Cafezinho 747 – A história que contamos antes de votar

No domingo, milhões de brasileiros vão entrar numa cabine, ficar diante de uma urna e tomar uma decisão que parece individual, mas produz consequências coletivas. E uma das perguntas mais importantes antes de apertar o botão verde é: estou votando na pessoa que existe ou no personagem que construí (ou construíram) sobre ela?

A pergunta tem tudo a ver com uma coisa que fazemos diariamente conosco. Pegamos acontecimentos, selecionamos alguns, ignoramos outros e, aos poucos, construímos uma história sobre quem somos. “Eu sou desorganizado.” “Não sei falar em público.” “Nunca fui bom com dinheiro.” Depois que a história se instala, a gente passa a enxergar com mais facilidade tudo o que a confirma.

Na política acontece algo parecido. Só que, em vez de “eu sou assim”, aparece o “ele é assim”.

Escolhemos um político, um partido ou um campo com o qual nos identificamos e começamos a montar uma narrativa. Um erro do adversário confirma tudo o que pensávamos sobre ele; um erro semelhante cometido por quem está do nosso lado recebe explicações, contexto e atenuantes. Um resultado positivo é incorporado imediatamente ao currículo do nosso escolhido; um resultado ruim, jogamos no colo de terceiros. A culpa sempre de um tal “eles”…

Quando chegamos nesse ponto, já não estamos examinando um candidato. Estamos é protegendo uma história. E pior, uma identidade.

A eleição é justamente uma boa oportunidade para fazer o movimento contrário.

Em vez de começar pela pergunta “de que lado ele está?”, a gente devia  começar pelos fatos que estão disponíveis. Qual foi sua trajetória? O que fez quando teve poder, orçamento e responsabilidade? O que prometeu e o que efetivamente entregou? Existem decisões judiciais, certidões ou informações oficiais relevantes que precisam ser conhecidas? Como financiou sua campanha? Quais assuntos me levam imediatamente a pensar nesse candidato? E, principalmente, quais informações estou disposto a aceitar mesmo quando contrariam a imagem que eu formei dele?

Olha, não é fácil… Isso exige um esforço, porque é muito mais confortável votar numa narrativa do que investigar uma realidade. Narrativas chegam prontas, embaladas em vídeos, slogans, indignação, medo e esperança. Realidade dá trabalho.

Neste domingo, vale aplicar aos candidatos a mesma pergunta que proponho no Café Brasil da semana que vem, para as histórias que contamos sobre nós mesmos: será que essa história é tão completa quanto eu imaginava?

O voto continua sendo seu. Mas a responsabilidade de examinar aquilo em que você está acreditando também é.

No Café Brasil 1050 — A história que você conta sobre você, parto de Jerry Lewis, passo por pesquisas sobre autoafirmação e chego ao modo como construímos personagens a partir de pedaços selecionados da realidade. O episódio não é sobre eleições. Mas, às voltas com uma, talvez seja difícil encontrar momento melhor para ouvi-lo.

Na semana que vem, ouça o Café Brasil 1050. Assinantes recebem antes o episódio completo. Não assinantes, recebem um resumido.