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Há 25 anos colocando a inteligência a serviço do agro.
Se você assistiu à série Columbo, talvez se lembre daquele sujeito meio amarrotado, de capa de chuva, cabelo desgrenhado, sempre parecendo ligeiramente perdido. Era o Peter Falk que interpretava o tenente Columbo, que chegava à cena de um crime com um jeito que não inspirava muito respeito não. Ele fazia perguntas aparentemente banais, esquecia alguma coisa, voltava, pedia desculpas, ele parecia que não entendia direito o que estava acontecendo.
E o assassino começava a relaxar.
Afinal de contas, aquele detetive tão desleixado, não parecia exatamente uma ameaça.
Então Columbo se despedia, caminhava em direção à porta e, quando o suspeito achava que a conversa finalmente tinha terminado, ele se virava:
— Ah… só mais uma coisinha…
E vinha a pergunta.
Aquela pergunta.
Aquela que mostrava que por trás daquele jeito desajeitado havia um sujeito prestando atenção em tudo.
Esse comportamento de Columbo ficou tão marcado que acabou sendo estudado até fora da televisão. Aquele ar distraído fazia o interlocutor baixar a guarda, falar demais e revelar coisas que talvez escondesse diante de um investigador que entrasse na sala exibindo inteligência e autoridade.
O Columbo parecia não saber.
Mas sabia que não sabia algumas coisas.
E, principalmente, queria saber.
Guarde isso, porque essa diferença vai ser importante no episódio de hoje.
Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?
O Columbo se fazia de ignorante, mas ele não era ignorante coisa nenhuma. Mais importante do que isso: ele tinha consciência daquilo que ainda não sabia e queria descobrir. A sua ignorância aparente não encerrava a investigação, mas servia justamente para mantê-la aberta.
Essa diferença ficou rondando a minha cabeça quando voltei a um pequeno texto escrito por Immanuel Kant em 1784. Kant tentava responder a uma pergunta enorme: o que é esclarecimento? E começa com uma definição que, à primeira vista, parece falar de outra época, mas que vai ficando desconfortavelmente atual conforme a gente avança.
Ele diz que o esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade.
De novo: esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade.
Só que Kant não está falando de idade. Menoridade, para ele, é a incapacidade de usar o próprio entendimento sem a orientação de outra pessoa. Uma criança naturalmente precisa de alguém pra decidir muitas coisas por ela, porque ela ainda não possui experiência ou conhecimento suficientes. O problema de Kant é outro. Ele está falando do adulto que já tem condições de pensar, mas prefere que alguém assuma essa tarefa.
É por isso que ele diz que essa menoridade, em muitos casos, é culpa do próprio indivíduo. E nem é falta inteligência não. É porque porque lhe falta disposição para exercê-la.
É uma distinção importante. Ignorância não é a mesma coisa que menoridade.
Nenhum de nós sabe tudo. Aliás, todos somos profundamente ignorantes sobre a maior parte das coisas que existem. Você pode entender muito de administração e não saber nada sobre física de partículas. Pode conhecer música brasileira como poucos e não fazer ideia de como funciona um motor a diesel. Pode compreender profundamente literatura e ser incapaz de explicar o sistema imunológico.
Isso não é defeito. É só a condição humana.
O problema começa quando a gente de dizer “não sei” e começa a dizer “não quero saber” ou, em casos ainda mais interessantes, quando a gente passa a usar o “não sei” como uma espécie de proteção.
Você já deve ter ouvido alguém dizer que não entende nada de política, não ouviu? A frase parece até humilde, não é isso? Dependendo da pessoa, pode até ser verdadeira. Mas aí a conversa continua e você descobre que aquele mesmo sujeito tem opiniões muito claras sobre o presidente, o Supremo, o Congresso, os impostos, os empresários, os sindicatos, a imprensa, a educação, a segurança pública e as relações internacionais.
Ele não entende de política, mas sabe exatamente quem está destruindo o Brasil. Não é curioso, cara?
Quando alguém apresenta uma informação que reforça aquilo que ele já acredita, a ignorância desaparece como mágica. A pessoa comenta, compartilha, conclui e explica. E se alguém pede que desenvolva o raciocínio ou mostre de onde tirou a informação, então ela recua para a posição anterior.
— Ah, também não entendo muito disso.
Você percebe como o mecanismo funciona? A ignorância entra em cena quando é conveniente.
Ela deixa de ser simplesmente uma ausência de conhecimento e passa a funcionar como um abrigo. Quando interessa participar da conversa, a gente participa. Quando surge a responsabilidade de sustentar aquilo que a gente disse, voltamos para dentro do abrigo.
E não estou falando só de política não. O comportamento aparece em toda parte. O sujeito diz que não entende de economia, mas afirma com absoluta segurança que determinada empresa explora seus empregados. Ele não entende de educação, mas sabe exatamente o que o professor deveria fazer dentro da sala de aula. Não entende nada de medicina, mas viu um vídeo que prova que todos os médicos estão enganados. Ele não entende de tecnologia, mas tem certeza de que a inteligência artificial vai destruir o mercado de trabalho.
