Café Brasil Expresso 1047 – O futuro que você ensaia

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Há 25 anos colocando a inteligência a serviço do agro.

No filme de Ron Howard lá de 1995, Apollo 13, tem uma cena que sempre me impressionou. A missão está em apuros, a nave sofreu uma explosão no espaço e três astronautas tentam voltar vivos para a Terra dentro de uma máquina que já não funciona como deveria. Em Houston, uma sala cheia de engenheiros tenta descobrir como mantê-los vivos com energia acabando, oxigênio limitado e uma quantidade crescente de coisas que podem dar errado.

Em determinado momento, alguém começa a enumerar problemas que ainda podem aparecer. E Gene Kranz, o diretor de voo interpretado por Ed Harris, precisa manter aquela gente concentrada numa tarefa estranha: imaginar desastres que ainda não aconteceram.

Pense no paradoxo.

Há três homens presos numa nave avariada a centenas de milhares de quilômetros da Terra e, naquele momento, uma das melhores maneiras de ajudá-los é sentar numa sala em Houston e pensar no que mais pode dar errado.

Não é pensar que vai dar tudo certo não.

Não visualizar a nave pousando no Pacífico, os paraquedas se abrindo e as famílias abraçando os astronautas.

É pensar no próximo problema.

Se isso falhar, o que acontece? E se a energia não for suficiente? E se o dióxido de carbono atingir níveis perigosos? E se eles precisarem ligar determinado equipamento antes do previsto? E se, ao resolver este problema, criarmos outro?

A história de Apollo 13 é especialmente interessante porque grande parte daquilo que vemos no filme aconteceu de verdade. A NASA construiu sua cultura de segurança em torno de simulações. Astronautas e controladores de voo treinavam situações que esperavam nunca encontrar. Falhas de equipamentos, perda de comunicação, problemas de navegação, abortos de missão. Gente extremamente competente passava horas imaginando futuros ruins.

E ninguém chamava aquilo de negatividade não. Chamava de treinamento.

Existe uma diferença enorme entre imaginar que – alguma coisa dará errado e descobrir o que fazer e imaginar que alguma coisa dará errado apenas para sofrer por antecipação.

Essa diferença parece óbvia quando estamos falando de astronautas, mas fica muito menos óbvia quando o astronauta é você…

Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?

Amanhã de manhã você tem uma reunião importante. Não é uma reunião qualquer. Você vai apresentar uma ideia para gente que pode aprová-la ou enterrá-la. Talvez seja uma proposta comercial, um projeto para a diretoria, uma entrevista de emprego, a defesa de uma tese, qualquer coisa que tenha importância suficiente para deixar aquele bichinho andando de um lado para o outro dentro da sua barriga.

A reunião é amanhã às nove, agora são dez da noite.

Você deita, apaga a luz, tenta dormir e então começa a reunião.

Não a reunião de amanhã, exatamente. Uma outra, particular, que acontece dentro da sua cabeça.

Na cabeça você entra na sala, abre a apresentação e percebe que alguma coisa está errada. O computador não reconhece o arquivo. Você tenta novamente. Nada. As pessoas começam a ficar impacientes. Finalmente voce consegue abrir, começa a falar e esquece justamente aquela informação que deveria saber de cor. Alguém faz uma pergunta difícil. Você responde mal. Outra pessoa olha para o celular. O chefe faz aquela cara que você conhece tão bem.

A apresentação termina num silêncio constrangedor. Ninguém gostou. Você sai da sala sabendo que perdeu a oportunidade.

Pronto. São dez e quinze da noite.

A reunião marcada para amanhã às nove já aconteceu e foi um desastre.

Seu coração acelerou um pouquinho, seu corpo ficou tenso, talvez tenha aparecido aquele calor que sentimos quando imaginamos uma situação embaraçosa. Agora ficou mais difícil dormir.

Você vira para o outro lado e começa outra reunião.

Também dá errado. Às dez e meia você já participou de quatro ou cinco reuniões que nunca existiram.

Agora imagine que alguém estivesse sentado ao lado da sua cama e dissesse para você parar com aquilo e imaginar a reunião dando certo. Imagine-se tranquilo, dominando o assunto, respondendo bem às perguntas e saindo de lá satisfeito.

