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Warren Schmidt está sentado sozinho em seu escritório, olhando para o relógio na parede. Faltam poucos minutos para as cinco da tarde e, aparentemente, não tem mais nada para fazer. tic tac tic tac…A mesa está praticamente vazia, os objetos pessoais já foram retirados e Schmidt permanece ali, de terno e gravata, esperando o tempo passar. Não é o final de mais um dia de trabalho não. Depois de décadas dedicadas à Woodmen of the World, uma companhia de seguros de Omaha, no Nebraska, aquele é o último expediente de sua vida.
Quando finalmente dá cinco horas, Schmidt se levanta, apaga a luz e vai embora.
É assim que começa As Confissões de Schmidt, filme de 2002 dirigido por Alexander Payne, com Jack Nicholson no papel principal. Logo depois a gente vê a festa de aposentadoria, com colegas reunidos em torno de mesas, discursos, elogios e agradecimentos pela longa dedicação à empresa.
Há um sucessor preparado para ocupar seu lugar e existe uma espécie de cerimônia de passagem acontecendo ali. Schmidt cumpriu o percurso que sua geração aprendeu a reconhecer como uma vida profissional bem-sucedida. Trabalhou, construiu uma carreira, sustentou sua família e chegou à aposentadoria cercado pelo reconhecimento dos colegas.
Não tem nada de errado naquela fotografia não. Talvez seja justamente por isso que o que vem depois seja tão desconfortável.
Algum tempo depois, já aposentado, Schmidt volta à empresa. Seu sucessor está instalado, os negócios continuam, as pessoas trabalham e a máquina que durante tantos anos pareceu depender também dele segue funcionando perfeitamente. Do lado de fora do prédio estão algumas caixas contendo os arquivos que Schmidt acumulou durante sua carreira. Elas esperam o caminhão do lixo.
Não acontece nada de extraordinário naquela cena não. Ninguém humilha Schmidt, ninguém diz que seu trabalho foi inútil. É simplesmente o funcionamento normal das coisas. Uma empresa substitui alguém que saiu e segue adiante. Só que agora, sem o escritório, sem o horário, sem os compromissos profissionais e sem a função que durante décadas ajudou a definir o seu lugar no mundo, Schmidt começa a fazer uma espécie de inventário da própria vida.
E é nesse inventário que aparece uma pergunta incômoda. Não é uma pergunta pra saber se ele foi bem-sucedido não, porque pelos critérios que ele adotou durante a vida provavelmente foi sim, muito bem-sucedido. A questão é anterior: quanto daquela vida resultou de escolhas que ele reconhecia como suas e quanto simplesmente aconteceu porque aquele era o caminho que um homem como ele deveria percorrer?
Guarde essa imagem aí Ede Warren Schmidt olhando para o relógio.
Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?
Eu quero agora levar você agora para 1971, trinta e um anos antes daquele filme.
Naquele ano, o cantor Lou Rawls gravou uma canção chamada A Natural Man.
Rawls nasceu em Chicago, em 1933, e começou cantando gospel. Passou pelo Exército, sobreviveu a um gravíssimo acidente automobilístico no final dos anos 1950 e construiu uma carreira que nunca coube confortavelmente numa única prateleira. Havia gospel, blues, jazz, soul, tudo naquela voz grave, quente, imediatamente reconhecível. Quando gravou A Natural Man, aos 37 anos, Rowls já era um cantor experiente, e isso talvez ajude a explicar por que que a gravação soa menos como a rebeldia de um garoto contra o mundo e mais como a decisão de um homem que começou a fazer algumas contas consigo.
A canção havia sido escrita por Bobby Hebb e Sandy Baron. Hebb já era conhecido por Sunny, que havia lançado em 1966 e se transformara num sucesso internacional. Sunny foi gravada por centenas de artistas.
Sunny
Bobby Hebb
Sunny,
yesterday my life was filled with rain.
Sunny, you smiled at me and really eased the pain.
The dark days are gone, and the bright days are here,
My Sunny one shines so sincere.
Sunny one so true, I love you.
Sunny, thank you for the sunshine bouquet.
Sunny, thank you for the love you brought my way.
You gave to me your all and all.
And now I feel ten feet tall.
Sunny one so true, I love you.
Sunny, thank you for the truth you let me see.
Sunny, thank you for the facts from A to Z.
My life was torn like a wind-blown sand,
And the rock was formed when you held my hand.
