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Imagine a cidade de Délhi durante o domínio britânico da Índia. Não a metrópole congestionada que conhecemos hoje, com seus milhões de habitantes, avenidas tomadas por automóveis e prédios modernos, era uma cidade ainda cercada por terrenos abertos, vielas estreitas, mercados ao ar livre e casas onde o limite entre o espaço urbano e a natureza era muito menos definido.
A presença de cobras venenosas preocupava as autoridades coloniais. A solução parecia tão lógica que provavelmente foi aprovada sem muita discussão: o governo pagaria uma recompensa por cada cobra morta entregue aos funcionários britânicos.
O raciocínio cabia numa linha. Se matar cobras desse dinheiro, mais pessoas passariam a caçá-las. Quanto mais caçadores, menos cobras. Quanto menos cobras, mais segura ficaria a cidade.
E, durante algum tempo, os números pareciam confirmar o plano.
Homens começaram a aparecer diante dos postos do governo carregando serpentes mortas. As autoridades contavam os animais, pagavam as recompensas e registravam o resultado. Dia após dia, o volume de cobras entregues aumentava. Para quem observasse apenas aquelas planilhas, a política pública era um sucesso.
Mas, tinha alguma coisa estranha. Se tantas cobras estavam sendo eliminadas, por que que continuavam chegando em quantidade cada vez maior?
A resposta teria sido descoberta algum tempo depois. Alguns moradores perceberam que caçar cobras na natureza era trabalhoso, perigoso e imprevisível. Criá-las em casa era muito mais eficiente.
Surgiram então pequenos criadouros clandestinos. As serpentes nasciam em cativeiro, eram alimentadas até atingir o tamanho adequado, mortas e entregues ao próprio governo que desejava eliminá-las. Os britânicos pensavam estar financiando caçadores. Na prática, haviam criado um mercado de produção de cobras.
Quando as autoridades perceberam a fraude, tomaram outra decisão que também parecia óbvia: cancelaram imediatamente a recompensa.
E nesse momento, as cobras mantidas nos criadouros perderam seu valor. Já não havia razão para alimentá-las, muito menos para continuar correndo o risco de mantê-las dentro de casa. Seus donos fizeram o que parecia mais conveniente: abriram as gaiolas e soltaram os animais.
Segundo a história, Délhi terminou com mais cobras do que tinha antes.
Olha, a gente não sabe exatamente quando isso teria ocorrido não. Não conhecemos o nome do funcionário que propôs a recompensa, o valor que foi pago nem quantas cobras foram entregues. Na verdade, pesquisadores que procuraram documentos da época não encontraram provas suficientes de que a criação em cativeiro tenha acontecido daquela maneira.
A história, porém, atravessou o tempo. Em 2001, o economista alemão Horst Siebert deu a ela um nome ao publicar o livro Der Kobra-Effekt: o Efeito Cobra.
A expressão passou a designar aquelas situações em que uma solução não apenas fracassa, mas cria incentivos para que o problema se torne ainda maior. A autoridade olha para o resultado que deseja, oferece uma recompensa e presume que as pessoas agirão conforme sua intenção. Só se esquece de que ninguém responde às intenções. As pessoas respondem aos incentivos.
Talvez a história das cobras nunca tenha acontecido exatamente assim. Mas basta olhar ao redor para perceber que o mecanismo descrito por ela acontece todos os dias.
Criamos uma regra para reduzir um problema e alguém aprende a lucrar com a regra. Escolhemos uma medida para avaliar o desempenho e as pessoas começam a trabalhar para melhorar a medida e não o desempenho. Oferecemos ajuda para aliviar uma dificuldade e, sem perceber, tornamos mais vantajoso conservar a dificuldade do que superá-la.
Foi isso que Frederic Bastiat tentou nos ensinar quando escreveu sobre aquilo que se vê e aquilo que não se vê. As autoridades britânicas viam as cobras mortas chegando aos postos de coleta. Era o resultado imediato, concreto, contável. O que não viam eram os criadouros sendo montados atrás das casas.
E talvez seja justamente aí que começam muitos dos nossos problemas: no momento em que confundimos aquilo que conseguimos contar com aquilo que realmente está acontecendo.
Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?
