimento. Estudos demonstram como o cérebro lida com alguns tipos existentes de pensamentos complexos, cada qual com características próprias. Nesse universo, há um deles que mais particularmente nos interessa: os chamados pensamentos complexos sintéticos e criativos. Este tem a capacidade de juntar tarefas que à primeira vista podem parecer desconexas.

Este tipo de raciocínio pode estabelecer um elo causal direto entre a neurobiologia individual e a macroeconomia urbana. Como assim? As evidências científicas demonstram que esse mistério está profundamente cravado na nossa história evolutiva e na arquitetura cognitiva da nossa espécie. Mais explicitamente, é como nossa inteligência gerencia, categoriza e mantém os seus círculos de amizades e conhecidos. Essa é a força primordial que dita as regras do crescimento econômico e da produtividade de megacidades como, por exemplo, Tóquio, Nova York, Londres ou São Paulo.

 

O renomado antropólogo e evolucionista britânico Robin Dunbar estabeleceu os preceitos do que ele denominou Hipótese do Cérebro Social. Ele afirma que ao contrário do que se pensa, muito singularmente o cérebro humano e o dos primatas, não evoluiu para procurar comida ou fabricar ferramentas, mas sim e particularmente, para coordenar relações complexas sociais. Ele demonstrou empiricamente que os seres humanos são programados evolutivamente para operar dentro de uma estrutura de redes sociais altamente hierarquizada. Robin afirma que existe, dentro da nossa sociedade, um tipo de “grupo de apoio” íntimo e central composto por aproximadamente 5 pessoas (familiares ou amigos muito próximos), que se expande de maneira geométrica e proporcional em camadas concêntricas e sucessivas de 15, 50 e assim por diante, até atingir um limite máximo de 150 indivíduos­­, que é conhecido como Número de Dunbar. O algarismo é o resultado de pesquisas feitas por Robin entre 1980 e 1990 e foi publicado pela primeira vez em 1992, no Journal of Human Evolution. O trabalho do antropólogo é fruto da colaboração sinérgica entre a Física Estatística e a Psicologia Evolutiva. Essa mesmíssima estrutura mental e hierárquica das redes comunitárias é rigorosamente replicada, projetada e amplificada no tecido biológico real e socioeconômico das cidades.

Nessa organização Fractal e em outras múltiplas camadas das interações cotidianas surge o ambiente perfeito para o aparecimento de um fenômeno que os cientistas denominam de Alometria Urbana ou leis de escala urbana. Trata-se do princípio pelo qual indicadores socioeconômicos vitais para uma cidade – tais como produção per capita de patentes científicas, o volume de transações comerciais, o produto interno bruto e as taxas médias salariais – crescem de forma sistematicamente superlinear em relação ao crescimento populacional absoluto. Pode-se medir um crescimento superlinear comparando, no nosso caso, a taxa de crescimento das escalas urbanas que mencionamos acima, em relação à população da cidade. As conexões entre as pessoas crescem quanto maior for a cidade. Em termos matemáticos simples, esse comportamento superlinear implica que se uma determinada cidade dobra seu tamanho populacional total, ela não apenas dobra a sua capacidade de produção econômica, mas a incrementa em uma taxa adicional média de 15% por indivíduo. Esse ganho extraordinário de eficiência e produtividade – que supera largamente a simples soma aritmética dos esforços isolados de cada cidadão – é o resultado direto do aumento exponencial na taxa de encontros e colaborações criativas que ocorrem no espaço urbano.

Quando a população de uma determinada cidade cresce, as trocas de informações e a criatividade crescem de forma superlinear. Os habitantes de uma cidade têm habilidades e ideias diferentes: comumente eles realizam encontros com proximidade física nos mesmos espaços, como, por exemplo, conversas em um café num Shopping Center, ou mesmo numa caminhada em um parque da cidade. Nesses momentos é quase certo que ocorram conversas, pensamentos e trocas de informações que acabam por provocar novos pontos de vista com caracteres inovadores com a soma do todo, maior do que as partes isoladas de cada um.

Na psicologia contemporânea há um modelo conhecido como “Big Five”, que determina cinco principais fatores de personalidade: abertura para o novo, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo. Estes agentes são provenientes de estudos rigorosos que apontam traços psicológicos globais e fundamentais da humanidade. Eles funcionam como forças gravitacionais invisíveis que moldam a nossa necessidade constante de conexões socioeconômicas. Essas características cognitivas nos impulsionam a orbitar e interagir em grupos autos similares de tamanho e escala fixos que compartilham opiniões e atitudes. O dinamismo avassalador das grandes metrópoles nada mais é, portanto, do que o nosso cérebro social operando em escala macroscópica, convertendo nossa necessidade biológica de sociabilidade em inovação tecnológica, riqueza material e evolução cultural acelerada.

 

Podemos questionar os benefícios da inovação tecnológica e riqueza material aceleradas, mas isto é tema para outro texto.