Sunny one so true, I love you.
Sunny, thank you for the smile upon your face.
Sunny, thank you for the gleam that shows its grace.
You’re my spark of nature’s fire,
You’re my sweet complete desire.
Sunny one so true, I love you.
Sunny, yesterday my life was filled with rain..
Sunny
Dia ensolarado,
Ontem minha vida estava como em chuva.
Dia ensolarado, você sorriu pra mim e realmente aliviou a dor.
Os dias de escuridão se foram e os dias claros estão aqui,
Meu dia ensolarado brilha tão real.
Dia ensolarado, uma só é a verdade, eu te amo.
Dia ensolarado, obrigado pelo “bouquet de luz”.
Dia ensolarado, obrigado pelo amor que você trouxe ao meu caminho.
Você me deu seu tudo e o tudo.
Agora me sinto há dez pés de altura.
Dia ensolarado, uma só a é a verdade, eu te amo.
Dia ensolarado, obrigado pela verdade que você me deixou ver.
Dia ensolarado, obrigado por tudo.
Minha vida foi dissolvida em grãos pelo vento, como areia.
E depois mudada em rocha quando você segurou minhas mãos.
Dia ensolarado, uma só é a verdade, eu te amo.
Dia ensolarado, agradeço pelo seu sorriso.
Dia ensolarado, agradeço pelo brilho da sua beleza.
Você é minha faísca vinda da Natureza.
Você é meu completo e doce desejo.
Dia ensolarado, uma só é a verdade, eu te amo.
Dia enroladado, minha vida está como em chuvas…
O parceiro de Hebb, Sandy Baron, vinha de outro universo: ele era ator, comediante e escritor. Em algum momento, os dois se juntaram para escrever uma música sobre um sujeito que queria viver como aquilo que chamaram de um natural man, um homem natural.
Para entender a força dessa expressão natural man, é preciso lembrar um pouco do ambiente em que ela apareceu. Os Estados Unidos haviam atravessado uma década de conflitos que mexeram profundamente com a relação das pessoas com a autoridade. A luta pelos direitos civis havia exposto estruturas raciais que durante muito tempo foram tratadas como parte natural da sociedade. A Guerra do Vietnã alimentava uma desconfiança crescente em relação ao governo. A contracultura havia colocado sob suspeita costumes, relações familiares, sexo, trabalho e religião. Muita gente, especialmente entre os mais jovens, começava a olhar para aquilo que as gerações anteriores apresentavam como “o jeito certo de viver” e perguntar por que que tinha que ser daquele jeito.
Para um homem negro como Lou Rawls, evidentemente, essa conversa carregava um peso adicional. Não fazia tanto tempo que a sociedade americana estabelecia de maneira explícita lugares onde negros podiam ou não estudar, morar, trabalhar, entrar ou sentar. Quando Rawls começa A Natural Man, portanto, aquele pequeno discurso que antecede a música não estava acontecendo no vazio.
Ele lembra que existiu um tempo em que alguém dizia para você fazer alguma coisa e você fazia. Não perguntava por quê. Era yes sir, yes ma’am. Sim, senhor. Sim, senhora. Mas, e ele continua, as coisas estavam mudando. As pessoas começavam a querer tomar a própria vida nas mãos, fazer suas escolhas e decidir por si mesmas.
Neste ponto aqui, eu poderia poderia contar agora o que Bobby Hebb e o Sandy Baron colocaram na letra, mas perderíamos justamente o que há de mais interessante nesta história. Eu prefiro que você ouça primeiro e deixe a canção trabalhar. Só vou pedir que preste atenção numa imagem aparentemente banal que aparece no meio dela.
É um relógio.
Natural man
Bobby Hebb
Sandy Baron
You know, there was a time when
If someone told you to do somethin’
You did it! Ram! right on!
No questions asked
It was “yes, sir” and “yes, mam”
You never said no? Hou know? huh?
But, you know
Things are changing nowadays
It’s a new day babies
Folks want to take their own lives into their hands
And make their own choices
No longer do they want to go along with the program
‘Cause everybody say it’s right
You know what I mean?