É bem possível que você respondesse:

— Ah, não. Também não vamos entrar nessa de pensamento positivo.

Porque imaginar que tudo dará certo parece ingenuidade. Mas imaginar detalhadamente que tudo dará errado parece realismo.

Foi essa pequena contradição que me fez querer conversar com você hoje.

Existe uma capacidade extraordinária da mente humana que usamos o tempo inteiro sem perceber. Conseguimos sair do presente, viajar para uma situação que ainda não aconteceu, construir um cenário, colocar pessoas dentro dele, prever conversas, imaginar nossas próprias reações e até experimentar emoções relacionadas àquilo.

A neurociência tem um nome para uma parte desse fenômeno: pensamento episódico futuro.

O nome é complicado, mas a experiência é banal.

Você faz isso quando imagina as férias do mês que vem. Quando pensa na conversa que terá com seu filho à noite. Quando, antes de encontrar alguém, ensaia o que vai dizer. Quando olha para a conta bancária e imagina como estará dali a seis meses. Quando marca uma cirurgia e começa a pensar no dia da internação. Quando recebe um convite para falar diante de quinhentas pessoas e, semanas antes, já consegue se enxergar subindo no palco.

Nossa cabeça fabrica pequenos episódios de um futuro possível.

E isso é muito mais interessante do que aquela história que circula pela internet dizendo que “o cérebro não sabe distinguir entre aquilo que você imagina e aquilo que realmente está acontecendo”.

Sabe e sabe muito bem.

Se não soubesse, bastaria imaginar um belo filé à parmegiana com arroz, batata frita e uma cervejinha gelada para resolver a fome do almoço.

Não resolve.

Seu cérebro sabe que uma coisa está acontecendo e outra está sendo imaginada. O que acontece é muito mais sutil. Quando imaginamos uma experiência com algum grau de vivacidade, podemos recrutar parte dos sistemas cerebrais que também participariam da experiência real. Memórias, emoções, percepção, planejamento e antecipação começam a trabalhar com aquele material imaginário.

Talvez você nunca tenha entrado naquela sala da reunião, mas o seu corpo é perfeitamente capaz de responder ao filme que está passando dentro da sua cabeça.

Pense aí num pesadelo.

Você está deitado numa cama, protegido por paredes, portas e fechaduras. Não tem ninguém perseguindo você. Não tem precipício. Não tem monstro algum no quarto.

Mas tente explicar isso para o seu coração às três da manhã, quando você acorda assustado depois de sonhar que estava caindo.

O perigo era imaginário, mas a reação não era.

E aqui a coisa começa a ficar interessante.

“Bom dia Luciano, tudo bem? Aqui é o Marcos. Eu estava tentando fazer o meu upgrade da assinatura do Confraria para o Premium e finalmente consegui.

Era uma semana aqui de trabalho, de sei lá, meu cartão estava zoado, não sei o que aconteceu aqui, sei que agora resolvi, já fui lá, já fiz a minha assinatura, agora eu sou do Premium.

Vixi, quem me segura agora, hein? Se no Confraria já estava voando, imagina agora. Então cara, a ideia é, eu realmente não conseguia consumir todo o conteúdo do Confraria e também não vou conseguir consumir todo o conteúdo do Premium, mas a ideia não é nem o consumo, né? A ideia é ajudar o Café Brasil a continuar nessa batalha aí de tentar fazer o povo brasileiro entender algumas coisas e trilhar um caminho melhor para o nosso país, né?

E você estava comentando aqui, você não consegue passar aí, tem número de assinantes aí, é difícil.

E assim, Luciano, infelizmente, eu vou te dizer uma coisa. O motivo disso é que você obriga as pessoas a pensarem e no mundo de hoje, onde tudo exige resposta rápida, tudo tem que ser de bate pronto, o pessoal não gosta de pensar, então assim, quem assina, que consegue divulgar um pouco para outras pessoas que gostam de pensar, você vai até aumentando.