Me lembrei de um exemplo recente, bem brasileiro, que ajuda a enxergar a diferença entre intenção e consequência. Em 2018, a Prefeitura de São Paulo na gestão João Doria anunciou a substituição de boa parte do muro da Raia Olímpica da USP por painéis de vidro. A ideia parecia muito moderna: abrir a paisagem, integrar a cidade ao espaço universitário, trocar a barreira opaca por transparência. Ia ficar lindo, cara! E o que se via era bonito, simbólico, quase uma peça de propaganda sobre uma cidade mais aberta. Como é que ninguém nunca pensou nisso antes? Doria mobilizou empresas que fizeram doações e logo a parede de vidros foi instalada.
O que não se viu apareceu depois. Os vidros se rompiam com a trepidação do trânsito e com a ação de vândalos, e ainda provocaram a morte de aves por colisão. Com a saída de Doria, as empresas doadoras abandonaram o projeto, obrigando a USP a assumir o prejuízo. Em 2022, ela precisou investir mais de três milhões de reais para instalar grades e criar um corredor verde. No fim, a solução estética pensada para substituir um muro terminou produzindo novos custos, novos riscos e a necessidade de construir outra barreira. Não foi falta de boa intenção não. Foi falta de atenção aos efeitos que não cabiam na fotografia da inauguração. É assim que o Efeito Cobra costuma começar.
Esta semana fiz uma das reuniões online do meu MLA. E propus uma conversa para entender como o momento político e econômico está sendo sentido por cada um dos participantes. Temos empreendedores, altos executivos de grandes multinacionais, de bancos, médicos, enfim, uma representação interessante da sociedade. Foram quase unânimes: a situação econômica está além de preocupante. Todos temem pelo futuro. E aí eu perguntei como os clientes deles estavam reportando, e o cenário foi o mesmo: não sabem como a população mais pobre está comendo. Uma ida ao supermercado é um susto atrás do outro. Compra-se hoje com 100 reais o que se comprava com 50 dois ou três anos atrás.
E eu fiquei pensando… se a gente acreditar na pesquisa da opinião pública que aparece por aí, que a mídia distribui por aí – parênteses: e eu não acredito mesmo – existe algo aparentemente contraditório no apoio que Lula ainda conserva entre parcelas da população mais atingidas pela carestia. O preço da comida pesa, o crédito continua caríssimo e a sensação de insegurança econômica acompanha muita gente até o fim do mês. E ainda assim, o governo consegue se apresentar justamente como o defensor daqueles que mais sentem esses problemas.
A explicação mais cômoda seria dizer que o eleitor não percebe a realidade. Mas isso não parece verdadeiro não. Quem vive com orçamento apertado conhece o preço do arroz melhor do que qualquer economista. Não é preciso acompanhar o Banco Central para descobrir que o dinheiro está acabando antes do mês. A realidade é percebida, o que nem sempre é percebido é a relação entre suas causas.
Em O que se vê e o que não se vê, publicado em 1850, o economista, jornalista e deputado francês Frédéric Bastiat propõe uma distinção simples. Toda decisão econômica produz consequências imediatamente visíveis e outras que permanecem escondidas. O mau economista, dizia ele, observa apenas o primeiro efeito, o visível. O bom economista tenta enxergar também aquilo que não aconteceu, o recurso que foi retirado de outro lugar e as possibilidades que desapareceram pelo caminho.
Seu exemplo mais conhecido é o da vidraça quebrada. Um menino quebra a janela de uma loja. Alguém observa que o prejuízo ao menos dará um trabalho ao vidraceiro. O serviço do vidraceiro é o que se vê, o que não se vê é aquilo que o comerciante teria feito com o dinheiro que ele usou pra pagar o vidro, caso não precisasse consertar a janela. Talvez comprasse um sapato, ampliasse o estoque ou guardasse o valor. A janela nova aparece, o sapato que deixou de ser comprado não aparece.
No Café Brasil 448 – O que se vê e o que não se vê, eu mergulhei fundo na obra de Bastiat.
Muito bem… O mecanismo político funciona de maneira semelhante.
Quando o governo deposita um benefício na conta de uma família, a transferência é concreta. Há uma data, um valor, um aplicativo e uma autoridade disposta a assumir a autoria.
O dinheiro recebido é o que se vê.
O que não se vê é de onde vieram aqueles recursos, quanto custou a estrutura usada para distribuí-los e quais atividades deixaram de acontecer porque parte da renda da sociedade foi transferida para o Estado. Não se vê o investimento adiado, o emprego que não foi criado, o produto que ficou mais caro, o pequeno negócio que não abriu ou a dívida pública que será paga no futuro.
