Olha só, ao final do dia, todo mundo foi embora, mas a decisão ficou com você. É você que tem que escolher se avança ou se recua, você que contrata ou demite, você que insiste ou encerra, e quase sempre, cara, você decide sozinho, justamente aquilo que pode mudar o rumo da sua empresa, da sua carreira e da sua vida.
Então, nos dias 1 e 2 de agosto, das 9 às 13, eu vou conduzir à mesa. Tem uma crase nesse a, é um convite, um convite para um encontro online e ao vivo para empresários, líderes e profissionais que estão cansados de carregar sozinhos as decisões que mais importam.
Você que pertence ao agronegócio ou está interessado nele, precisa conhecer a Terra Desenvolvimento.
A Terra oferece métodos exclusivos para gestão agropecuária, impulsionando resultados e lucros. Com tecnologia inovadora, a equipe da Terra proporciona acesso em tempo real aos números de sua fazenda, permitindo estratégias eficientes. E não pense que a Terra só dá conselhos e vai embora, não. Ela vai até a fazenda e faz acontecer! A Terra executa junto com você!
E se você não é do ramo e está interessado em investir no Agro, a Terra ajuda a apontar qual a atividade melhor se encaixa no que você quer.
Descubra uma nova era na gestão agropecuária com a Terra Desenvolvimento. Transforme sua fazenda num empreendimento eficiente, lucrativo e sustentável.
Há 25 anos colocando a inteligência a serviço do agro.
Outro dia, uma dessas empresas que vendem filmes pela internet mandou uma mensagem aos clientes. O comunicado era curto, objetivo, quase burocrático. Informava que, em razão do encerramento de determinados contratos de licenciamento, alguns filmes seriam retirados das bibliotecas digitais.
Até aí, nenhuma novidade. Catálogos de streaming mudam o tempo todo. Filmes entram, filmes saem, séries desaparecem. Quem assina Netflix, Amazon, Disney ou qualquer outro serviço já se acostumou com isso. Você paga pelo acesso a um catálogo, e o catálogo muda. Faz parte do acordo.
Só que havia um detalhe.
Os filmes que desapareciam não tinham sido alugados. Também não faziam parte de uma assinatura. Tinham sido comprados.
Na página da loja, o consumidor encontrara duas opções. Podia pagar um valor menor para alugar o filme por alguns dias ou um valor maior para comprá-lo. E escolheu comprar. Pagou. O título apareceu em sua biblioteca, ao lado dos outros filmes que havia adquirido. E ficou ali durante meses ou anos, até que um dia a empresa avisou que ele seria removido.
Sem reembolso, sem possibilidade de transferência, sem discussão.
O cliente descobriu, da maneira mais desagradável, que não tinha comprado exatamente um filme. Tinha comprado uma autorização para assistir ao filme enquanto a plataforma mantivesse o acordo de licenciamento que permitia disponibilizá-lo. A palavra usada na loja era “comprar”, mas a experiência real estava muito mais próxima de um aluguel por tempo indeterminado.
Pode parecer um problema pequeno. Afinal, é apenas um filme. Há coisas mais importantes na vida. Mas a situação produz um incômodo difícil de ignorar porque mexe com uma ideia muito antiga, quase intuitiva, que aprendemos antes mesmo de conhecer qualquer conceito de economia.
Quando você compra alguma coisa, aquela coisa passa a ser sua.
Parece simples.
A moeda sai da sua mão, o objeto deixa a prateleira do vendedor e entra na sua casa. A partir daí, você pode usá-lo, guardá-lo, emprestá-lo, vendê-lo, presenteá-lo ou esquecê-lo no fundo de uma gaveta. O fabricante pode lançar uma versão nova, mudar de dono ou fechar as portas. Nada disso altera o fato de que o produto comprado continua sendo seu.
Um livro não desaparece da estante porque a editora perdeu os direitos de publicação. Um disco não para de tocar porque a gravadora encerrou o contrato com o artista. Um relógio não deixa de marcar as horas porque o fabricante decidiu concentrar seus negócios em outro mercado.
Essa relação entre pagamento e propriedade ajudou a organizar boa parte da vida material das pessoas. Comprar não era apenas obter o uso de uma coisa. Era encerrar uma relação. Depois de receber o dinheiro e entregar o produto, o vendedor saía de cena. O que acontecia com aquele objeto passava a dizer respeito ao novo proprietário.