Let me tell ya what I’m talkin’ about, ya see, ‘cause…
I don’t want no gold watch for workin’ fifty years from nine till five
Awhile the boss is guzzling champagne
And I’m beltin’ beer in some dive
‘Cause I want to be happy and free
Livin’ and loving for me
I want to be happy and free
Livin’ and lovin’ for me
Like a natural man (like a natural man)
A natural man (like a natural man)
Well now, I refuse to listen to people’s thinkin’ that I live too high
I’m gonna taste it now before my one life streaks on by
‘Cause I want to be happy and free
Livin’ and lovin’ for me
I want to be happy and free
Livin’ and lovin’ for me
“Oi, Luciano, Tobias, aqui de Jaú. Acabei de ouvir o episódio 1044. Sou um assinante, assinante há muito tempo do Café Brasil e pretendo continuar assinante.
Gostei do ponto de vista que você falou da questão de como se cultivou a questão da gratuidade, né? E que agora atrapalha para mostrar para algumas pessoas o seu valor. Eu assino porque é o que você falou, é um respeito e é um retorno que eu quero dar em respeito a todo o seu trabalho de dedicação. Eu faço isso contigo, faço isso com o Christian Guster no Escriba Café porque são produtos de qualidade, produtos de dedicação.
No seu caso, então, eu sempre bato na tecla que a periodicidade sua é uma coisa monstruosa. De toda semana você está entregando retorno para a gente. Não tem férias, não tem pausas, não tem nada.
Você está sempre lá entregando conteúdo para nós e eu acho, independente do que está acontecendo na sua vida particular ou não, então acho que essa dedicação sua merece o nosso respeito. Então acho que é por isso que eu faço questão de contribuir. Eu até lembrei, falando da gratuidade, lembrei de uma questão.
Eu fui em um restaurante aqui recentemente e quando veio a conta, cobraram o gelo da minha coca-cola. E não cobrava antes, passaram a cobrar. Daí eu fiquei bravo porque pensei, pô, não cobrava, não tinha que cobrar.
E eu até falei com um dono que eu conheço e ele falou, pô, põe no preço da coca-cola, dilui no custo de tudo que é mais fácil. Porque realmente, para o brasileiro que não vê os impostos quando vai pagar, está tudo embutido, a gente não sente. Então acho que talvez isso tenha atrapalhado algumas pessoas, mas independente disso é o que eu falo.
As pessoas precisam dar respeito à sua dedicação e à qualidade do seu trabalho. Então acho que o valor é mais do que adequado. Qualquer um que for saber comer uma pizza hoje com a família, não deixa menos de 100 reais.
Imagine uma coisa que você não vai usufruir no dia seguinte mais. E o que você faz é uma coisa fantástica. Então sigamos em frente e conte comigo e com quem eu puder divulgar o seu trabalho.
Forte abraço.”
Grande Alexandre Tobias, muito obrigado. Você diz que assina por respeito ao trabalho e à dedicação, e eu fico muito feliz com isso. Mas quero acrescentar uma coisinha: não quero que ninguém assine o Café Brasil por obrigação, gratidão ou porque “o Luciano merece”. Não, cara. Quero que assine porque decidiu que aquilo tem valor para sua vida. É a diferença que Lou Rawls canta em A Natural Man: fazer escolhas que reconhecemos como nossas. Se depois de tantos anos você continua aqui porque ainda encontra valor no que a gente entrega, então nós temos uma relação muito mais interessante que a de produtor e consumidor. Temos uma escolha renovada. Muito obrigado por ela.
A letra de A Natural Man diz assim:
Eu não quero relógio de ouro nenhum por trabalhar cinquenta anos, das nove às cinco,
enquanto meu chefe se entope de champanhe e eu encho a cara de cerveja num boteco qualquer.
Eu quero ser feliz e livre,
vivendo e amando por mim mesmo.
como um homem natural,
Eu me recuso a dar ouvidos às pessoas quando dizem que eu vivo no limite.
Quero experimentar tudo agora, antes que esta minha única vida passe voando.
Eu quero ser livre e feliz,
vivendo e amando por mim mesmo.
como um homem natural.
Eu tentei fazer aquilo que os outros diziam que eu deveria fazer.
Diziam que eu deveria estar na escola, estudando e pensando.
Bom, gente desse tipo me deixa louco e deprimido.
Eu digo a você: simplesmente eu 4não consigo suportar isso.
Quando você me vir andando por aí, repare
no olhar orgulhoso em meus olhos.
Meus pés estão no chão e minha alma está procurando o céu.
Eu quero ser livre e feliz,
vivendo e amando por mim mesmo.
como um homem natural.