Isso não significa que programas sociais sejam necessariamente ruins. Bastiat não nos obriga a concluir que toda transferência de renda seja ilegítima. Não. Ele nos obriga a fazer uma pergunta que a propaganda prefere evitar: além da família que recebeu, quem pagou, quanto pagou e o que deixou de fazer com esse dinheiro?
Em junho de 2026, a inflação acumulada em doze meses permanecia acima do centro da meta, com alimentação e habitação entre os grupos que pressionavam os preços. Detalhe, essa é a inflação das planilhas dos técnicos do governo, que é muito diferente da inflação que o povo sente direto no bolso. O próprio Banco Central reconhecia que a alta recente vinha sendo impulsionada principalmente por alimentos e combustíveis.
Nada disso cabe numa fotografia de entrega de benefício.
O governo pode apresentar cem reais transferidos, mas não consegue mostrar com a mesma facilidade os cinco reais perdidos aqui, os oito ali, a compra parcelada com juros maiores ou o salário que não acompanhou o custo de vida. O cidadão sente essas perdas, naturalmente, mas elas não chegam acompanhadas de uma etiqueta que identifique o responsável.
O que se vê tem autor. O que não se vê parece obra do destino.
Essa é uma parte importante da permanência do apoio político. O eleitor não precisa acreditar que a sua vida está boa, basta acreditar que, sem aquele governo, ela estaria ainda pior. O benefício deixa de ser avaliado em relação ao custo que ajudou a produzi-lo e passa a ser comparado com o medo de perdê-lo.
Eu vou repetir: O benefício deixa de ser avaliado pelo custo de produzi-lo e passa a ser comparado com o medo de perdê-lo.
A política social, então, adquire uma força que vai além de seu valor econômico. Ela estabelece uma relação moral. O governo não aparece como administrador de recursos retirados da própria sociedade, mas como entidade generosa que concede alguma coisa aos necessitados.
Quando um político afirma que “deu” dinheiro aos pobres, quase ninguém pergunta de quem ele retirou o dinheiro. Menos gente ainda pergunta se parte dos pobres não está pagando a própria ajuda por meio dos impostos sobre consumo, da inflação e da menor oferta de oportunidades. A transferência é tratada como um presente, embora o governo não produza os recursos que distribui.
O Estado lembra um garçom que recolhe comida de todas as mesas, monta um prato com o que tirou e depois exige aplausos por ter servido o jantar.
É tentador transformar essa constatação numa condenação exclusiva da esquerda ou de Lula, não é? Pois é. O problema é que o mecanismo é mais antigo e mais amplo. Governos de diferentes partidos gostam de exibir benefícios concentrados e esconder custos dispersos. Subsídios empresariais, proteções setoriais, obras públicas, desonerações seletivas e privilégios corporativos obedecem à mesma lógica. Quem recebe sabe exatamente o que ganhou. A população que paga raramente percebe sua pequena parcela da conta.
Cara: mas no caso de Lula, porém, essa assimetria encontrou uma narrativa especialmente eficiente. Durante décadas, o petismo construiu a imagem de que seus programas representam não uma política pública entre outras possíveis, mas a própria presença da compaixão do Estado. Criticar o desenho, os custos ou os efeitos desses programas passa a soar como uma crítica às pessoas pobres.
Com isso, a discussão econômica é transformada numa disputa moral. De um lado, com Painho, estaria quem protege.
E do outro, o fascista que tripudia sobre os pobres.
Desaparece do debate justamente a pergunta bastiatiana: o que não estamos vendo?
“Oi Luciano, bom dia, tudo bem? Estou aqui hoje novamente passando porque há pouco tempo eu mandei um áudio para você também parabenizando pelo episódio 1000 do Café Brasil e convido todas as pessoas a ouvirem aquele podcast que é um dos melhores que eu ouvi até hoje.
Mas o áudio que eu estou enviando hoje é pra falar um pouquinho sobre o episódio O anjo Rafael. E eu quero te parabenizar pela reflexão.
Eu gostei muito que você partiu do Machado de Assis para falar de um tema tão atual, né? Essas realidades paralelas que a gente vê sendo criado por grupos, ideologias, até algoritmos, né?
E o episódio me fez pensar bastante sobre como é fácil a gente ser capturado por uma narrativa quando ela confirma aquilo que queremos acreditar, né? Então, foi naqueles conteúdos que ficam ecoando depois que acaba.
Parabéns pela profundidade, pela clareza e pela forma que você conseguiu ligar a literatura, o comportamento humano e o nosso tempo de hoje, então, mesmo escrito há tanto tempo é muito atual.
