Café Brasil Expresso 1051 – As duas liberdades

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Há 25 anos colocando a inteligência a serviço do agro.

Daniel LaRusso está cansado. Mais do que cansado, está irritado.

Ele procurou o senhor Miyagi porque queria aprender karatê. Tinha sido provocado, humilhado, apanhado de garotos mais fortes e queria aprender a se defender. Imaginava golpes, posições, movimentos de luta. Talvez uma sequência de treinos duros, como nos filmes.

Essa sequência está no filme Karatê Kid original, com Ralph Macchio como Daniel LaRusso e Pat Morita como Sr. Miyagi. O filme foi lançado em 1984, dirigido por John G. Avildsen, o mesmo diretor de Rocky – Um lutador, de 1976.

O problema é que Mr. Miyagi fez outra coisa. Primeiro mandou Daniel encerar uma coleção de carros.

Passa a cera. Tira a cera.

Depois vieram a cerca, o assoalho, a pintura da casa. Sempre com instruções muito precisas sobre a posição dos braços e o sentido dos movimentos.

Daniel obedece no começo, mas pouco a pouco a impaciência vai crescendo. Os braços doem, o corpo cansa e nada daquilo se parece com karatê. Ele começa a desconfiar de que está sendo usado como mão de obra gratuita. Até que não aguenta mais.

E explode.

Diz que queria aprender a lutar e que, em vez disso, passou dias fazendo serviços domésticos. Mr. Miyagi não discute. Apenas pede que Daniel fique diante dele e repita os movimentos.

Mostre como você encerava o carro.

Daniel faz.

Mostre como você pintava a cerca.

Ele faz de novo.

Então Miyagi ataca.

Um golpe vem de um lado e Daniel o bloqueia com o movimento usado para encerar. Outro golpe vem por cima e o braço responde com o gesto que ele repetiu pintando. Miyagi continua atacando e, de repente, Daniel percebe o que está acontecendo.

Ele não passou aqueles dias longe do treinamento.

O treinamento estava acontecendo o tempo inteiro.

Enquanto Daniel achava que repetia movimentos inúteis, seu corpo aprendia distância, defesa, coordenação e reflexo. Aquilo que parecia uma sequência de ordens sem sentido estava construindo uma capacidade que ele ainda não possuía.

E talvez seja justamente aí que a cena de Karatê Kid fique mais interessante do que uma simples história de mestre e aprendiz.

Daniel queria liberdade para lutar.

Miyagi estava tentando mostrar que, antes de ser livre para fazer alguma coisa, às vezes precisamos aprender a fazê-la.

E isso nos leva a uma pergunta curiosa: quando pensamos em liberdade, será que estamos falando apenas da possibilidade de escolher o que queremos fazer ou também da capacidade que precisamos desenvolver para conseguir fazer bem aquilo que escolhemos?

Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?

O teólogo dominicano belga Servais Pinckaers, um estudioso da moral cristã, passou boa parte da sua vida pensando sobre liberdade, virtude e felicidade. Embora seu trabalho tenha raízes religiosas, a ideia que me interessa aqui ultrapassa esse terreno com bastante facilidade, porque toca numa experiência que todos nós conhecemos: a sensação de que ser livre significa poder fazer o que queremos.

Pinckaers propõe que existem pelo menos duas maneiras muito diferentes de entender a liberdade. A primeira ele chama de liberdade de indiferença. O nome parece complicado, mas a ideia é muito simples. Eu sou livre quando posso escolher entre alternativas sem ser obrigado por ninguém. Posso ir ou ficar, aceitar ou recusar, falar ou calar, seguir por aqui ou por ali. Quanto menos impedimentos existirem entre a minha vontade e a minha ação, mais livre eu me sinto.

Essa maneira de pensar está profundamente instalada na nossa cultura. Quando alguém diz “a vida é minha”, “eu faço o que eu quiser” ou “ninguém tem nada a ver com isso”, está falando, de algum modo, essa língua. O pressuposto é que a liberdade está inteira na possibilidade de escolher, e que qualquer coisa que limite essa possibilidade será vista com desconfiança. Uma regra, uma obrigação, um compromisso, uma promessa, uma disciplina ou até um conselho podem parecer ameaças porque todos eles reduzem alguma possibilidade de ação.

