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Há muitos anos assisti a uma cena de um filme As Loucuras de Jerry Lewis, que nunca mais saiu da minha cabeça. Era começo dos anos 80, e Jerry aparece como um guru barbudo desses indianos. Ele precisa passar por uma cirurgia e decide que não quer anestesia. Ele está convencido de que conseguirá suportar a operação acordado, usando a força da mente para controlar a dor. O médico parece não acreditar muito naquela história, mas Jerry está seguro de si e insiste. Então ele se deita na mesa de cirurgia, a equipe se prepara, o médico pega o bisturi e aguarda que Jerry termine sua rotina de concentração e dê a ordem para começar a cirurgia.
Ordem dada, começa o procedimento. O médico pede que anotem aquele momento, que entrará na história. No instante em que acontece o primeiro corte…
Rarararara… essa é uma daquelas piadas que não precisam de muita explicação. A gente ri porque sabe exatamente onde está o absurdo. Uma coisa é estar sentado confortavelmente dizendo que a mente é capaz de dominar a dor. Outra coisa, bastante diferente, é continuar acreditando nisso quando o bisturi entra em ação.
Eu lembrei dessa cena enquanto lia sobre uma pesquisa a respeito de autoafirmação. A palavra me deixou imediatamente desconfiado porque vem carregada de uma bagagem considerável. Basta falar em autoafirmação e aparece diante de nós aquela imagem conhecida da pessoa em frente ao espelho repetindo que é forte, vencedora, próspera e capaz de conquistar tudo o que desejar. Se funcionar, é ótimo. Se não funcionar, provavelmente alguém dirá que faltou acreditar com mais força.
Eu nunca tive muita paciência com isso. Se minha empresa estiver perdendo dinheiro, posso repetir cem vezes que sou próspero e, quando terminar, as contas continuarão exatamente onde estavam. Se vou fazer uma palestra sobre um assunto que não domino, nenhum mantra substituirá as horas que eu deixei de estudar. E se estou numa mesa de cirurgia sem anestesia, bem… Jerry Lewis já resolveu essa discussão por nós.
Foi justamente por isso que a pesquisa me chamou a atenção. Porque, quando eu fui descobrir o que os cientistas estavam chamando de autoafirmação, percebi que eles estavam falando de uma coisa bastante diferente. E aí, a nossa conversa começa a ficar interessante.
Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?
No Café Brasil 1047, “O futuro que você ensaia”, conversamos sobre essa extraordinária capacidade humana de viver antecipadamente situações que ainda não aconteceram. Podemos imaginar uma conversa difícil antes de entrar na sala, prever obstáculos antes de começar um projeto e experimentar mentalmente alternativas para um problema que talvez apareça amanhã. Essa capacidade pode nos preparar para a realidade, mas também pode produzir sofrimento, porque o mesmo mecanismo que permite ensaiar uma solução permite passar a madrugada inteira ensaiando uma tragédia.
Depois daquele programa eu fiquei pensando que havia alguma coisa que não tínhamos examinado. Quando você se projeta naquele futuro e se imagina entrando na sala, fazendo a apresentação, enfrentando a conversa difícil ou recebendo uma notícia ruim, existe alguém participando de todas essas cenas. É você, claro. Mas talvez a resposta não seja tão simples assim.
Porque nós não levamos apenas nosso corpo para essas situações. A gente leva conosco uma ideia sobre quem somos.
Um sujeito perde um cliente importante. O fato concreto é esse: perdeu um cliente. Pode haver dezenas de razões para aquilo ter acontecido. O concorrente ofereceu um preço melhor, o comprador mudou, o orçamento foi cortado, o produto não atendia mais à necessidade ou ele realmente fez um trabalho ruim. Tudo isso pertence ao terreno dos acontecimentos e, portanto, pode ser investigado.
Mas existe uma passagem quase invisível entre aquilo que aconteceu e aquilo que o sujeito conclui sobre si mesmo. “Perdi um cliente” pode se transformar em “não sou bom nisso”. Uma apresentação ruim pode virar “não sei falar em público”. Um relacionamento que termina pode fornecer material para “ninguém consegue viver comigo”. Uma empresa que fracassa pode produzir “não nasci para empreender”.
