BABICA: Bárbara, lembra daquela conversa sobre emoções e sentimentos?
BÁRBARA: Lembro. Por quê?
BABICA: Fiquei pensando naquela história de que a emoção pode entrar no carro, mas não precisa dirigir.
BÁRBARA: Olha só! Você guardou mesmo.
BABICA: Guardei. Só apareceu um problema.
BÁRBARA: Qual?
BABICA: Às vezes eu sei que não deveria deixar a emoção dirigir… mas ela pega o volante mesmo assim.
BÁRBARA: Ahahahahaha! Isso acontece com todo mundo.
BABICA: Então quem inventou essa história devia ter criado um freio também.
BÁRBARA: Na verdade, algumas pessoas começaram a pensar nesse problema há mais de dois mil anos.
BABICA: Dois mil anos? Já tinha gente perdendo a paciência naquela época?
BÁRBARA: Babica, gente perdendo a paciência provavelmente existe desde que existem duas pessoas no mesmo lugar.
BABICA: Faz sentido.
BÁRBARA: Esses pensadores ficaram conhecidos como estoicos.
BABICA: Es… o quê?
BÁRBARA: Estoicos.
BABICA: Parece nome de povo de filme. “Cuidado! Os estoicos estão chegando!”
BÁRBARA: Ahahahahaha! Não era um povo. Era uma escola de filosofia.
BABICA: Então vamos falar deles?
BÁRBARA: Vamos.
BABICA: Eu sou a Babica, o avatar da Bárbara que vive dentro do celular dela.
BÁRBARA: E eu sou a Bárbara Stock.
BABICA: Somos as apresentadoras do Podcast Café Com Leite…
BÁRBARA: Um podcast para famílias com crianças inteligentes…
BABICA: …e pais que se importam!
BABICA: Vamos à história? Mas antes…
Oi, Bárbara. Oi, Babica. Meu nome é Valentina. Eu gostaria de mandar mais um áudio para o podcast, pra rolar mais ideias, pra fazer melhorias, pra acontecer isso. Eu vou falar alguma coisa importante. Ai, eu fiquei tão feliz de ganhar minha camiseta. Tomara que minha mãe já tenha mandado a foto. Eu queria falar sobre algumas coisas que vocês falam, conteúdo assim e tal. Vocês falam, ah, isso aqui serve pra isso, isso é bom. Mas, em outros… Em outros áudios, vocês falam da mesma coisa, mas por outros lados. Vocês querem dizer que isso tem um lado bom. Lado ruim e daí vocês falam que isso não é bom para essa parte do outro conteúdo que vocês estão falando.
BÁRBARA: Oi, Valentina! Que alegria receber mais uma mensagem sua! E que bom que você gostou da camiseta! Agora queremos ver a foto, hein?
BABICA: E, Valentina, eu prestei muita atenção no que você falou. Você percebeu que às vezes a gente diz que uma coisa é boa e, em outro episódio, fala que aquela mesma coisa pode ser ruim, né?
BÁRBARA: Pois é! E sabe de uma coisa? Você fez uma observação muito inteligente. Porque muitas coisas na vida não são completamente boas ou completamente ruins. Depende de como, quando e para que a gente usa.
BABICA: Ah, eu sei! O sol é bom, né? Ele ilumina, aquece, ajuda as plantas a crescer…
BÁRBARA: Mas se você ficar horas debaixo de um sol muito forte, sem proteção, pode acabar com uma queimadura.
BABICA: Então o sol é bom ou ruim?
BÁRBARA: Depende da situação!
BABICA: Ah, e tem o medo também! A gente já falou que o medo pode atrapalhar, fazer a gente desistir de tentar alguma coisa…
BÁRBARA: Mas o medo também pode nos proteger de um perigo. Imagine uma criança que não sente medo nenhum de atravessar uma avenida movimentada!
BABICA: Nossa! Melhor sentir um medinho e olhar para os dois lados!
BÁRBARA: Percebeu, Valentina? Quando a gente fala de uma coisa por lados diferentes, não significa necessariamente que estamos nos contradizendo. Estamos tentando olhar para ela de vários ângulos. E isso é muito importante, porque o mundo é mais complicado do que parece.