Mas estamos entrando num mundo em que o vendedor não sai mais de cena. Ele vende o objeto, recebe o dinheiro e continua presente dentro do produto. Você já reparou nisso?
Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?
Então… estamos entrando num mundo em que o vendedor não sai mais de cena. Ele vende o objeto, ou o serviço, recebe o dinheiro e continua presente dentro do produto ou serviço.
Às vezes por meio de um aplicativo. Às vezes por meio de uma senha. Às vezes por meio de um contrato de licença que ninguém lê. Às vezes por meio de um servidor instalado a milhares de quilômetros de distância, capaz de decidir se aquilo que está em sua casa continuará funcionando amanhã.
Você olha para a coisa e acredita que ela é sua. Mas ela tem um dono invisível.
Alguns anos atrás, a BMW anunciou em determinados mercados que passaria a oferecer o aquecimento dos bancos de seus automóveis por assinatura. Os bancos já estavam instalados, a resistência elétrica já estava ali, assim como os fios, os sensores e os controles. Tudo fazia parte do carro que o consumidor havia comprado. O que faltava não era uma peça nem um serviço de instalação. Faltava uma autorização digital para que a eletricidade chegasse ao sistema.
O proprietário podia pagar mensalmente para usar o banco aquecido ou desembolsar uma quantia maior para liberar a função de forma permanente. A ideia provocou uma reação tão negativa que a empresa acabou recuando naquele caso específico.
Olha que absurdo… você paga pelo carro, que vem todos os equipamentos, mas para poder usar uma função específica, tem de pagar para o fabricante do carro. Que absurdo…
Mas é possível compreender a lógica industrial. Talvez seja mais barato fabricar todos os carros com o mesmo banco e liberar o recurso apenas para quem pagar por ele. A linha de produção fica mais simples, diminuem as variações, e se reduz a complexidade do estoque.
Mas essa explicação não resolvia a sensação do consumidor.
Ele estava sentado sobre um equipamento que havia comprado, dentro de um automóvel que havia comprado, usando combustível ou eletricidade que havia comprado, e ainda assim precisava pagar uma mensalidade para que o fabricante autorizasse a passagem de corrente por um fio instalado no seu próprio carro.
O problema não era apenas financeiro. Era simbólico.
A empresa estava dizendo ao comprador que ter fisicamente uma coisa não significava ter o direito de usá-la.
A partir daí, o exemplo dos bancos aquecidos parece absurdo, mas não fica isolado não. Outros fabricantes passaram a experimentar modelos semelhantes com potência do motor, suspensão, navegação, aplicativos instalados no painel e sistemas de segurança.
O carro sai da fábrica capaz de fazer determinada coisa. A capacidade está ali, presente. O software, porém, mantém parte dela trancada. Você paga não para acrescentar algo ao veículo, mas para retirar a limitação colocada deliberadamente pelo fabricante.
É que nem comprar um apartamento com três quartos e descobrir que uma das portas só será aberta mediante assinatura mensal. O quarto existe. Está dentro da área pela qual você pagou, A construtora só conservou a chave.
Isso começa a aparecer em uma quantidade crescente de produtos.
Você compra uma câmera para instalar na porta de casa. A câmera grava imagens. Mas, sem uma assinatura, talvez não armazene o vídeo e não permita acessar gravações anteriores.
Você compra um relógio que mede sono, atividade física e frequência cardíaca. Mas parte dos dados que o próprio aparelho recolhe só aparece se você continuar pagando uma mensalidade.
Você compra uma bicicleta ergométrica sofisticada. O equipamento está na sala, ocupa espaço e custou caro. Sem a assinatura, porém, várias funções que davam sentido à compra deixam de existir.
Você compra uma impressora. Dentro dela há um cartucho com tinta. Se o cartucho estiver vinculado a determinado plano e o pagamento for interrompido, a empresa pode desativá-lo remotamente, mesmo que ainda haja tinta ali.
Já li relatos de consumidores que viram cartuchos parar de imprimir de uma página para outra, sem que a tinta tivesse acabado. É que o limite do plano havia sido atingido ou a assinatura havia sido cancelada.
Pense no que aconteceu nesse caso. A tinta está dentro da casa do cliente, dentro da impressora do cliente. Foi enviada para ele.