Durante boa parte do século XX, especialmente nos Estados Unidos, o relógio de ouro tornou-se um símbolo bastante conhecido de reconhecimento profissional. Depois de décadas de dedicação, o funcionário se aposentava e recebia da empresa um presente, muitas vezes acompanhado de uma pequena cerimônia. O relógio dizia assim: você esteve conosco durante todos esses anos e nós reconhecemos o valor dessa dedicação.
Era uma homenagem perfeitamente respeitável. Para muita gente, devia ser também motivo de muito orgulho.
Bobby Hebb e Sandy Baron, no entanto, olharam para aquele mesmo objeto e enxergaram outra coisa.
Talvez seja exagero meu, mas desde que ouvi a música com atenção não consigo deixar de perceber a ironia: depois de entregar uma parte considerável do seu tempo a alguém, você recebe como prêmio justamente um objeto criado para medir o tempo.
E foi aí que Warren Schmidt voltou à minha cabeça.
O filme começa com um homem olhando para o relógio, esperando terminar o último expediente de uma carreira de décadas. A música de Lou Rawls fala de outro homem imaginando o final de uma carreira de décadas e dizendo que não quer chegar lá para receber um relógio. Separadas por trinta e um anos, as duas imagens parecem conversar.
Mas é preciso tomar muito cuidado com a conclusão que tiramos dessa conversa, porque seria muito fácil transformar A Natural Man numa dessas pregações contra emprego, carreira e vida convencional que hoje fazem tanto sucesso nas redes sociais. Bastaria a gente dizer que Schmidt desperdiçou a vida numa companhia de seguros enquanto o homem de Lou Rawls escolheu a liberdade. Que lindo, cara: a gente vende a Kombi, compra uma passagem para Bali e encerra o programa satisfeitos conosco.
Só que a letra não me parece tão rasa assim não.
Não há nada que nos permita concluir que permanecer quarenta anos numa empresa seja uma vida menos autêntica do que abrir uma pousada em Paraty. Tem um monte de gente que construiu carreiras longuíssimas dentro da mesma organização e que, se pudessem voltar atrás, fariam tudo novamente. Eu sou um desses… Da mesma maneira, tem gente que largou emprego, casamento, cidade e carreira em nome da liberdade e descobriu algum tempo depois que estava apenas obedecendo a um outro tipo de expectativa.
Acho que o problema do relógio de ouro não é o relógio. É chegar até ele sem saber exatamente por que a gente percorreu aquele caminho.
Quando continuamos acompanhando a letra, essa possibilidade começa a aparecer. O personagem admite que tentou fazer aquilo que os outros diziam que deveria fazer. Ele tentou se encaixar sim, tentou representar um papel, e descobriu que aquela tentativa de viver segundo expectativas dos outros, expectativas alheias estava tornando a sua vida miserável.
Isso então muda um pouco o assunto. A gente não está falando de liberdade. Está falando de autoria.
E autoria é muito mais complicada, porque nenhum de nós escreve a própria vida numa folha em branco. Desde crianças a gente recebe modelos. Nossos pais mostram pra gente o que eles consideram uma vida boa, a escola apresenta determinadas ideias de sucesso, o ambiente em que a gente cresceu estabelece o que é respeitável o que é vergonhoso, o que é possível, o que é impossível. Aprendemos observando gente que admiramos e também tentando não nos transformar em gente que nós rejeitamos. Uma parte enorme daquilo que chamamos de “eu” foi construída com material recebido dos outros.
Em 1971, algumas dessas influências eram mais fáceis de identificar porque frequentemente tinham rosto e tinham voz. Era o pai que dizia que filho dele seria médico. Era a mãe dizendo que a filha precisava casar. Era o chefe determinando como um funcionário deveria se comportar. Era a comunidade deixando claro o preço que alguém pagaria se decidisse sair muito do caminho esperado. É esse mundo que a gente ainda consegue ouvir naquele yes sir, yes ma’am de Lou Rawls.
Passados mais de cinquenta anos, muita coisa mudou. Temos uma liberdade de escolha que seria difícil imaginar para boa parte das pessoas daquela época. A gente pode mudar de profissão aos cinquenta anos, estudar aos setenta, trabalhar para uma empresa do outro lado do mundo sem sair de casa, casar ou não casar, ter filhos ou não ter filhos, morar numa cidade e trabalhar em outra, construir uma profissão que não existia quando a gente entrou na escola.
