Em Karatê Kid, Daniel LaRusso procura o senhor Miyagi porque quer aprender a lutar. Imagina golpes, defesa, técnica. Mas Miyagi o manda encerar carros, pintar cercas, lixar assoalho. Daniel obedece por algum tempo, até perder a paciência. Aquilo não parece treinamento. Parece trabalho doméstico.
Então Miyagi pede que ele repita os movimentos.
Daniel faz o gesto de encerar. Miyagi ataca e ele bloqueia. Faz o movimento da pintura. Outro ataque, outra defesa.
E Daniel percebe que estava aprendendo o tempo inteiro.
Lembrei dessa cena ao conhecer uma distinção proposta pelo teólogo Servais Pinckaers. Embora ele tenha desenvolvido suas ideias dentro da filosofia moral cristã, o que diz sobre liberdade ajuda a enxergar situações muito comuns.
Pense, por exemplo, numa pessoa que diz que mexe no celular porque quer. Tudo bem. Mas se ela tenta ficar vinte minutos sem olhar a tela e não consegue, alguma coisa fica estranha nessa história. A escolha continua sendo dela, mas a capacidade de escolher parece ter diminuído.
Pinckaers fala de duas maneiras de entender a liberdade. A primeira é aquela que conhecemos melhor: sou livre quando posso fazer minhas escolhas sem que alguém me impeça. Posso ir ou ficar, comprar ou não comprar, aceitar ou recusar. Quanto menos obstáculos entre minha vontade e minha ação, mais livre eu seria.
Mas existe uma segunda possibilidade. Ser livre também pode significar adquirir a capacidade de fazer bem aquilo que escolhemos fazer.
Pense num piano. Quem nunca estudou música é completamente livre para apertar qualquer tecla. Não há nenhuma proibida. Só que essa pessoa provavelmente não consegue tocar Tom Jobim.
Já o pianista que passou anos submetido a escalas, exercícios, correções e repetição parece ter vivido sob muito mais restrições. Só que, depois de algum tempo, consegue interpretar, improvisar, criar, tocar de ouvido. A disciplina que limitou seus movimentos no começo ampliou suas possibilidades depois.
A mesma lógica aparece no dinheiro. Uma pessoa pode passar anos exercendo a liberdade de comprar tudo que deseja e descobrir, mais tarde, que boa parte do salário futuro já pertence ao banco. Outra pode aceitar limites agora justamente para ter mais escolhas adiante.
E é aqui que a coisa começa a ficar interessante, porque liberdade não é apenas ter opções. Também é desenvolver domínio suficiente para escolher entre elas.
Isso muda até a forma de olhar para compromissos. Casamento, profissão, filhos, estudo, treino, qualquer escolha séria fecha algumas portas. Mas também abre outras que jamais existiriam para quem permanece eternamente disponível para tudo.
Um sujeito de vinte anos pode adiar escolhas porque quer manter suas possibilidades abertas. Faz sentido. Só que, se passar vinte anos fazendo isso, não chegará aos quarenta com todas as opções intactas. O tempo terá escolhido uma parte delas por ele.
A não escolha também constrói uma história.
Por isso a liberdade do instante e a liberdade construída ao longo da vida não são exatamente a mesma coisa. Uma delas pergunta: “posso fazer isso agora?”. A outra exige olhar um pouco mais longe e perceber o que aquela decisão vai tornando possível, ou impossível, amanhã.
No Café Brasil desta semana eu fui mais fundo nessa distinção de Servais Pinckaers e nas consequências dela para hábitos, disciplina, compromissos e maturidade. Não se trata de defender regras por defender regras, mas de examinar uma questão que me parece cada vez mais importante: há situações em que aquilo que parece limitar nossa liberdade pode ser justamente o que a constrói.
O episódio completo se chama “As duas liberdades”. Está no Café Brasil.