É claro que ele pode até estar certo em alguma dessas coisas. Claro que pode. Essa não é a questão.
O que me interessa é outra coisa: a facilidade com que queremos os benefícios de uma conclusão sem passar pelo desconforto de construir o entendimento que deveria sustentar essa opinião.
E é justamente aí que Kant começa a aparecer.
“Bom dia, boa tarde e boa noite, Luciano. Como vai você?
Meu nome é Otto e eu moro numa pequena cidade próxima a Houston, no Texas. Escuto o seu Cafezinho desde mais ou menos 2014, quando uma colega de trabalho, a Jussara, me enviou um Cafezinho sobre meritocracia. Gostei muito e desde então passei a acompanhar praticamente todas as semanas.
Quando eu me aposentei, no início do ano passado, eu decidi retornar à minha cidade. Desde então, as suas mensagens fazem parte da minha rotina diária.
Eu queria agradecer por criar conteúdo de tanta qualidade. Eu queria agradecer muito pela sua persistência, mesmo sabendo que a audiência que você tem hoje é muito aquém do que você merece e do valor que você agrega.
Ultimamente eu tenho refletido bastante sobre o uso do tempo. À medida que envelhecemos, e eu faço 60 no final deste ano, entendemos melhor o verdadeiro valor do tempo e, principalmente, que ele é finito. Fazer bom uso do tempo que nos resta passa a ser uma prioridade.
E ouvir suas mensagens é pra mim um excelente investimento desse tempo que me resta. Percebo que muito dos seus conteúdos abordam o mundo digital, seja falando sobre o modelo de assinaturas como no Cafezinho 1040, seja sobre algoritmos, manipulação e a forma como muitas vezes somos levados ao fanatismo. É um tema que impacta profundamente as nossas vidas.
Há muitos anos abandonei as mídias sociais, mantendo apenas o LinkedIn, e não passo mais do que 15 minutos diários no LinkedIn. Também deixei de acompanhar a mídia convencional e passei a dedicar o meu tempo livre a livros e alguns canais que considero mais equilibrados e razoáveis, embora eu reconheça que isso também possa ser uma ilusão na minha parte. O resultado tem sido uma vida mais tranquila, menos estresse, maior capacidade de ouvir, tolerar e refletir sobre diversos pontos de vista. Pelo menos é assim que eu vejo.
Obrigado pela dedicação, pela consistência e pelo enorme trabalho de produzir um conteúdo realmente que agrega grande valor, um conteúdo muito nutritivo, como você diz. Continuarei ouvindo, aprendendo e participando.
Um grande abraço e vida longa ao Cafezinho, ao Lidercast, ao Café com Leite, aos podsumários e a todas as iniciativas que promovem a educação construtiva.
Um forte abraço, meu amigo. Um grande abraço, Luciano.”
Grande Otto, muito obrigado pelo carinho e pela companhia de tantos anos, meu caro. Seu comentário toca num ponto central deste episódio aqui: maioridade não é trocar um grupo de influenciadores por outro não. É conservar a disposição de examinar aquilo que a gente consumiu e até desconfiar das nossas próprias escolhas. Quando você diz que seus canais “equilibrados” também podem ser uma ilusão, está aí um belo sinal de maturidade intelectual. O problema não é ter referências. É permitir que elas pensem por nós. Um grande abraço e obrigado por investir parte desse tempo precioso comigo.
Ah, e tem uma curiosidade aqui. No mês passado o Otto esteve aqui em São Paulo e me convidou para um jantar. Foram momentos muito agradáveis de uma conversa entre gente madura, antenada e disposta a causar impacto na sociedade. Uma hora dessas vou encontrá-lo lá perto de Huston…
Naquele texto sobre o esclarecimento, Kant dá exemplos simples de como a gente terceiriza o pensamento. Se temos um livro que pensa por nós, alguém que decide nossa consciência ou uma autoridade que determina o que devemos fazer, então boa parte do esforço desaparece. Basta seguir.
É muito confortável.
Quando você transporta isso para o nosso tempo, o quadro fica ainda mais interessante. Hoje dá pra ter um influenciador que interpreta o mundo por nós, um comentarista que seleciona quais fatos merecem atenção, um grupo de WhatsApp que filtra as notícias, um canal de YouTube que explica diariamente quem são os heróis e os vilões e um algoritmo que aprende rapidamente aquilo que nos irrita, nos9 agrada ou confirma nossas convicções.
Com o passar do tempo, esse sistema começa a entregar uma dieta intelectual extremamente eficiente.
Você recebe cada vez mais daquilo com que concorda.
E, quando recebe algo diferente, frequentemente recebe junto a explicação do por que aquilo não merece confiança.
Isso cria uma situação que Kant dificilmente poderia ter imaginado: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão fácil viver intelectualmente por procuração.
Um homem do século XVIII podia permanecer na menoridade porque não tinha acesso a livros, a educação ou informação. Nós podemos permanecer nela pelo motivo oposto. Há tanta informação disponível que ficou possível escolher apenas aquela que confirma o mundo no qual a gente quer viver.