Se eu quiser dirigir a 140 quilômetros por hora numa estrada, o limite de velocidade aparece como uma barreira entre mim e a minha vontade. Se eu quero atravessar o cruzamento agora, o sinal vermelho me obriga a esperar. Se estou cansado e quero faltar ao trabalho, o contrato que assinei me prende a uma responsabilidade que, naquele instante, eu talvez preferisse não ter. Visto desse ângulo, somos tentados a imaginar a liberdade como um terreno aberto no qual cada cerca representa uma perda.

Só que Pinckaers chama a atenção para uma segunda possibilidade. Ele fala de uma liberdade de qualidade, que também aparece traduzida como liberdade para a excelência. Nessa concepção, ser livre não significa apenas poder escolher. Significa desenvolver a capacidade de agir bem, de fazer aquilo que se pretende fazer com domínio, critério e, depois de algum tempo, até com certa naturalidade.

Parece um detalhe de linguagem, não é? Mas é muito mais que isso

Bom dia, Luciano. Boa tarde, Ciça. Boa noite, Lalá.

Aqui fala Roberto Medeiros, habitante de Itacimirim, na Bahia. Admiro e acompanho o Café Brasil desde 2018, quando, desafiando as vozes majoritárias, o Cafezinho de análise das candidaturas de então foi publicado. Aquilo foi um choque para mim, que não conhecia o podcast.

Um homem que era capaz de dissecar o currículo de cada um dos postulantes ao cargo de presidente e, longe de fechar os olhos para os defeitos do seu escolhido, assim mesmo o fez. Passei a assinante e ouvinte dos capítulos anteriores do Café Brasil. 

Luciano, observo que os ouvintes sempre falam. Estive escutando o último Café Brasil mil e não sei qual.

Vou fazer diferente. Estive ouvindo o Café Brasil 598, de 31 de janeiro de 2018. O Bovárico.

E veio-me uma vontade de fazer uma provocação. Naquele episódio, foi analisada a personalidade narcisística bovárica de Lula, que havia sido julgado e teve sua pena aumentada pelos tribunais. Você, como muitos na época, entendia que a carreira de Lula havia terminado ali.

Ao final do podcast, você vaticinou, anunciando. A última vez que falo de Lula no Café Brasil. Pergunto.

O que aconteceu com a população que, depois de assistir um corrupto ser condenado em tantas instâncias, ressuscitá-lo e permitir que o seu grupo voltasse a tratar a despesa pública como tal conhecemos, as empresas estatais colocadas em prejuízo, a falta de ética nas nomeações para os cargos de ministros do supremo e de todos os outros? 

Essa é a provocação. Agradeceria muito uma resposta a essa questão e de todos seus contornos. Obrigado, então.

Vida longa ao Café Brasil.

Putz… lá vem o Roberto me provocar… Olha, Roberto, eu continuo mantendo o que escrevi lá em 2018. A carreira de Lula acabou naquela cadeia de Curitiba. O que eu não previ foi que alguns Ministros do STF, travestidos de Rei da Noite do Game Of Thrones, levantariam um cadáver político e o devolveriam à disputa como se nada tivesse acontecido. A partir daí, entrou em cena uma coisa maior: memória curta, identidade partidária, rejeição ao adversário, síndrome de Estocolmo e a tendência de julgar “o nosso” com uma régua diferente daquela usada para “o outro”. O que tivemos na sequência foi um Walking Dead conduzindo o país para o buraco. Felizmente isso deve acabar.

Imagine alguém diante de um piano. Essa pessoa pode apertar qualquer tecla. Ninguém está proibindo nada. Pode começar pelo dó, bater no sol, pular para o fá sustenido, usar as duas mãos ou apenas um dedo. Nesse sentido, ela tem uma enorme liberdade. Nenhuma tecla está interditada. Mas experimente pedir que ela toque uma música de Tom Jobim e a história muda imediatamente.