Sucesso para você e vida longa ao Café Brasil.”
Esse é o Rafael Liston, obrigado pela escuta tão atenta, meu caro. Esse ponto das realidades paralelas se conecta diretamente com o episódio de hoje: muitas vezes a gente não enxerga a realidade como ela é, mas como os incentivos, os grupos e os algoritmos nos ensinam a percebê-la. Desta vez a gente foi de Machado de Assis para Frédéric Bastiat, que chamava atenção para aquilo que se vê e aquilo que permanece escondido. O desafio é justamente esse: escapar da narrativa confortável e procurar os efeitos invisíveis das ideias, das escolhas e das políticas que a gente defende.
Grande abraço, Rafael. Muito obrigado pela audiência.
Então, não estamos vendo apenas o dinheiro retirado dos contribuintes. Também não vemos os incentivos criados, as escolhas alteradas e as reformas adiadas. Um programa que deveria servir como ponte pode acabar tratado como destino permanente. O sucesso deixa de ser medido pela quantidade de pessoas que conquistaram autonomia e passa a ser anunciado pelo crescimento do número de beneficiários.
Isso parece familiar a você, hein?
Pois é… É preciso alguma cautela nesse ponto, no entanto. Pesquisas sobre o Bolsa Família não sustentam uma explicação única e simples. Aqui e ali aparecem estudos que encontram a melhora na inserção de beneficiários no mercado de trabalho, enquanto outros estudos identificam efeitos diferentes conforme o setor, o valor da transferência e as características locais. A relação entre assistência e emprego é mais complexa do que a percepção segundo a qual todo benefício necessariamente produz dependência. Tem que olhar com cuidado, né?
O risco político não está exatamente na existência do socorro não. Está na construção de um sistema em que o governante reivindica a paternidade do auxílio e se recusa a assumir qualquer responsabilidade pelas condições que tornam o auxílio indispensável. Você entendeu?
Quando os preços sobem, a culpa é do mercado, do clima, dos empresários, do exterior ou da administração anterior. Quando o benefício é pago, o mérito pertence ao governo. As perdas não têm pai. O pagamento aparece em cerimônia de família.
E assim, não é necessário que o eleitor ignore a carestia. Ele pode percebê-la perfeitamente e, ao mesmo tempo, atribuí-la a forças distantes, ao “nós contra eles”, ao empresário malvadão, ao Elon Musk… enquanto associa o dinheiro recebido diretamente à figura do presidente.
É uma contabilidade política em que créditos são personalizados e os débitos permanecem anônimos.
Bastiat provavelmente diria que estamos olhando apenas para a vidraça.
Vemos o benefício depositado, mas não vemos a renda consumida pelos preços. Vemos a obra inaugurada, mas não vemos o negócio que deixou de receber investimento. Vemos o subsídio, mas não vemos o concorrente que paga impostos para financiá-lo. Vemos a família amparada neste mês, mas não vemos as condições econômicas que poderiam torná-la independente nos próximos anos.
A grande disputa política, portanto, não acontece somente em torno da distribuição de recursos não. Acontece em torno da capacidade de ligar os efeitos visíveis às causas invisíveis.
Lembra da história das cobras?
O governo olha para o número de beneficiários e apresenta o crescimento como prova de cuidado social, mas raramente pergunta se suas próprias escolhas econômicas estão ajudando a produzir mais pessoas dependentes do auxílio. Lá em Délhi, na Índia, contavam-se cobras mortas enquanto se criavam cobras escondidas. Na política, contam-se benefícios pagos enquanto permanecem invisíveis os empregos que não surgiram, a renda corroída e a autonomia que não chegou.
E aí vem a pegadinha… Enquanto o governo conseguir separar aquilo que ele entrega daquilo que ele retira, poderá se apresentar como solução mesmo quando participa da produção do problema.
Porque, meu caro, sentir uma perda é diferente de compreender sua origem.
O supermercado mostra a conta. O governo mostra o benefício.
Entre os dois existe uma cadeia de escolhas econômicas, impostos, gastos, dívidas, incentivos e oportunidades perdidas que raramente aparece na propaganda. É nesse espaço invisível que se forma boa parte do poder político.
Então, em vez de tentar descobrir por que alguém apoia Lula mesmo vivendo a carestia, é a gente tem que ir atrás de algo mais difícil: como permitir que o cidadão enxergue, ao mesmo tempo, o dinheiro que entrou em sua conta e tudo aquilo que precisou desaparecer para que ele chegasse até lá?