Mas cara, infelizmente, sinceramente, você não sei o que fazer para tentar divulgar mais o seu trabalho para as pessoas assinarem, mas o problema é esse, cara, a gente ouve um podcast, pelo menos comigo, eu ouço um podcast seu, de qualquer um que seja, e você fica pensando aquilo o dia inteiro, será que o que ele falou está certo, e cara, o povo não gosta disso, o povo prefere ver essas brigas que tem nesses reality shows aí, e não para para pensar, entendeu?

Então, realmente, cara. É uma briga difícil, você tem o conteúdo muito específico, uma coisa muito boa, mas enfim, os caras não conseguem ver o valor disso. Mas vamos lá.

Eu fiquei até surpreso que você falou que eu já estava 54 meses contribuindo e confraria, e agora bora para mais 54 meses no Premium.

Cara, vida longa para o Cafezinho, um abraço para vocês e fiquem com Deus.”

Esse foi o Marcos Cinti. Marcos, muito obrigado pelo upgrade, principalmente, por entender que assinar não é necessariamente consumir tudo, mas é ajudar o Café Brasil a continuar existindo.

Agora, você tocou exatamente no tema deste episódio aqui, viu? Se eu repetir que “as pessoas não querem pensar”, começo a enxergar cada cancelamento e cada bobagem que viraliza como confirmação dessa tese. E posso deixar de perceber quem procura justamente o contrário.

O desafio não é como convencer quem não quer pensar, mas encontrar onde estão as pessoas que, como você, terminam um podcast e continuam mastigando aquela ideia durante o dia. Como é que eu faço para chegar até elas?

A primeira pergunta que é convencer quem não quer pensar, vai focar no erro. A segunda, que é tentar encontrar quem quer pensar,  me dá trabalho para fazer. E é por aí que a gente vai.

Grande abraço!

Olha, temos uma tendência enorme de tratar aquilo que acontece dentro da cabeça como se fosse apenas uma espécie de comentário sobre a realidade. Primeiro existe o mundo, depois o que eu penso sobre o mundo.

Mas nem sempre é assim.

Às vezes eu construo um mundo dentro da cabeça e depois começo a reagir a ele. E, dependendo de quantas vezes eu faço isso, começo até a chegar à realidade preparado para encontrar aquilo que eu imaginei.

E não é que meus pensamentos tenham enviado vibrações ao universo, não! O universo provavelmente tem coisas muito mais importantes para fazer. É que aquilo que a gente imagina interfere na maneira como a gente entra nas situações, no que a gente percebe, nas decisões que tomamos e até nas alternativas que conseguimos enxergar.

Você certamente já viveu alguma coisa parecida.

Olha só: alguém manda uma mensagem: “Luciano, precisamos conversar.”

Só isso. Precisamos conversar. E a cabeça começa a trabalhar.

O que será que aconteceu? Será que eu fiz alguma coisa? Será que vai cancelar o contrato? Será que alguém falou alguma coisa?

Você começa a procurar pistas nas últimas conversas, relembra o tom da pessoa ontem, reconstrói acontecimentos, produz hipóteses e, quando finalmente encontra o sujeito, chega para uma conversa carregando meia dúzia de futuros possíveis.

— Luciano, precisamos conversar sobre a data do evento. Vamos ter de mudar do dia 12 para o dia 14.

Era isso. Durante duas horas eu sofri por acontecimentos que nunca existiram.

E olha só que coisa extraordinária: ninguém me obrigou a fazer aquilo. Fui eu quem produziu o filme, quem escreveu o roteiro, escolheu o pior final e depois sentou na primeira fila para assistir.

Mas não estou dizendo isso para transformar preocupação em defeito moral, muito menos para cair naquela conversa irritante de que basta “controlar os pensamentos”.

A capacidade de imaginar futuros ruins é provavelmente uma das coisas que ajudaram nossos antepassados a permanecer vivos.

Imagine um sujeito milhares de anos atrás caminhando por uma região desconhecida. Ele encontra pegadas no chão. Escuta um ruído vindo do mato. Não tem predador algum diante dele, mas ele consegue imaginar um. Consegue construir mentalmente o que pode acontecer se continuar andando naquela direção.

Essa capacidade é uma maravilha.

O animal que só reage ao perigo quando o perigo aparece está em desvantagem diante daquele que consegue reagir à possibilidade do perigo, entendeu?