Um pianista experiente também é livre diante do teclado, só que de outra forma. Ele passou anos sendo submetido a escalas, exercícios, correções, repetição, postura das mãos, ritmo, leitura e técnica. Houve professores dizendo que o dedo estava errado, que o tempo estava errado, que era preciso fazer de novo. Durante muito tempo, a aprendizagem pareceu diminuir a sua espontaneidade. Em vez de simplesmente apertar as teclas do jeito que ele quisesse, ele teve que aprender a apertá-las do jeito certo.

Curiosamente, foi justamente esse longo período de restrições que ampliou suas possibilidades. Hoje, quando se senta diante do instrumento, consegue tocar aquilo que antes não conseguia. Pode interpretar, improvisar, mudar um arranjo, tocar de ouvido, criar alguma coisa nova. A disciplina que aparentemente limitava sua liberdade foi o que construiu uma liberdade maior.

Quem já tentou aprender um instrumento, uma língua estrangeira ou até dirigir conhece um pouco essa experiência. No começo, tudo é regra. Ao aprender a dirigir, você pensa no pedal da embreagem, na marcha, no retrovisor, na seta, no carro da frente, no carro de trás e no sujeito da moto que apareceu do nada pelo corredor. Há momentos em que parece impossível coordenar tanta coisa ao mesmo tempo. Anos depois, você faz grande parte disso sem pensar conscientemente.

Aquilo que era uma obrigação externa foi sendo absorvido até se transformar numa capacidade.

E talvez exista aí uma diferença importante entre fazer o que se quer e ser capaz de fazer o que se quer.

Essa distinção aparece claramente nos esportes. Entregue uma bola a uma criança e diga para ela jogar futebol do jeito que quiser. Ela pode correr, chutar, driblar e se divertir bastante, o que é ótimo, cara. Mas se quiser realmente aprender a jogar, em algum momento surgirão regras, posições, exercícios, fundamentos e alguém dizendo que aquele movimento precisa ser corrigido.

O jogador profissional vive uma situação curiosa. Quando vemos um craque dominar uma bola difícil, passar por um marcador ou encontrar um companheiro num espaço que ninguém parecia ter visto, temos a impressão de espontaneidade. Parece que ele simplesmente fez aquilo. Só que por trás daquele instante existem milhares de horas de treino.

É por isso que a comparação de Pinckaers com a virtude me parece tão provocadora. Ele sugere que talvez algo parecido aconteça com o nosso modo de viver. No início, precisamos de regras externas, orientações, correções e exemplos. E aos poucos, aquilo pode se transformar numa espécie de habilidade interior.

Pense aí numa criança aprendendo a conviver. Em algum momento alguém precisa dizer “espere a sua vez”, “não pegue o que é do outro”, “peça desculpas”, “cumpra o que prometeu”. É claro que a criança não nasce entendendo perfeitamente essas coisas. Durante algum tempo, ela obedece porque o pai está olhando, porque a professora pediu ou porque haverá alguma consequência se não obedecer.

Mas ninguém espera que um adulto de cinquenta anos precise ter a mãe atrás dele lembrando que não deve furar a fila do supermercado.

O que esperamos é que alguma transformação tenha acontecido no caminho. A regra externa deixou de ser apenas uma ordem e se tornou um critério interior. Critério interior. A pessoa não precisa consultar um manual para decidir que não vai levar a carteira esquecida por alguém sobre a mesa do restaurante. Ela olha a carteira e sabe o que fazer.

Isso não significa que sempre fará. Também não significa que as pessoas sejam naturalmente boas ou que exista uma fórmula infalível para cada decisão. O ponto aqui é outro. Com o tempo, nós adquirimos hábitos, referências e maneiras de julgar que tornam algumas escolhas mais fáceis e outras mais difíceis.

E aí surge uma pergunta que vale a pena examinar com cuidado: se uma pessoa não consegue controlar os próprios impulsos, até que ponto ela é realmente livre?

Pense no sujeito que diz que pode parar de fumar quando quiser, mas nunca consegue parar. Ou em alguém que abre o celular apenas para ver uma mensagem e percebe, quarenta minutos depois, que está assistindo ao décimo vídeo curto de uma sequência que nem sabe direito como é que começou. Em tese, ninguém o obrigou a continuar. O aparelho é dele. O dedo é dele. A decisão é dele.