BABICA: É como olhar uma bola! De um lado tem uma mancha vermelha, do outro tem uma mancha azul. Se você olhar só de um lado, vai achar que a bola é toda vermelha!
BÁRBARA: Gostei dessa comparação, Babica! E tem mais uma coisa, Valentina. Às vezes a gente pode até se enganar, mudar de opinião ou descobrir alguma coisa que não sabia antes. E não há problema nenhum em reconhecer isso.
BABICA: Então, Valentina, quando você perceber que a gente falou coisas diferentes sobre o mesmo assunto, pode mandar uma mensagem contando! Aí a gente investiga junto!
BÁRBARA: Porque pensar bem não é encontrar uma resposta e nunca mais mudar de ideia. É aprender a olhar com atenção, comparar e compreender melhor as coisas.
BABICA: E você já está fazendo isso! Em vez de só ouvir, está pensando sobre aquilo que ouviu. Adorei!
BÁRBARA: Um beijo enorme, Valentina. Continue mandando suas observações. E aproveite bastante sua camiseta!
BABICA: Tchau, Valentina! E olha só… a camiseta é boa para usar, mas é ruim para comer!
BÁRBARA: BABICA!
BABICA: Ué! Depende do que a gente quer fazer com ela!
BÁRBARA: Ai, ai, ai…
BÁRBARA: Babica, vamos falar das emoções e sentimentos.
BABICA: Vamoooooooossssss!
BÁRBARA: Imagine que você combinou um piquenique para amanhã.
BABICA: Gostei.
BÁRBARA: Preparou sanduíche, bolo, suco…
BABICA: Melhorou.
BÁRBARA: E amanhã começa a chover.
BABICA: NÃÃÃÃÃO!
BÁRBARA: Pois os pensadores estoicos fariam uma pergunta antes de gastar energia brigando com a chuva.
BABICA: Qual?
BÁRBARA: “Isso depende de mim?”
BABICA: A chuva?
BÁRBARA: Depende de você?
BABICA: Não.
BÁRBARA: E escolher outro lugar para fazer o piquenique?
BABICA: Depende.
BÁRBARA: E ficar reclamando a tarde inteira?
BABICA: Essa parte depende bastante.
BÁRBARA: Pois essa diferença está no centro de uma ideia muito importante do estoicismo, Babica: existem coisas que podemos controlar e coisas que não podemos.
BABICA: Então o segredo é descobrir qual é qual.
BÁRBARA: Exatamente.
BABICA: Chuva: não controlo. Levar o piquenique para dentro de casa: controlo.
BÁRBARA: Muito bem.
BABICA: Perder o jogo: não controlo.
BÁRBARA: Cuidado. Você pode ajudar a ganhar ou perder.
BABICA: Mas não controlo tudo.
BÁRBARA: Isso. Você controla seu esforço, sua atenção, se treinou, como trata os colegas. Mas não controla completamente o resultado.
BABICA: Ahhh… então não é só “posso” ou “não posso”. Às vezes eu controlo uma parte.
BÁRBARA: Perfeito.
BABICA: E quem teve essa ideia?
BÁRBARA: O estoicismo começou por volta de trezentos anos antes de Cristo, em Atenas. Um filósofo chamado Zenão de Cítio começou a ensinar suas ideias num lugar público chamado stoa.
BABICA: Bárbara…
BÁRBARA: Oi Babica, já sei…
BABICA: O sujeito se chamava Zenão?
BÁRBARA: Sim. Zenão de Cítio.
BABICA: Não é o Zé Não é do Sítio?
BÁRBARA: Ahahahahahaha… não! ´Zenão de Cítio mesmo.
BABICA: Por que Zenão de Cítio? Cítio era o sobrenome dele?
BÁRBARA: Não. Cítio era a cidade onde ele nasceu, na ilha de Chipre. Naquela época, era comum identificar alguém pelo lugar de onde vinha. Então “Zenão de Cítio” quer dizer mais ou menos “Zenão, aquele que veio de Cítio”.
BABICA: Entendi. E esse lugar que você falou, à toa?
BÁRBARA: Ahahahahahah, não é à toa, Babica, é stoa!
BABICA: Stoa.