Olha só o tamanho do salto, cara. A gente começou descrevendo um acontecimento e terminou definindo uma pessoa.
Talvez você reconheça esse mecanismo porque todos fazemos isso em alguma medida. Vamos recolhendo acontecimentos ao longo da vida e, sem perceber, transformamos alguns deles em provas de uma história que contamos sobre nós mesmos. Depois de algum tempo, a gente já não sabe muito bem se a história nasceu dos fatos ou se a gente começou a selecionar os fatos que confirmam a história.
É aqui que aquela pesquisa sobre autoafirmação começa a ficar muito interessante.
“Oi Luciano, tudo bem? Acabei de escutar o 1045. Estou dirigindo e mandando esse áudio.
Primeiro, a escolha da trilha sonora. Tanto Money For Nothing, quanto You Can’t Always Get What You Want, perfeitos pro episódio. E duas coisas que me fizeram querer mandar essa mensagem.
Eu estava ontem folheando o livro Value Proposition Design. Tem tudo a ver com o assunto, então deixo aí a sugestão do livro para quem nos escuta. E o cliente é o único chefe, né? Que o Sam Walton fala muito comigo porque eu trabalho com a experiência do cliente. Então é bem isso, né? Fazer todo mundo escutar o que o cliente tem a dizer.
E eu sei que está tácito, mas conversa também com um desabafo que você trouxe num outro episódio sobre você enxergar. O fato de que, poxa, tanta gente me escuta de graça e não paga a assinatura, então o problema tá comigo né, de eu entender o que eu preciso fazer pra que as pessoas enxerguem esse valor. Tá aí, né?
De alguma maneira, essa reflexão é o outro lado do que veio nesse episódio, então, meu, só você. Você é realmente um cara incrível e eu sou muito feliz de ser sua assinante e te recomendar pra todo mundo que eu conheço e seguir o que você pensa. Eu já falei isso pra você, né, como você é uma figura importante pra mim, então deixo aqui o meu recado e vida longa, muito longa, a você e ao café.
Essa é a Carol Cirello! Muito obrigado pelo carinho e pela provocação, Carol. Olha. Você tocou num ponto que conversa diretamente com o episódio de hoje. Tem uma diferença enorme entre dizer “o problema sou eu” e “há algo no que estou fazendo que não está funcionando”. A primeira frase, “o problema sou eu” transforma um resultado em identidade; a segunda abre espaço para investigar, aprender e mudar. Eu não sou assim, eu estou assim. Se tanta gente consome o Café Brasil e poucos assinam, eu tenho que olhar para produto, comunicação e percepção de valor. O cliente pode nos mostrar onde estamos errando sem, com isso, definir quem a gente é. E é sim: é Sam Walton: There is Only one boss. The customer.
Em 2015, Christopher Cascio e outros pesquisadores desenvolveram um experimento para observar, por meio de ressonância magnética funcional, o que que acontecia no cérebro durante um exercício de autoafirmação. O estudo seria publicado na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience e, quando você lê apenas o título, pode imaginar que finalmente encontraram a explicação científica para o sujeito que acorda de manhã, olha no espelho e repete “eu sou um vencedor”.
Só que não foi assim que eles fizeram não.
Os participantes foram levados a refletir sobre valores que consideravam importantes em suas próprias vidas. Em vez de fabricar uma qualidade que talvez nem possuíssem, tinham que voltar a atenção para coisas que realmente tinham valor para eles e pensar sobre elas, inclusive projetando-as para o futuro. Os pesquisadores observaram, durante esse processo, maior atividade em regiões associadas ao processamento de informações relacionadas ao próprio indivíduo e à atribuição de valor. E um detalhe me parece especialmente importante: o efeito aparecia com força quando essa reflexão sobre os valores estava ligada ao futuro.
De repente, aquela palavra, “autoafirmação”, começou a significar para mim uma coisa diferente.
