Quando uma política pública é anunciada, o que as pessoas farão com a regra depois que aprenderem a usá-la? O governo pensa no comportamento que deseja produzir. A população trata de descobrir o comportamento que a regra passou a premiar. Às vezes, as duas coisas coincidem. Às vezes, nasce um desastre.
Tem uma história que conta que, durante o domínio britânico da Índia, a cidade de Délhi enfrentava um problema com cobras venenosas. As autoridades encontraram uma solução aparentemente impecável: pagar por cada cobra morta entregue ao governo. Se matar cobras desse dinheiro, mais gente iria caçá-las e a cidade ficaria mais segura.
E os números melhoraram. Dia após dia, mais serpentes apareciam nos postos de coleta. Mas se tantas cobras estavam sendo eliminadas, por que a quantidade entregue não parava de crescer? Foi nesse intervalo entre a planilha e a rua que a política revelou sua verdadeira natureza. O plano não só fracassou, mas tornou o problema maior.
O economista alemão Horst Siebert chamou esse mecanismo de Efeito Cobra. Ele aparece quando uma medida criada para combater um comportamento acaba tornando esse mesmo comportamento vantajoso. A autoridade oferece uma recompensa pensando em suas intenções; as pessoas respondem ao incentivo real, àquilo que passou a valer a pena fazer.
Talvez por isso tantas políticas pareçam funcionar de perto e fracassem quando vistas por inteiro. Contamos atendimentos, não pessoas que deixaram de precisar deles. Celebramos o aumento de beneficiários sem perguntar se aumentou também a autonomia. Premia-se uma escola pela aprovação e, algum tempo depois, aprovar um aluno se torna mais importante do que ensiná-lo.
Muitas dessas decisões nascem de gente convencida de que está fazendo o bem. A armadilha começa quando confundimos intenção com resultado e escolhemos um número para representar a realidade. Assim que a medida se transforma em meta, as pessoas aprendem a melhorar a medida, nem sempre a realidade que ela deveria medir.
Isso ajuda a compreender uma contradição brasileira que muita gente prefere atribuir à ignorância do eleitor. Como um governo pode conservar a imagem de protetor dos mais pobres enquanto essas mesmas pessoas sentem, no supermercado, o dinheiro comprar cada vez menos? Talvez porque elas não consigam fazer a ligação entre o benefício que chega com remetente e os custos que se espalham sem assinatura.
O depósito aparece no aplicativo. O emprego que não foi criado não aparece. A obra inaugurada tem placa. O investimento perdido não deixa fotografia. O político mostra aquilo que entregou; ninguém recebe uma notificação sobre o que desapareceu para financiar a entrega.
É aí que a história das cobras encontra Frédéric Bastiat, o economista que nos ensinou a desconfiar daquilo que se vê.
No Café Brasil desta semana, o 1041, conto como terminou o plano britânico, mostro onde o Efeito Cobra se esconde nas decisões públicas e encaro uma pergunta desconfortável: como alguém pode se apresentar como solução quando seus incentivos ajudam a produzir o problema que promete combater?
Ouça o episódio completo. Depois dele, certas planilhas talvez nunca mais pareçam tão inocentes.