Seria razoável imaginar que finalmente realizamos o desejo daquele homem cantado por Lou Rawls, não é?
Bom, eu não tenho tanta certeza não.
Na versão deste episódio que vai exclusivamente para os assinantes eu vou falar de como o homem natural de Lou Rawls é menos o sujeito que rompeu com todas as regras e muito mais o que conseguiu criar alguma distância entre aquilo que esperam dele e aquilo que ele decide fazer.
Cara, você ainda não assinou ainda? Tá esperando o quê? Vai lá, vai lá: mundocafebrasil.com.
Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.
De onde veio este programa aqui tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine uma palestra ao vivo. E eu já tenho mais de mil e trezentas no currículo. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com.
Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.
Para terminar, uma frase de Oscar Wilde:
“Seja você mesmo; todos os outros já existem.”
[tec] ouro de tolo (só instrumental)
https://www.youtube.com/watch?v=QcCvQ_-YRNI
Hoje ninguém precisa ordenar que você queira determinada coisa. Basta colocá-la muitas vezes diante de seus olhos. Você abre uma rede social e encontra alguém trabalhando com um notebook numa praia. Outro diz que emprego tradicional é uma prisão, um terceiro ensina a construir renda passiva. Depois aparecem o corpo que você deveria ter, a casa onde deveria morar, os lugares para onde deveria viajar e a rotina das pessoas bem-sucedidas.
Nada disso chega como ordem, mas como possibilidade. E possibilidades repetidas começam a produzir desejos.
O sujeito que nunca pensou em morar numa cabana em Gonçalves começa a imaginar como seria maravilhoso abandonar São Paulo e abrir uma pousada por lá. Pode ter finalmente descoberto aquilo que sempre quis. Mas também pode estar vivendo uma versão moderna do yes sir, yes ma’am, porque desta vez ninguém disse “faça isso”. Apenas criou as condições para que ele dissesse “eu quero”.
Foi aí que uma pergunta começou a me incomodar enquanto eu ouvia A Natural Man: de onde vêm as coisas que eu quero?
Não existe resposta simples. Nem acho que haja um “eu verdadeiro” escondido dentro de nós, independente da família, da cultura, dos amigos e da época em que vivemos. Somos formados nesse encontro e nossos desejos sempre carregam alguma coisa dos outros. Mas existe diferença entre ser influenciado e jamais examinar a influência.
E talvez isso torne o título da canção ainda mais interessante. Bobby Hebb e Sandy Baron poderiam tê-la chamado de A Free Man, um homem livre, ou usado alguma expressão que significasse “dono de mim mesmo”. Mas escolheram A Natural Man. Um homem natural.
Natural não pode significar simplesmente fazer tudo aquilo que temos vontade. Quem obedece imediatamente a cada impulso não é especialmente livre. Quem não consegue resistir à raiva, ao consumo, ao sexo, à comida, ao jogo ou à necessidade de aprovação talvez esteja obedecendo tanto quanto o funcionário que responde yes sir ao chefe.
Quem sabe, então, o homem natural de Lou Rawls seja menos aquele que rompeu com todas as regras e mais aquele que conseguiu criar alguma distância entre o que esperam dele e o que decide fazer. Pode seguir o conselho do pai, desde que saiba por que resolveu segui-lo. Pode permanecer no emprego, desde que reconheça por que resolveu ficar. Pode respeitar convenções, desde que perceba quando elas deixaram de fazer sentido.
Isso nos leva à imagem que, para mim, é a mais bonita da canção. O homem de Lou Rawls segue caminhando com os pés no chão enquanto sua alma procura o céu.
É bem diferente daquela liberdade de comercial de banco em que alguém joga a gravata pela janela, compra uma motocicleta e parte pela estrada. Os pés continuam no chão porque a vida continua cobrando suas contas. Há filhos, compromissos, pessoas que dependem de nós, promessas, consequências, um corpo que envelhece e uma realidade que não desaparece porque decidimos “ser livres”.
Mas a alma não precisa ficar presa ao mesmo chão. Ali ainda existe espaço para perguntar se o caminho continua fazendo sentido.
E então volto a Warren Schmidt.
Não acho que o filme nos autorize a dizer que ele viveu a vida errada. Talvez tenha amado seu trabalho, sido feliz durante boa parte daqueles anos e desejado exatamente sua família, sua casa em Omaha e sua carreira. Seria arrogância decretar que uma existência convencional é necessariamente desperdiçada.