Mesmo assim, alguém, em algum servidor, conserva o poder de decidir se aquela tinta poderá tocar o papel.
Talvez isso seja juridicamente até defensável. Pode estar explicado em algum lugar das condições de uso. Um advogado provavelmente mostrará que o consumidor não comprou exatamente a tinta, mas aderiu a um serviço de impressão por quantidade de páginas. Está tudo no contrato.
Só que a vida cotidiana não é vivida dentro de um tribunal, cara.
As pessoas não se relacionam com produtos por meio de interpretações sofisticadas de cláusulas contratuais. Elas se relacionam com palavras comuns.
Comprar, alugar, assinar, possuir…
Quando uma empresa chama de compra uma relação em que o consumidor não adquire controle duradouro sobre o produto, pode até estar protegida por suas cláusulas, mas começa a corroer a confiança construída em torno dessas palavras.
E confiança é um negócio curioso. Demora anos para ser construída e pode desaparecer no momento em que uma impressora se recusa a imprimir apesar de ainda haver tinta no cartucho.
O problema fica ainda mais interessante quando comparamos esse mundo com aquele em que cresceram nossos pais e avós.
Não era um mundo necessariamente melhor. Os carros quebravam, os eletrodomésticos consumiam muita energia, as televisões tinham imagem ruim, os telefones eram presos à parede. Um disco de vinil podia riscar, uma fita cassete podia ser mastigada pelo aparelho no meio da música.
Mas havia uma característica muito importante: as limitações estavam no objeto.
Se o rádio parasse de funcionar, alguém poderia abri-lo. Talvez um técnico do bairro encontrasse um fio solto, trocasse uma válvula ou substituísse uma peça. O fabricante não precisava autorizar o conserto. Não era necessário criar uma conta, aceitar novos termos de uso ou esperar que um servidor voltasse ao ar.
Quem tinha um Fusca sabia que, em alguma oficina próxima, havia um mecânico capaz de desmontar e montar boa parte daquele carro. O proprietário podia escolher onde consertá-lo, comprar peças de diferentes fornecedores e, em alguns casos, improvisar uma solução até chegar em casa.
Hoje, muitos produtos são melhores, mais eficientes e mais seguros. Mas são também mais fechados.
Um defeito pequeno pode exigir um diagnóstico eletrônico exclusivo. Uma peça pode estar vinculada ao número de série do aparelho. Um conserto pode depender de um software que apenas a assistência autorizada possui. Um equipamento perfeitamente funcional pode se tornar inútil porque o fabricante deixou de atualizar o sistema.
A tecnologia aumentou nossa capacidade de usar as coisas, mas também aumentou a capacidade das empresas de controlar como nós as usamos.
E existe uma diferença importante entre essas duas capacidades.
Fala Luciano, bom dia, boa tarde, boa noite, Tiago Mantovani aqui de Mirassol, depois de algum tempo sem enviar nenhuma mensagem.
Esses tempos atrás eu me afastei um pouco, eu escuto com frequência aqui o podcast, o Café Brasil, o Líder Cast, eu escuto o professor Clovis também, diariamente, ou melhor, vinha escutando.
Com o andar das coisas, movimentos da vida aqui, eu fui me afastando, fui deixando de ouvir, e essa semana eu parei pra ouvir, falei, deixa eu ouvir aqui o Café Brasil, deixa eu ouvir o que o Luciano tem pra falar.
E ao entrar aqui novamente no portal, tinha sete episódios do podcast sem ouvir. Eu vou maratonar esse podcast agora. E durante a audição aqui eu vou trabalhando, fazendo algumas coisas que não demandam tanto a minha atenção e ouvindo e refletindo os podcasts.
Eu vim pensando como que a nossa vida nos leva pra um caminho diferente, nos leva pra um comodismo, pra um consumismo ali do que tá pronto. E aí esse último, o 1038 aí, veio confirmar o que eu havia pensado.
Então agradeço bastante aí mais uma vez o trabalho de vocês. Que me ajuda a enxergar, a entender e a combater um pouquinho essa, vamos dizer assim, essa realidade que tira a gente dos trilhos aí, que tira a gente do caminho da evolução e põe a gente num caminho de mesmice, de robotização, vamos falar assim.