Talvez boa parte da nossa inteligência esteja justamente nessa capacidade de viver acontecimentos antes que eles aconteçam.

O problema começa quando trazemos para o mundo moderno uma máquina extraordinariamente competente para produzir ameaças possíveis e damos a ela acesso ilimitado a boletos, exames médicos, WhatsApp, redes sociais, reuniões de trabalho, política, filhos que não atendem ao telefone e notícias chegando vinte e quatro horas por dia.

A onça atrás da árvore tinha uma vantagem.

Em algum momento ela aparecia ou não aparecia.

A reunião da próxima terça-feira pode acontecer centenas de vezes dentro da sua cabeça antes da terça-feira chegar.

Talvez por isso valha a pena olhar para a preocupação de uma maneira um pouco diferente.

Preocupação também é imaginação.

Não estou dizendo que toda preocupação é inútil não. Longe disso. Um empresário que não consegue imaginar o caixa acabando é perigoso. Um engenheiro que não consegue imaginar uma ponte cedendo não deveria construir pontes. Um piloto precisa pensar no que fará se determinado equipamento falhar. Um pai precisa imaginar consequências que o filho ainda não é capaz de enxergar.

A capacidade de construir um futuro ruim dentro da cabeça permite que façamos alguma coisa no presente para impedir que ele aconteça.

E agora podemos voltar para Houston.

Os engenheiros de Apollo 13 também estavam preocupados.

A diferença é que cada preocupação precisava terminar numa providência.

Se o nível de dióxido de carbono subir, o que que a gente faz, hein? Se não tiver energia suficiente, o que a gente desliga? Se os filtros não encaixarem, como é que a gente constrói um adaptador usando apenas aquilo que os astronautas têm dentro da nave?

Essa última situação, aliás, ela aconteceu. Os astronautas precisavam adaptar filtros de formato diferente para retirar dióxido de carbono do ar, e a equipe em terra teve de desenvolver uma solução improvisada usando materiais disponíveis dentro da espaçonave. Depois transmitiram as informações para que os astronautas construíssem lá em cima, a mesma coisa.

É uma imagem maravilhosa para o que a gente esta tentando entender.

A imaginação tinha produzido um problema, mas não parou nele.

Continuou trabalhando até produzir uma resposta.

Talvez esteja aí uma diferença importante entre simular para se preparar e simular para sofrer.

Quando você imagina que alguma coisa pode dar errado e volta ao presente trazendo uma providência, a imaginação prestou um serviço.

Quando você vai lá no futuro, encontra o desastre, sofre com ele e volta sem trazer nada, talvez tenha feito apenas turismo no inferno.

E é nesse ponto que entra aquela palavra que me deixa sempre com um pé atrás: visualização.

Você já deve ter encontrado alguma versão dessa conversa. Visualize aquilo que você deseja. Veja-se conquistando o emprego. Imagine o dinheiro chegando. Sinta a emoção de já possuir aquilo. Seu cérebro começará a procurar caminhos. O universo responderá. As oportunidades aparecerão.

E pronto. Daqui a pouco estamos vendendo um curso.

Tenho enorme resistência a esse tipo de simplificação porque ela pega fenômenos psicológicos interessantes, mistura com meia dúzia de termos de neurociência e termina oferecendo uma espécie de controle mágico sobre a realidade.

Só que jogar tudo fora por causa dos exageros também seria uma bobagem.

Porque ensaio mental existe sim. E é justamente aí que a conversa fica boa.

Na versão deste episódio aqui que vai exclusivamente para os assinantes vou fazer uma investigação. Agora que tiramos a visualização do terreno mágico, vamos ver o que acontece quando pesquisadores tentam medi-la. O mais interessante é que os estudos complicam a história justamente onde a autoajuda costuma simplificar.

Ui, você ainda não assinou? Meu, tá esperando o quê? Vai lá: mundocafebrasil.com.

Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.

De onde veio este programa tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine só uma palestra ao vivo. E eu já tenho mais de mil e duzentas9 no currículo. Conheça os temas que eu abordo em mundocafebrasil.com.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, uma frase de Sêneca

“Aquele que sofre antes que seja necessário sofre mais do que o necessário.”