BÁRBARA: Era como um grande corredor coberto, com colunas.
BABICA: Tipo uma varanda gigante?
BÁRBARA: Mais ou menos. E como Zenão e seus alunos se reuniam ali, ficaram conhecidos como estoicos.
BABICA: Então o nome da filosofia veio do lugar onde eles conversavam?
BÁRBARA: Veio. A turma que ficava na stoa.
BABICA: Ainda bem que eles não se reuniam numa balada.
BÁRBARA: Por quê?
BABICA: Hoje estudaríamos os “baladistas”.
BÁRBARA: Babica!
BABICA: Ahahahahahah… Estou ajudando a história da filosofia.
BÁRBARA: Depois de Zenão vieram outros pensadores importantes, como Cleantes e Crisipo, que ajudaram a desenvolver aquelas ideias.
BABICA: Meu Deus… Zenão, Cleantes e Crisipo. Não tinha um José? Um João?
BÁRBARA: Pare de implicar com os nomes gregos, Babica! Foram muito importantes, mas grande parte do que escreveram se perdeu. Séculos depois, outros estoicos ficaram conhecidos porque seus textos chegaram até nós.
BABICA: Quem?
BÁRBARA: Sêneca, que viveu em Roma e escreveu muito sobre como enfrentar dificuldades e viver bem. Epicteto, que nasceu escravizado e depois se tornou professor de filosofia. E Marco Aurélio.
BABICA: Ufa. Até que enfim um nome que eu conheço!
BÁRBARA: Marco Aurelio foi imperador romano.
BABICA: Um imperador filósofo?
BÁRBARA: Pois é. Ele escrevia reflexões para lembrar a si mesmo de como deveria agir.
BABICA: Então tinha um escravo que virou filósofo e um imperador que virou filósofo?
BÁRBARA: Exatamente.
BABICA: Parece que essa filosofia servia para gente bem diferente.
BÁRBARA: Essa é uma das coisas interessantes nela.
BABICA: Mas o que exatamente os estoicos ensinavam?
BÁRBARA: Eles discutiam muitas coisas, mas para nosso episódio podemos começar por uma ideia simples: não adianta exigir que o mundo obedeça à nossa vontade.
BABICA: Que pena…
BÁRBARA: Ahahahahaha! Em vez disso, precisamos aprender a cuidar melhor daquilo que realmente depende de nós.
BABICA: Me dá um exemplo.
BÁRBARA: Você estudou bastante para uma prova.
BABICA: Ah, isso eu sempre faço!
BÁRBARA: Não sei não….
BABICA: Continue, Bárbara.
BÁRBARA: Você estudou, prestou atenção e fez o melhor que podia. Mas a prova estava difícil e sua nota não foi a que esperava.
BABICA: Fico triste.
BÁRBARA: Pode ficar. Ser estoico não significa virar uma pedra que não sente nada.
BABICA: Ah! Eu achava que estoico era aquela pessoa que não demonstra emoção.
BÁRBARA: Hoje usamos a palavra desse jeito às vezes, mas a filosofia é muito mais interessante. Os estoicos queriam aprender a não ser dominados por julgamentos e reações que nos fazem agir mal.
BABICA: Então entra aquela conversa do nosso outro episódio.
BÁRBARA: Exatamente.
BABICA: A emoção aparece.
BÁRBARA: Sim.
BABICA: Mas eu posso pensar antes de entregar o volante para ela.
BÁRBARA: Muito bem.
BABICA: Volta para a prova.
BÁRBARA: De volta à prova… Você não pode voltar no tempo e trocar as respostas.
BABICA: Infelizmente.
BÁRBARA: Também não pode obrigar a professora a dar outra nota.
BABICA: Posso tentar fazer uma cara muito triste.
BÁRBARA: Babica.
BABICA: Tá bom.
BÁRBARA: Mas pode olhar onde errou, pedir ajuda e estudar melhor para a próxima.
BABICA: Então o estoico não fica parado aceitando tudo.
BÁRBARA: De jeito nenhum. Essa é uma confusão comum. Aceitar que uma coisa aconteceu não significa desistir de agir. Significa começar pelo mundo como ele é, não pelo mundo como gostaríamos que fosse.