Então achei bacana demais esses últimos episódios, todos eles com bastante bastante reflexão, mas o último veio bem de encontro com o que eu estava pensando. Um abraço, vida longa aí ao Café.
Grande Tiago, que bom ter você de volta. Seu comentário conversa diretamente com este episódio aqui, viu? Às vezes, sem perceber, a gente terceiriza não apenas o que consumimos, mas também a nossa atenção, nossos hábitos e até o rumo da vida. Entramos no automático e passamos a “assinar” rotinas que a gente já não escolhe conscientemente. Talvez o primeiro gesto de liberdade seja justamente esse que você fez aí: parar, voltar, ouvir e decidir de novo o que merece ocupar sua cabeça.
Muito obrigado pelo carinho e principalmente pelo desejo de vida longa ao Café Brasil!
A tecnologia aumentou nossa capacidade de usar as coisas, mas também aumentou a capacidade das empresas de controlar como nós as usamos.
E existe uma diferença importante entre essas duas capacidades.
Quando a tecnologia amplia aquilo que o produto pode fazer, ela serve ao proprietário. Quando ela amplia aquilo que o fabricante pode impedir que o proprietário faça, a relação começa a se inverter.
Nós continuamos pagando, mas controlamos menos.
Durante muito tempo, uma assinatura correspondia a alguma coisa que precisava continuar sendo produzida.
Por exemplo, você assinava um jornal porque, todas as manhãs, jornalistas precisavam apurar notícias, redigir textos, editar páginas, imprimir exemplares e entregá-los na sua casa.
Assinava uma revista porque uma nova edição era preparada todos os meses.
Pagava televisão a cabo porque havia uma estrutura transmitindo programação continuamente.
A mensalidade fazia sentido porque a prestação também era contínua.
Nesse novo modelo, muitas vezes o pagamento recorrente não financia uma nova entrega. Ele apenas impede que uma função já existente seja desligada.
Você entendeu? Essa é a fronteira que a gente tem que observar.
Não tem nada de errado em pagar por um serviço. Não tem nada de errado em assinar um catálogo de filmes, contratar armazenamento na nuvem ou pagar por manutenção. Tá tudo certo, cara! Em muitos casos, o modelo de assinatura é mais conveniente para o consumidor e mais sustentável para a empresa.
O problema começa quando um produto é vendido como se estivesse completo, mas permanece artificialmente incompleto para que o comprador continue pagando.
Não se vende apenas a coisa. Vende-se a dependência.
Mas por que será tantas empresas diferentes chegaram à mesma ideia, hein?
Por que fabricantes de automóveis, impressoras, programas de computador, equipamentos esportivos, câmeras e eletrodomésticos começaram a demonstrar o mesmo entusiasmo por cobranças recorrentes? Essas assinaturas?
A resposta mais simples é que a receita recorrente é uma das coisas mais desejadas no mundo dos negócios.
Imagine aqui duas empresas.
A primeira vende um produto por mil reais. Para faturar novamente, ela tem que encontrar outro cliente ou convencer o mesmo cliente a comprar outro produto. A cada mês, recomeça a batalha. Publicidade, vendedores, descontos, lançamentos.
Já uma segunda empresa cobra cem reais por mês de dez mil clientes. No primeiro dia do mês, antes de realizar uma nova venda, já existe uma fila de cobranças programadas no cartão de crédito.
Você entendeu? Para quem administra um negócio, essa previsibilidade é preciosa.
Ela permite planejar investimentos, contratar funcionários, negociar empréstimos e estimar o caixa. Também torna a empresa mais atraente para investidores, bancos e fundos interessados em comprá-la.
O mecanismo financeiro associado a esse fenômeno é sensacional: empresas com receitas recorrentes podem ser avaliadas não apenas pelo lucro que produzem naquele momento, mas pela expectativa de pagamentos futuros de sua base de assinantes. Isso incentiva investidores e administradores a transformar vendas isoladas em contratos permanentes.
Não precisamos imaginar uma reunião secreta em que empresários perversos decidem acabar com a propriedade privada. Nada disso, cara!
O mecanismo é muito mais banal e, por isso mesmo, ele é muito mais poderoso.
A empresa percebe que assinaturas aumentam sua previsibilidade. O mercado financeiro passa a valorizar empresas com receita recorrente. Os executivos são premiados por aumentar essa receita. Os investidores recompensam os modelos que mantêm clientes pagando todos os meses.