Dá pra fazer alguma especulação, mas isso estará na versão deste episódio aqui que vai exclusivamente para os assinantes. Ainda não assinou? Tá esperando o quê? Que a cobra te pegue? Vai lá: mundocafebrasil.com.
Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.
De onde veio este programa tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine só uma palestra minha ao vivo. E eu já passei das mil e trezentas. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com.
Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.
Para terminar, uma frase de Bastiat:
“Na economia, aquilo que não é visto costuma ser mais importante do que aquilo que se vê.”
[tec] candidato cao cao instrumental
https://www.youtube.com/watch?v=ktrEO1j9PSM
Mas afinal, como permitir que o cidadão enxergue, ao mesmo tempo, o dinheiro que entrou em sua conta e tudo aquilo que precisou desaparecer para que ele chegasse até lá?
A questão não é apenas tornar os custos públicos mais transparentes. É criar uma linguagem capaz de ligar o benefício visível às escolhas econômicas que o tornaram possível, sem transformar quem recebe ajuda em culpado pelo sistema.
Talvez o primeiro passo seja reconhecer que essa tarefa é muito mais difícil do que parece. O dinheiro que entra na conta tem valor exato, data e remetente. O que desapareceu para financiá-lo não tem forma definida. Pode ter desaparecido como imposto embutido no preço do feijão, como salário corroído pela inflação, como vaga que uma pequena empresa decidiu não abrir ou como investimento que ficou esperando um ambiente menos incerto. Como mostrar uma coisa que, por definição, não aconteceu?
É essa a vantagem política do visível. O governo pode mandar uma mensagem: “Seu benefício foi depositado”. Não existe mensagem equivalente dizendo: “A parcela do custo que coube a você foi cobrada hoje no supermercado”. Tampouco chega uma notificação informando que determinado gasto público aumentou a dívida, pressionou os juros ou retirou recursos de outra área. O benefício chega inteiro. O custo se mistura à vida.
Para que o cidadão consiga enxergar os dois lados, talvez fosse necessário começar mudando a própria linguagem usada pelo Estado. Governos não “dão” dinheiro, casas, remédios ou bolsas. Governos transferem recursos arrecadados da sociedade. Essa diferença pode parecer semântica, mas não é. Quem dá entrega algo que lhe pertence. Quem transfere administra algo que foi retirado de outras pessoas ou será pago no futuro.
Imagine se toda propaganda oficial fosse obrigada a dizer não apenas quanto um programa distribuiu, mas também quanto custou por contribuinte, quanto foi gasto para administrá-lo e quais resultados concretos produziu. Não bastaria anunciar que dez milhões de famílias recebem determinado auxílio. Seria preciso mostrar quantas melhoraram de renda, quantas deixaram o programa e quantas permanecem dependentes dele depois de cinco ou dez anos.
Isso mudaria a medida de sucesso. Hoje, um programa pode ser elogiado porque aumentou o número de beneficiários. Mas o crescimento desse número pode significar duas coisas opostas: que o Estado finalmente alcançou pessoas antes abandonadas ou que a economia produziu mais gente necessitada. Sem essa distinção, o governo pode comemorar o aumento das cobras entregues sem perguntar quem está criando cobras no quintal.
Também seria necessário tornar visíveis as alternativas perdidas. Bastiat compreendeu que o custo verdadeiro de uma decisão não é apenas o dinheiro gasto, mas aquilo que deixou de ser feito com ele. Uma obra pública não custa apenas o valor colocado no orçamento. Custa também as outras obras, serviços, investimentos ou escolhas privadas que desapareceram quando o recurso tomou aquele caminho.
Mas como apresentar isso ao cidadão comum sem transformar economia numa aula cheia de gráficos? Talvez pelo cotidiano. Mostrar que cem reais recebidos não podem ser avaliados isoladamente dos vinte reais perdidos no preço da comida, dos juros pagos no crediário e da ausência de empregos melhores. Não se trata de convencer alguém a rejeitar o benefício, mas para que ele consiga julgá-lo de modo completo.
Esse ponto é delicado. Há uma tendência cruel de falar sobre dependência como se o beneficiário fosse responsável por ela. Quem precisa de auxílio para comprar comida não tem obrigação de realizar uma investigação sobre política fiscal antes de sacar o dinheiro. A responsabilidade maior está com quem desenha, comunica e administra o sistema. O cidadão pode agradecer pela ajuda e, ao mesmo tempo, perguntar por que sua vida continua organizada de modo que aquela ajuda seja indispensável.