O que incomoda é que, quando aquela estrutura desaparece, Schmidt parece ter dificuldade para descobrir quem existe por baixo dela. Durante décadas havia uma resposta pronta: era marido, pai, funcionário, especialista em seguros, um homem responsável que acordava porque havia um lugar onde esperavam que estivesse.
Até que um dia ninguém mais esperava. E suas caixas foram para o lixo.
Por isso aquela primeira cena é tão boa. Schmidt não está apenas esperando chegar às cinco da tarde. Sem saber, espera o momento em que uma vida inteira organizada pelo relógio deixará de ser organizada por ele.
Cinquenta e cinco anos depois de A Natural Man, continuamos cercados de relógios. Os nossos contam passos, medem o sono, registram batimentos, avisam reuniões e controlam exercícios. Mas nenhum consegue medir quanto do tempo que passou foi realmente nosso.
Talvez seja isso que Bobby Hebb e Sandy Baron colocaram naquela canção sem que eu tivesse percebido. Comecei ouvindo A Natural Man como uma bela gravação de Lou Rawls. Depois encontrei um relógio na letra e, olhando melhor para ele, encontrei uma reflexão….
Quando você olha para o trabalho que escolheu, para aquilo que chama de sucesso, para as coisas que deseja, para as opiniões que defende e para as pessoas cuja aprovação procura, consegue reconhecer ali as suas digitais?
Talvez nunca consigamos responder completamente. Somos feitos de pedaços de muita gente. Pais, professores, amigos, adversários, livros, músicas, filmes e experiências foram escrevendo conosco. O problema começa quando entregamos a caneta e esquecemos que entregamos.
O natural man de Bobby Hebb e Sandy Baron não é o homem que conseguiu viver sem que ninguém lhe dissesse o que fazer. Esse homem provavelmente nunca existiu. Ele é aquele que, de tempos em tempos, olha para o caminho que está percorrendo e ainda consegue reconhecer quem fez a escolha.
Com os pés no chão, e a alma procurando o céu.
[tec] Fool´s gold
https://www.youtube.com/watch?v=Ufj7ft0KvFc
Rarararraarar, você ouve Fool´s Gold, a versão em inglês de Ouro de Tolo… tem jeito melhor de encerrar este episódio?
Sobe
Lou Rawls não queria passar cinquenta anos das nove às cinco para receber um relógio de ouro. Warren Schmidt fez exatamente esse caminho e, quando o relógio finalmente marcou cinco horas pela última vez, descobriu que precisava entender quem era sem o emprego que organizara sua vida. E agora chega Raul Seixas falando de outro ouro: o ouro de tolo, aquele sucesso que parece perfeito por fora, mas que talvez tenha sido desenhado por outra pessoa. Nenhum deles está dizendo que existe um jeito certo de viver. Estão deixando uma pergunta: quando chegar a hora de olhar para trás, você vai reconhecer a sua assinatura na vida que viveu?
sobe
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Warren Schmidt encerra uma vida inteira de trabalho olhando para o relógio e, quando a rotina que o definia desaparece, começa a descobrir o tamanho da pergunta que ficou para trás. A partir dessa cena de As Confissões de Schmidt, o episódio encontra A Natural Man, de Lou Rawls, e o relógio de ouro recusado em sua letra. Da América de 1971 às redes sociais de hoje, a investigação avança sobre liberdade, influência e autoria: nossos desejos e escolhas carregam nossas digitais ou apenas aprendemos a chamar de vontade aquilo que esperam de nós?
Host: Luciano Pires – @lucianopires – lucianopires.com.br
Takeaways
- Uma vida convencional não é necessariamente uma vida desperdiçada; a questão está em reconhecer por que escolhemos o caminho que percorremos.
- A influência contemporânea raramente chega como ordem: possibilidades repetidas podem se transformar em desejos que passamos a reconhecer como nossos.
- O “homem natural” de Lou Rawls não vive sem regras ou influências, mas conserva distância suficiente para examinar suas escolhas e reconhecer quem as fez.
Capítulos
Warren Schmidt e o último dia de trabalho
Lou Rawls e a América de 1971
O relógio de ouro de A Natural Man
Quando liberdade vira autoria
O novo yes sir, yes ma’am
Com os pés no chão e a alma procurando o céu
Do relógio de ouro ao Ouro de Tolo
Reconhecer as próprias digitais na vida que vivemos
Links relevantes
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