Não se tratava de convencer Jerry Lewis de que o bisturi não doeria. A dor continuaria ali. A questão era outra: o que acontece quando pegamos uma experiência ruim e, em vez de dizer “isso aconteceu comigo”, a gente começa a dizer “isso revela quem sou eu”?
Pode ser que seja aí que tenhamos cometido uma confusão importante. Uma coisa é tentar usar palavras para negar a realidade. Outra é usar palavras para impedir que um pedaço da realidade se transforme numa definição de quem a gente é.
Pense novamente naquele sujeito que perdeu o cliente. Dizer “sou um vendedor extraordinário e o universo me trará clientes melhores” pode ser apenas uma maneira sofisticada de fugir do problema. Mas lembrar que valoriza fazer um trabalho bem-feito, que considera importante aprender com os próprios erros e que deseja construir relações duradouras com seus clientes não elimina o fracasso. Ao contrário, pode obrigar você a olhar para o fracasso com mais atenção, porque agora existe um critério pelo qual examiná-lo.
Não é sobre “como é que eu faço para me sentir bem comigo mesmo”, é sobre “o que este acontecimento diz sobre aquilo que eu considero importante”, percebe?
Essa mudança parece pequena, mas começa a mexer numa coisa muito mais profunda do que pensamento positivo.
Ela começa a mexer na história que contamos sobre nós mesmos.
Histórias têm uma característica curiosa: depois que a gente acredita nelas, a gente começa a procurar personagens, acontecimentos e lembranças que as mantenham de pé.
E talvez seja justamente aí que apareça uma das armadilhas mais discretas da nossa cabeça. Depois que uma história sobre nós mesmos ganha alguma consistência, ela deixa de funcionar apenas como uma explicação do passado e começa a funcionar como um filtro para o presente.
Imagine alguém que cresceu ouvindo que era desorganizado. Talvez tenha sido uma criança que esquecia o caderno na escola, perdia a chave de casa, deixava o quarto numa bagunça danada. A mãe reclamava, o pai fazia piada, os irmãos reforçavam e, aos poucos, aquilo que começou como uma descrição de certos comportamentos ganhou outra dimensão: “eu sou desorganizado”.
Passam-se vinte, trinta anos e aquela criança agora administra uma empresa. Curiosamente, mantém compromissos importantes, entrega projetos, paga salários, organiza viagens, resolve problemas complicados. Tem uma quantidade enorme de evidências de que aquele adulto consegue se organizar quando precisa. Mas basta esquecer uma reunião para surgir aquela velha voz: “Está vendo? Eu sou desorganizado mesmo”.
O esquecimento vira prova do defeito. As centenas de compromissos perfeitamente cumpridos, não viram nada.
Não há necessariamente má-fé nisso. O nosso cérebro precisa selecionar informações porque seria impossível prestar a mesma atenção a tudo o que acontece. E aquilo que já acreditamos ajuda a determinar o que merece destaque. Se você compra um carro de determinado modelo, começa a enxergar aquele carro por toda parte. Eles não surgiram de repente nas ruas não; o que mudou foi a sua atenção.
Algo parecido pode acontecer com as ideias que fazemos sobre nós mesmos.
Se eu acredito que sou ruim com números, cada dificuldade diante de uma planilha reforça minha convicção, enquanto as contas que resolvo sem dificuldade passam despercebidas. Se eu acredito que as pessoas não gostam de mim, uma mensagem sem resposta pode ocupar minha cabeça durante horas, enquanto dez demonstrações de carinho parecem apenas acontecimentos normais. Se eu estou convencido de que não tenho disciplina, o dia em que abandono a academia confirma a tese, enquanto os quatro meses em que eu compareci três vezes por semana recebem muito menos importância.
Aos poucos, deixamos de perguntar se aquela história continua verdadeira. Passamos apenas a procurar provas de que ela é.
E veja como isso nos traz de volta ao Café Brasil 1047, mas agora por uma porta diferente. Naquele programa a gente falou sobre o futuro que ensaiamos. E agora começa a aparecer uma possibilidade incômoda: talvez parte do futuro que ensaiamos seja limitada pelo personagem que nós acreditamos ser.