A pergunta que mais incomoda o poder não é “quanto recebi?”, mas “por que ainda preciso receber?”.
Uma política social realmente voltada para a autonomia deveria responder a isso de forma mensurável. Deveria existir um caminho visível entre o amparo e a independência. Formação profissional ligada a empregos existentes, ambiente favorável para pequenos negócios, escola básica que realmente ensine, transporte que permita chegar ao trabalho e regras que não punam quem começa a aumentar a própria renda.
Sem esse caminho, o benefício corre o risco de se transformar numa espécie de elevador que nunca sai do térreo. Ele impede que a pessoa caia no subsolo, o que é importante, mas também não a conduz a outro andar. O governo aponta para o fato de que ninguém despencou e chama isso de sucesso. O cidadão continua parado, agradecido porque a porta ainda está aberta.
Existe ainda um obstáculo maior: quase toda discussão pública sobre o assunto é capturada pela guerra política. Quem critica um programa é acusado de insensibilidade. Quem o defende é acusado de desejar dependência. Nesse ambiente, ninguém examina os incentivos, os resultados e as consequências invisíveis. Cada lado protege sua narrativa e abandona a realidade.
Permitir que o cidadão veja o dinheiro que entrou e aquilo que desapareceu talvez dependa, portanto, menos de encontrar uma fórmula econômica perfeita e mais de recuperar uma atitude intelectual: desconfiar das fotografias incompletas.
Toda vez que um governo mostrar uma entrega, perguntar de onde veio o recurso. Toda vez que anunciar um recorde de beneficiários, perguntar quantas pessoas deixaram de precisar do programa. Toda vez que apresentar um gasto como investimento, perguntar qual resultado foi obtido. Toda vez que atribuir a carestia a forças abstratas, examinar quais decisões internas contribuíram para ela.
Não se trata de abolir a solidariedade. Trata-se de impedir que a solidariedade seja usada para esconder seus próprios custos ou para preservar o problema que lhe dá razão de existir.
O cidadão começará a enxergar os dois lados quando perceber que não existe dinheiro público flutuando acima da sociedade. Existe dinheiro retirado de pessoas concretas, hoje pelos impostos ou amanhã pela dívida e pela inflação. Parte dele pode e deve ser usada para proteger quem está vulnerável. Mas essa proteção só será digna quando tiver como horizonte deixar de ser necessária.
A cobra morta sobre o balcão é fácil de contar. O desafio é olhar além dela e perguntar se, em algum lugar que a propaganda não mostra, alguém está sendo incentivado a manter o criadouro funcionando.
[tec] candidato cao cao
https://www.youtube.com/watch?v=fp-nhGFVSvI
Você ouve Candidato Caô Caô, com Bezerra da Silva, que mostra o político que sobe o morro, bebe cachaça, come no barracão e tenta transformar encenação em intimidade. Ele quer ser visto como “um dos nossos”. É a política do gesto visível: a visita, o aperto de mão, a promessa, a fotografia. O que não se vê vem depois da eleição, quando desaparecem a proximidade e o respeito, mas permanecem o abandono, a repressão e a conta.
A canção conversa diretamente com Bastiat e com o Efeito Cobra porque denuncia a distância entre a intenção anunciada e o incentivo real. O candidato não precisa resolver a pobreza; precisa apenas aprender a visitá-la, representá-la e convertê-la em voto. A miséria deixa de ser um problema a superar e passa a ser um cenário de campanha. O eleitor vê o prato improvisado e o abraço. O que não vê é o sistema que continuará lucrando politicamente com sua dependência.
Sobe
No fim das contas, este episódio não foi sobre cobras, vidraças, benefícios sociais ou candidatos que sobem o morro em época de eleição. É sobre a distância entre aquilo que uma política anuncia e aquilo que ela realmente produz. Bastiat nos ensinou a desconfiar do resultado visível, porque a conta costuma estar escondida nos empregos que não surgiram, na renda corroída e na autonomia adiada. O Efeito Cobra acrescenta um alerta: quando recompensamos o indicador errado, alguém aprende a fabricar o próprio problema. E o candidato “caô caô” completa a engrenagem, transformando a dificuldade que deveria superar em cenário para sua encenação.
Pensar criticamente é, antes de agradecer pela cobra morta apresentada no balcão, descobrir quem financiou o criadouro e por que ele continua funcionando.
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