Mas será mesmo, hein?

Temos hoje uma quantidade de escolhas que nenhuma geração anterior teve. Podemos assistir a milhares de filmes, ouvir milhões de músicas, conversar com pessoas do outro lado do planeta, pedir comida de dezenas de restaurantes sem sair do sofá e comprar quase qualquer coisa às duas da manhã. Nunca tivemos tanta possibilidade de escolha.

Ao mesmo tempo, não é difícil encontrar gente dizendo que não consegue parar.

Não consegue parar de olhar o celular, não consegue parar de comprar, não consegue parar de comer, não consegue parar de apostar, não consegue parar de responder impulsivamente quando alguém a irrita.

Talvez por isso seja insuficiente definir liberdade apenas pela quantidade de opções disponíveis. Uma pessoa cercada por possibilidades pode continuar sendo pouco livre se não tiver domínio sobre a maneira como responde a elas.

Olha: esse raciocínio pode soar estranho porque estamos acostumados a associar liberdade à ausência de limites. Mas tem ocasiões em que aquilo que parece uma limitação é justamente o que aumenta nossa autonomia.

Quem aprende a administrar dinheiro, por exemplo, começa frequentemente com regras bastante simples. Não gastar mais do que ganha. Não entrar em dívida para comprar algo desnecessário. Reservar parte da renda. Planejar despesas maiores. Essas regras podem parecer desagradáveis, especialmente quando aparece uma promoção maravilhosa em doze vezes sem juros de alguma coisa que nem sabíamos que precisávamos até cinco minutos atrás.

Só que, alguns anos depois, talvez aquela disciplina tenha produzido algo que se parece bastante com liberdade. A pessoa pode atravessar uma crise sem desespero, pode mudar de emprego, pode ajudar alguém, pode recusar uma proposta ruim porque construiu alguma reserva.

Enquanto isso, outra pessoa talvez tenha passado anos exercendo plenamente a liberdade de comprar tudo que queria. E agora descobre que boa parte do salário do próximo ano já pertence ao banco.

Quem estava sendo mais livre, hein?

A pergunta não tem uma resposta tão simples quanto parece.

Talvez seja necessário distinguir a liberdade do instante da liberdade construída ao longo do tempo.

Essa diferença fica ainda mais clara quando a gente pensa em um compromisso. Uma das formas mais comuns de falar sobre liberdade é imaginar que quanto menos compromissos tivermos, mais livres seremos. Parece lógico. Cada compromisso fecha uma porta.

Quando uma pessoa decide se casar, deixa de viver certas possibilidades. Quando escolhe uma profissão, abandona outras. Quando aceita um emprego, precisa estar em determinado lugar em determinados horários. Quando tem um filho, descobre rapidamente que uma parte considerável da agenda deixou de pertencer exclusivamente a ela.

Tudo isso reduz possibilidades.

Mas será que reduzir possibilidades significa necessariamente reduzir liberdade?

Pense num jovem que decide não escolher nada porque quer manter todas as portas abertas. Aos vinte anos, a atitude pode ser bastante compreensível. Ele ainda está descobrindo o que gosta, experimentando caminhos, mudando de ideia. Mas imagine que a mesma lógica continue pelos vinte anos seguintes. Aos quarenta, aquela pessoa não preservou todas as possibilidades que tinha aos vinte.

O tempo tratou de fechar muitas delas.

A não escolha também produziu uma história.

Na versão deste episódio que vai exclusivamente para os assinantes eu vou falar sobre uma reflexão de Pinckaers: nossa vida não é uma coleção de instantes independentes. Existe continuidade entre aquilo que fazemos hoje e aquilo que poderemos fazer amanhã.

Cara, o final dessa reflexão aqui é uma loucura… Ih cara! Mas você ainda não assinou. Que pena. Vai perder o final. É maravilhoso.

Tá esperando o quê, hein? Vai lá: mundocafebrasil.com. Torne-se um assinante.

Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.

De onde veio este programa tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine só uma palestra ao vivo. E eu já tenho mais de mil e treentas no currículo, cara. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, uma frase do filósofo Epicteto

Nenhum homem é livre se não for senhor de si mesmo.