Se minha história diz que “eu travo quando preciso falar em público”, quando me imagino diante de uma plateia dificilmente vou ensaiar a possibilidade de estar tranquilo, de dominar o assunto, de esquecer uma palavra, recuperar o raciocínio e continuar. É mais provável que minha imaginação monte o palco para confirmar o personagem que eu já conheço. Vejo o branco, sinto a vergonha, imagino as pessoas me julgando e chego ao evento tendo ensaiado várias vezes exatamente aquilo que eu mais temo.
E o futuro, então, começa a ser colonizado pelo passado.
Mas cuidado, porque daqui é muito fácil escorregar para o outro lado e concluir que basta trocar a história.
Se “eu não consigo falar em público” me limita, então vou repetir “sou um comunicador extraordinário”. Se “não sei lidar com dinheiro” me atrapalha, vou passara dizer “sou um excelente administrador financeiro”. Se “não consigo emagrecer” me prende, eu vou escrever num cartão “tenho total controle sobre meu corpo”.
E é então que Jerry Lewis volta para a mesa de cirurgia.
Mas o bisturi continua lá…
Na versão deste episódio que vai exclusivamente para os assinantes eu vou falar sobre um estudo de 2009, quando pesquisadores canadenses resolveram investigar justamente o efeito das chamadas afirmações positivas. Eles pediram a participantes que repetissem a frase “Eu sou uma pessoa adorável” — I’m a lovable person — e observaram o que acontecia.
Ih cara! Você ainda não assinou ainda! Tá esperando o quê? Vai lá: mundocafebrasil.com.
Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.
De onde veio este programa tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine só uma palestra ao vivo. E eu já tenho mais de mil e duzentas no currículo. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com.
Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.
Para terminar, uma frase do psicólogo Carl Rogers:
“O curioso paradoxo é que, quando me aceito como sou, então eu posso mudar.”
[tec] man in the mirror jazz
https://www.youtube.com/watch?v=SuWvvlVeY3U
Em 2009, pesquisadores canadenses decidiram testar uma ideia muito popular: repetir frases positivas sobre si mesmo realmente ajuda?
Eles pediram a algumas pessoas que repetissem a frase “Eu sou uma pessoa adorável” — I’m a lovable person — e observaram o efeito.
O resultado não foi tão simples quanto se poderia imaginar.
Entre pessoas que já tinham uma autoestima alta, a frase podia ajudar um pouco. Mas, entre aquelas que tinham uma autoestima baixa, acontecia algo curioso: depois de repetir a frase positiva, algumas se sentiam ainda pior.
Talvez porque existisse uma distância grande demais entre o que estavam dizendo e aquilo em que realmente acreditavam.
Pense em alguém cheio de dívidas, com cartão estourado e contas atrasadas, olhando para o espelho e dizendo: “Eu sou rico.” A frase não altera o saldo da conta. E pode até provocar o efeito contrário. Assim que diz “sou rico”, a pessoa se lembra das dívidas, do boleto vencido, do limite do cartão. Começa uma discussão dentro da cabeça. De um lado está a frase que ela gostaria de acreditar. Do outro, aparecem todas as provas de que aquilo, naquele momento, não é verdade.
É por isso que uma outra forma de autoafirmação me parece muito mais interessante. Em vez de tentar convencer você de que é alguma coisa, ela pede que você se lembre do que considera importante.
A diferença parece pequena, mas altera tudo.
Imagine que estou prestes a ter uma conversa difícil com meu filho. Posso dizer para mim mesmo: “Eu sou um pai maravilhoso.”
Pode até ser agradável ouvir isso. Mas talvez, naquele momento, eu não esteja sendo um pai maravilhoso. Talvez tenha sido injusto, tenha perdido a paciência ou esteja mais preocupado em vencer a discussão do que em entender meu filho.
Agora troque a frase: “Ser um bom pai é importante para mim.”
Parece parecido, mas não é. “Eu sou um pai maravilhoso” é uma conclusão sobre quem eu sou. Quase um carimbo. “Ser um bom pai é importante para mim” funciona de outro jeito. Ela me dá uma referência para olhar meu comportamento.