BABICA: Essa foi forte.
BABICA: E se alguém me trata mal?
BÁRBARA: Você controla o que a pessoa fez?
BABICA: Não.
BÁRBARA: Controla o que vai fazer agora?
BABICA: Muito mais.
BÁRBARA: Pode responder gritando. Pode sair dali. Pode conversar. Pode pedir ajuda. Dependendo da situação, pode até precisar chamar um adulto.
BABICA: Então estoicismo não é deixar os outros fazerem qualquer coisa comigo.
BÁRBARA: Não. É perceber onde está a sua possibilidade de agir.
BABICA: Estou começando a gostar desses estoicos.
BÁRBARA: Epicteto insistia muito nessa diferença entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende.
BABICA: Ele era aquele que tinha sido escravo?
BÁRBARA: Ele mesmo.
BABICA: Então essa pergunta devia ser muito importante para ele.
BÁRBARA: Imagine alguém que passou parte da vida sem poder decidir sobre muitas coisas da própria vida. E ainda assim percebeu que havia algo que ninguém podia simplesmente decidir por ele: como ele julgaria as coisas e como procuraria agir diante delas.
BABICA: Isso não quer dizer que o que fizeram com ele estava certo.
BÁRBARA: Claro que não. Uma injustiça continua sendo injustiça. A questão é outra: mesmo quando não escolhemos a situação, ainda podemos procurar escolher nossa resposta.
BABICA: É como receber cartas num jogo.
BÁRBARA: Como assim?
BABICA: Eu não escolho todas as cartas que recebo.
BÁRBARA: Certo.
BABICA: Mas tenho que decidir como jogar com elas.
BÁRBARA: Acho que Epicteto gostaria dessa comparação.
BABICA: E Marco Aurélio? O imperador tinha problema com coisa que não controlava? Ele era imperador!
BÁRBARA: Justamente por isso. Tinha guerras, doenças, problemas políticos, pessoas desobedecendo, gente criticando…
BABICA: Nem imperador manda em tudo.
BÁRBARA: Ninguém manda. Marco Aurélio escrevia para si mesmo porque sabia que entender uma ideia uma vez não basta.
BABICA: Precisava lembrar.
BÁRBARA: Todos os dias.
BABICA: Então ele fazia uma espécie de dever de casa para ele mesmo?
BÁRBARA: Podemos dizer assim.
BABICA: Imperador fazendo lição de filosofia. Gostei.
BABICA: Então deixa eu ver se entendi os estoicos.
BÁRBARA: Vamos lá.
BABICA: Primeiro eu pergunto: isso depende de mim?
BÁRBARA: Sim.
BABICA: Se depende, faço o melhor que posso.
BÁRBARA: Certo.
BABICA: Se não depende…
BÁRBARA: Você tenta não gastar toda sua energia querendo controlar o impossível.
BABICA: Mas ainda posso ficar triste, com medo ou com raiva.
BÁRBARA: Claro.
BABICA: Só não entrego automaticamente o volante para essas emoções.
BÁRBARA: Exatamente.
BABICA: E tento agir direito mesmo quando as coisas não saem como eu queria.
BÁRBARA: Acho que você pegou o espírito da coisa.
BABICA: Bárbara…
BÁRBARA: O quê?
BABICA: Acho que descobri uma coisa.
BÁRBARA: O quê?
BABICA: Talvez ser estoico não seja aprender a controlar o mundo.
BÁRBARA: Não é.
BABICA: É aprender a não deixar o mundo controlar completamente o que a gente faz.
BÁRBARA: Gostei muito disso.
BABICA: Agora vamos brincar?
BÁRBARA: Vamos.
BABICA: Porque a chuva eu não controlo… Mas ficar aqui parada falando de filosofia o dia inteiro…
BÁRBARA: Babica!
BABICA: …isso depende de mim!
AS DUAS: Ahahahahahahaha!
BÁRBARA: De onde veio este episódio tem muito mais!
BABICA: Visite podcastcafecomleite.com.br para saber mais!
BÁRBARA: Café Com Leite! O podcast para famílias com crianças inteligentes…
BABICA: …e pais que se importam!
AS DUAS: Tchaaaaaaaaauuuuu!