Você entendeu? Aos poucos, todos passam a procurar alguma parte do produto que possa ser transformada em mensalidade.
É um sistema de incentivos. E sistemas de incentivos não precisam ter consciência para produzir consequências.
O vendedor de carros olha para o banco aquecido e enxerga uma assinatura. O fabricante de impressoras olha para o cartucho e enxerga uma assinatura. A empresa de software olha para um programa que antes era vendido numa caixa e enxerga uma assinatura. A fabricante de eletrodomésticos olha para recursos conectados e enxerga uma assinatura.
O produto deixa de ser apenas aquilo que será entregue ao consumidor. Torna-se uma porta de entrada para cobranças futuras.
Isso altera, totalmente, o próprio desenho das coisas.
No modelo tradicional, a empresa precisava convencer o consumidor a comprar novamente. Para isso, lançava um produto melhor, criava uma nova versão ou oferecia alguma inovação.
No modelo recorrente, uma parte do esforço se desloca. Em vez de conquistar uma nova decisão de compra, a empresa tenta fazer com que a decisão antiga continue produzindo pagamentos.
E tem uma diferença enorme entre essas duas tarefas.
Convencer alguém a comprar exige demonstrar valor. Impedir alguém de cancelar exige aumentar o custo da saída. É por isso que tantos serviços são fáceis de contratar e difíceis de abandonar.
A entrada você faz com dois cliques. A saída exige encontrar uma opção escondida, responder perguntas, rejeitar ofertas, esperar numa linha telefônica ou conversar com alguém treinado para impedir o cancelamento. Já aconteceu com você, cara?
O consumidor organiza a vida em torno do serviço. Armazena fotos, arquivos, músicas, contatos, histórico de exercícios e dados pessoais. Compra equipamentos que dependem daquela plataforma. Aprende a usar o sistema. Integra a família. Instala aparelhos pela casa.
Quando o preço aumenta, ele não compara só a mensalidade. Compara o custo de ir embora.
Eu vou ter que transferir meu arquivos? Vou perder o histórico? O aparelho vai funcionar ou não? A família vai ter que aprender outra plataforma? Vai ser necessário comprar novos equipamentos? Meu Deus…
É exatamente isso que há anos me impede de trocar meu iPhone por um Android… A Apple não precisa me manter completamente satisfeito não. Ela só tem que tornar a insatisfação menos dolorosa do que a saída.
E essa é uma mudança muito importante.
Durante muito tempo, a lealdade do consumidor foi imaginada como resultado de confiança, qualidade e bom atendimento. No novo modelo, parte da lealdade pode ser apenas cansaço.
Você continua não é porque gosta não, mas é porque dá trabalho sair.
É o que os economistas chamam de custo de troca. Depois que a pessoa investiu dinheiro, tempo e energia num sistema, aceita condições que talvez rejeitasse se estivesse começando do zero.
Quer um exemplo legal? Uma câmera de segurança. Você compra o equipamento, instala na parede, fura a fachada, configura o aplicativo, ensina a família a usar e começa a depender das gravações. Algum tempo depois, a mensalidade aumenta.
Em tese, você é livre para cancelar.
Na prática, cancelar pode significar perder boa parte da utilidade do equipamento que já está preso na sua casa.
E a empresa sabe disso.
Não precisa aumentar o preço a ponto de provocar uma revolta. Ela só precisa aumentar até o limite em que a irritação ainda seja menor do que a inconveniência da mudança.
Imagine só naquela assinatura de armazenamento de imagens de câmeras que subiu de cem para cento e cinquenta reais por ano em apenas dois anos.
Cara, por causa de 50 reais por ano vou encarar toda a inconveniência de abandonar o sistema? Vou é engolir o aumento. Depois de instalar o aparelho e incorporar o serviço à minha rotina, abandonar esse sistema se tornou mais custoso do que pagar esses 50 reais, entendeu?
E tem outra vantagem nas assinaturas: elas fragmentam o custo.
Ninguém gosta de pagar 1.200 reais por um serviço. Mas cem reais por mês parecem mais toleráveis, não é? Ninguém quer pagar 600 reais por uma função. Mas 19,90 por mês parece pouco.
É assim que o orçamento vai sendo ocupado.
