Cafezinho 736 – Desnutrição intelectual


Você entra no consultório, senta diante do médico e ouve:

— Seus exames estão preocupantes. Você está profundamente desnutrido.

— Desnutrido? Como assim? Tô com 99 quilos, doutor!

E então ele explicaria:

— Não estou falando do seu corpo. Estou falando da sua cabeça.

Acho que essa é a melhor imagem para entender o nosso tempo.

Antes do café da manhã, muita gente já engoliu mais conteúdo do que uma pessoa recebia em vários dias algumas décadas atrás.

E, ainda assim, estamos vivendo a maior epidemia de subnutrição intelectual da história.

Existe uma diferença enorme entre comer muito e se alimentar bem. Dá para ingerir calorias em excesso e continuar carente de nutrientes. O corpo recebe volume, açúcar, gordura, sal, corante, mas não recebe aquilo de que realmente precisa. Com a cabeça acontece algo parecido.

A pesquisa Cultura no Espelho, realizada pela Globo e pela Quaest, mostrou que 85% dos brasileiros vivem com poucos recursos financeiros e também com pouco acesso à vida cultural. Mas há um detalhe interessante: cerca de 9% têm pouca renda e, mesmo assim, conseguem manter uma vida cultural rica e diversificada.

Isso muda um pouco a conversa, não é?

Dinheiro ajuda, facilita viagens, cursos, livros, espetáculos e experiências. Mas não explica tudo. Se explicasse, esses 9% não existiriam.

Hoje carregamos no bolso uma biblioteca maior do que a de qualquer imperador. Livros gratuitos, documentários, museus virtuais, cursos, palestras, podcasts e debates. Nunca foi tão fácil chegar ao conhecimento.

O problema não é o acesso. É o interesse. A atenção.

Abrimos o celular pela manhã e deixamos que desconhecidos decidam qual será a primeira ideia do nosso dia. Depois vem um vídeo, outro vídeo, uma polêmica, uma indignação, uma piada, uma propaganda. No fim da noite, consumimos horas de conteúdo sem perguntar se aquilo alimentou nossa cabeça ou apenas ocupou nosso tempo.

É como viver de sobremesa.

Chamei esse personagem de Brasileiro Pocotó, que não era o sujeito sem dinheiro, nem estudo ou diploma. Era aquele que trocou a curiosidade pelo entretenimento permanente. Que sabe tudo sobre a vida dos outros e quase nada sobre a própria civilização. Que passa horas nas redes sociais, mas diz que não tem tempo para ler quinze páginas.

O perigo da subnutrição intelectual é que ela não produz pessoas sem opinião. Produz gente cheia de certezas e vazia de fundamentos. Gente que confunde informação com conhecimento, reação com reflexão e algoritmo com critério.

No episódio desta semana do Café Brasil, eu aprofundo essa conversa. Falo sobre atenção, repertório, William James, Herbert Simon, Neil Postman, Nicholas Carr e Cal Newport. Falo também sobre por que proteger a própria atenção talvez seja uma das formas mais importantes de liberdade no século XXI.

Se este Cafezinho despertou sua curiosidade, ouça agora o episódio completo do Café Brasil 1038 — Subnutrição Intelectual.

Não se trata apenas do que você pensa.

Se trata de quem está escolhendo aquilo a que você presta atenção.