Se ser um bom pai é realmente importante para mim, talvez eu perceba que falei demais. Que não escutei. Que fui injusto. E concluo que tenho de pedir desculpas.
Percebeu? A autoafirmação não serve necessariamente para proteger o ego. Pode servir para fazer justamente o contrário: ajudar a pessoa a olhar para um erro sem concluir que aquele erro define tudo o que ela é. Eu posso fracassar em alguma coisa sem ser um fracasso.
Essa frase virou quase um clichê de autoajuda, eu sei. Mas existe uma diferença importante escondida aí. Dizer “fracassei” significa falar sobre alguma coisa que aconteceu. Um negócio deu errado. Uma prova foi ruim. Uma decisão foi péssima. Dizer “sou um fracasso” é outra coisa.
Nesse caso, pego um acontecimento, ignoro todas as circunstâncias, apago o restante da minha vida e transformo aquele episódio numa definição de quem eu sou.
É dar importância demais a um único acontecimento. E fazemos isso também quando as coisas dão certo.
Uma pessoa abre uma empresa, tem sucesso e começa a acreditar que é brilhante em tudo. Acerta alguns investimentos e conclui que entende o mercado. Recebe aplausos algumas vezes e começa a imaginar que sua opinião merece atenção em qualquer assunto. Mudou apenas o sinal. O mecanismo continua parecido.
Pegamos alguns acontecimentos da vida, ligamos uns aos outros e construímos um personagem.
O problema não está apenas nas histórias negativas que contamos sobre nós mesmos. Uma história positiva demais também pode nos enganar. O desafio é não confundir três coisas diferentes: aquilo que aconteceu, aquilo que fazemos e aquilo que somos.
Quando conseguimos separar essas coisas, aparece uma possibilidade importante: mudar.
Posso dizer: “Tenho sido desorganizado com meu dinheiro.”
Essa frase deixa uma porta aberta. Posso aprender, pedir ajuda, criar uma planilha, cortar gastos, mudar hábitos. Mas existe uma diferença quando digo: “Eu sou desorganizado com dinheiro.”
Parece que não estou mais falando de um comportamento. Estou descrevendo uma característica fixa da minha personalidade. E isso pode ser bastante confortável. Porque, se eu sou assim, talvez não haja muito o que fazer.
As histórias que contamos sobre nós mesmos não servem apenas para explicar quem somos. Às vezes elas também servem para explicar por que continuamos fazendo exatamente as mesmas coisas.
É por isso que a questão não é aprender frases mais bonitas para repetir diante do espelho.
Se algumas histórias que contamos sobre nós mesmos foram construídas escolhendo certos pedaços do passado e ignorando outros, talvez não precisemos trocá-las por histórias mais positivas.
Talvez precisemos fazer algo mais difícil: voltar a examiná-las.
[tec] man in the mirror
https://www.youtube.com/watch?v=Z9NYDgbKsBE
Ah… essa é a inesquecível Man in the Mirror, de Michael Jackson. Escolhi essa canção porque ela se encaixa muito bem neste episódio. Michael não propõe inventar uma versão melhor de nós mesmos, mas olhar para aquela que já existe. O homem no espelho não diz “eu sou maravilhoso” nem tenta convencer-se de que seus problemas desaparecerão. Ele reconhece que, se deseja alguma mudança, precisa começar examinando a própria participação naquilo que pretende mudar. É quase o ponto a que chegamos neste Café Brasil: o espelho não serve para repetir quem gostaríamos de ser. Serve para enxergar quem somos com clareza suficiente para descobrir o que ainda podemos mudar.
sobe
Muito bem, então peque aquele “eu sou assim” e faça uma pergunta muito simples: Desde quando? E procure a primeira vez em que aquilo apareceu. Depois procure as exceções. Os momentos em que você não foi assim. As circunstâncias em que conseguiu agir de outra maneira. A intenção não é provar que a velha história é falsa, mas descobrir se ela é tão completa quanto você imaginava.
Porque talvez o objetivo não seja convencer sua cabeça de que você é outra pessoa. Talvez seja parar de obrigá-la a representar, todos os dias, o mesmo personagem.
sobe
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