Dezenove e noventa para isso. Trinta e nove e noventa para aquilo. Doze e noventa para guardar arquivos. Vinte e quatro e noventa para ouvir música. Quarenta para assistir a filmes. Mais uma taxa para usar o equipamento. Outra para liberar recursos avançados.
Pronto. Separadamente, cada cobrança parece muito pequena. Juntas, transformam a vida numa espécie de condomínio invisível.
Você já acorda no primeiro dia do mês e uma parte de sua renda já pertence a empresas com as quais mantém relações automáticas. Muitas dessas cobranças continuam acontecendo sem que você nem mesmo pense nelas. Quantas assinaturas você já tem esquecidas ai, pagando todo mês?
Aliás, esse é um dos elementos mais importantes desse modelo. O pagamento precisa desaparecer da consciência.
Quando você entrega dinheiro ou passa um cartão, você sente a compra. Tem um pequeno momento de decisão ali. Vale a pena? Preciso disso? Posso pagar?
Tanto que uma das dicas que se dá pra você regularizar tua vida financeira, não uo. 9se cartão. Use dinheiro. A saída do dinheiro do teu bolso dói de montão.
Na cobrança automática, esse momento não existe.
O valor é retirado de sua conta sem que a escolha tenha que ser renovada.
A assinatura continua e não é porque você decidiu novamente que ela vale a pena não. É porque você não decidiu interrompê-la. Vai ver que nem lembrou dela.
Parece a mesma coisa, não é? Mas não é não.
A empresa não precisa mais conquistar um “sim” todos os meses. Ela precisa apenas evitar um “não”.
É uma mudança pequena no gesto e enorme no resultado.
Nossos pais compravam uma geladeira e, depois de algumas prestações, terminavam de pagar a geladeira. Compravam um televisor e terminavam de pagar o televisor. Compravam uma coleção de discos e aqueles discos continuavam em casa sem apresentar novas cobranças.
O objeto podia envelhecer, mas a relação financeira se encerrava.
Hoje, muitas vezes, a gente quita o objeto e continuamos pagando a sua utilidade.
Você compra o carro, mas aluga funções. Compra a impressora, mas aluga a capacidade de imprimir. Compra a câmera, mas aluga a memória. Compra o programa, mas aluga o direito de abri-lo no mês seguinte.
Chegamos a uma situação curiosa: podemos terminar de pagar a coisa sem nunca terminar de pagar para usá-la.
Isso produz uma sensação de instabilidade que vai muito além do dinheiro.
A propriedade sempre ofereceu algum grau de segurança psicológica. Mesmo que saibamos que tudo que possuímos seja eterno, certos aspectos da vida ficavam fora da renegociação permanente.
A cadeira era sua, a ferramenta era sua, o livro era seu.
Você não tinha que verificar mensalmente se ainda tinha autorização para sentar, trabalhar ou ler.
Quando tudo depende de uma relação ativa com empresas distantes, a vida cotidiana passa a carregar uma condição invisível.
Funciona enquanto.
Enquanto o cartão estiver válido. Enquanto o servidor estiver ligado. Enquanto a empresa existir. Enquanto o contrato de licenciamento for mantido. Enquanto o sistema operacional continuar compatível. Enquanto o fabricante considerar interessante oferecer suporte. Enquanto você aceitar o próximo reajuste.
A coisa está na sua casa, mas a continuidade de funcionamento está em outro lugar.
Talvez seja por isso que o debate não possa ficar restrito ao preço.
O preço importa, é claro. Assinaturas acumuladas pesam no orçamento, escondem custos e tornam o gasto mensal menos previsível. Mas tem algo muito mais profundo em jogo.
O controle. Controle.
Mas isso é um assunto a ser discutido na versão deste episódio que vai exclusivamente para os assinantes. Ah, você ainda não assinou? Tá esperando o quê, hein? Você vai gastar o preço de duas Cocas em lata… Vai! Vamos a uma assinatura recorrente aí? No mundocafebrasil.com é o lugar. Venha! O programa completo está lá.
Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.
De onde veio este programa tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine só uma palestra ao vivo. E eu já estou com mais de mil e trezentas palestras no currículo. Já virei a chave aqui. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com. Tem uns lá que vão virar a sua cabeça.
Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.
Para terminar, uma frase do escritor Henry David Thoreau
“Tenho tanta propriedade quanto aquilo que posso comandar e usar.”