Isso é uma diferença importante.
Não precisamos mais evitar a informação. É só selecionar.
Talvez por isso tanta gente diga hoje que “fez a sua própria pesquisa”. Às vezes fez mesmo. Mas em muitos casos essa pesquisa consiste em assistir a uma sequência de vídeos recomendados pelo mesmo algoritmo, todos apontando na mesma direção e citando fontes que circulam dentro do mesmo ambiente.
A pessoa sente que investigou.
Mas na prática, pode ter apenas aprofundado a própria bolha.
Isso acontece porque pensamento crítico não é simplesmente desconfiar. Aliás, existe uma caricatura muito comum do pensamento crítico segundo a qual ser crítico significa suspeitar de tudo aquilo que vem de fora e confiar sem grandes exigências naquilo que vem do nosso lado.
Como é que é? Suspeitar daquilo que vem de fora e confiar naquilo que está aqui do nosso lado.
Quando uma notícia confirma aquilo que a gente já acredita, raramente perguntamos quem financiou o estudo, qual foi a metodologia, se a amostra é suficiente ou se existe uma outra interpretação possível. Mas basta a notícia contrariar nossa posição para que apareça, quase instantaneamente, um pequeno cientista dentro de nós querendo examinar metodologia, financiamento, conflito de interesses e currículo dos pesquisadores.
Esse fenômeno sempre me pareceu muito engraçado porque mostra que a pessoa não abandonou o pensamento crítico. Ela apenas passou a usá-lo de maneira mais seletiva.
A crítica virou uma ferramenta para proteger a crença.
E talvez essa seja uma forma muioto sofisticada de menoridade, porque o sujeito conserva a sensação de independência. Ele acredita que pensa por conta própria porque questiona as fontes adversárias. Ele só não percebe que nunca aplicou a mesma exigência às fontes que confirmam aquilo que ele já queria acreditar.
É aqui que eu gosto de voltar lá pro Columbo.
O Columbo também parte de uma posição de ignorância, mas tem uma diferença decisiva. Quando ele não sabe, ele pergunta. A ignorância dele produz curiosidade. Já essa outra ignorância de que eu estou falando aqui, frequentemente produz encerramento.
“Não sei, então quero entender” é uma coisa.
“Não sei, então ninguém pode me cobrar” é outra completamente diferente.
E talvez seja neste segundo caso que aparece aquilo que a gente poderia chamar de pseudo-ignorância.
Ela surge quando alguém usa a ausência de conhecimento não como ponto de partida, mas como instrumento de conveniência.
Você vê isso em situações banais. Alguém chega atrasado a um compromisso e diz que não sabia o horário, embora o horário estivesse na agenda, no grupo, no e-mail e tivesse sido mencionado três vezes. Esse “não sabia” faz uma coisa interessante: transforma uma escolha num acidente.
Se eu não sabia, então não decidi chegar atrasado.
A responsabilidade diminuiu, percebe?
Em empresas isso aparece o tempo inteiro. Um problema vai crescendo, várias pessoas percebem que alguma coisa está errada e, quando finalmente explode, alguém na direção pergunta:
— Mas ninguém me avisou?
Pode ser verdade. Tem chefes que realmente não foram informados.
Mas também existe uma maneira muito eficiente de administrar organizações sem jamais receber as informações desagradáveis. É só você se cercar de pessoas que aprenderam quais notícias o chefe gosta de ouvir.
Nesse caso o sujeito não precisa proibir ninguém de falar.
O ambiente aprende sozinho, cara.
Depois, quando o desastre acontece, ele pode dizer com sinceridade que não sabia.
E talvez não soubesse mesmo.
A pergunta mais difícil é se ele construiu deliberadamente as condições para não saber.
Existe uma diferença moral muito grande entre ignorância e ignorância cultivada.
…eu estou com uma tentação de falar o nome de uns caras aí….
Às vezes a gente prefere não fazer a pergunta porque a gente sabe que a resposta pode criar uma obrigação.
Um empresário desconfia que determinada área está tendo prejuízo, mas ele evita abrir os números. Uma família percebe que um problema sério está se formando, mas ninguém toca no assunto durante o almoço de domingo. Um cidadão diz que política é tudo igual e decide não acompanhar nada, embora continue votando a cada eleição.
Enquanto não a gente não sabe dá pra fingir que nenhuma decisão precisa ser tomada.
E nesse sentido, a ignorância pode ser bastante confortável.
E talvez seja por isso que Kant fale tanto de coragem.
Na versão deste episódio aqui que vai exclusivamente para os assinantes vou mergulhar mais fundo nesse pensamento de Kant e tirar você da zona de conforto. Vamos lá?
Ah, não dá cara…você ainda não virou assinante…que peninha!!! Tá esperando o quê? Vai lá: mundocafebrasil.com.
Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.
De onde veio este programa aqui tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine só uma palestra ao vivo. Já são mais de mil e trezentas no currículo. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com.
Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.
Para terminar, uma frase de Charles Darwin:
“A ignorância gera confiança com mais frequência do que conhecimento.”
