Café Brasil – 1053 – Os dois minutos de ódio

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Em seu livro clássico 1984, George Orwell descreve um ritual perturbador que acontece todos os dias: os “Dois Minutos de Ódio”. Em determinado momento, os funcionários interrompem o trabalho e se reúnem diante de uma grande tela. Então aparece o rosto de Emmanuel Goldstein, o grande inimigo do regime, o traidor oficial, o homem sobre quem todos aprendem a concentrar medo, desprezo e raiva.

No começo há apenas uma imagem e uma voz. Mas bastam alguns segundos para que o ambiente comece a mudar. Alguém grita um insulto e outro responde.

Os punhos se fecham, os corpos se inclinam para a frente, a tensão aumenta e logo aquela sala inteira parece tomada pela mesma emoção. O ódio vai passando de uma pessoa para outra até se tornar quase físico.

Winston, o personagem principal, observa tudo com desconforto porque sabe que aquilo é manipulação. Sabe que o espetáculo foi montado para produzir exatamente aquela reação e percebe que Goldstein funciona como um alvo para onde o regime dirige a frustração de todos.

Só que acontece uma coisa curiosa. Em determinado momento, Winston também começa a gritar. A emoção coletiva invade seu julgamento e, por alguns instantes, ele já não consegue distinguir direito aquilo que realmente pensa daquilo que foi levado a sentir.

Orwell escreveu isso em 1948, imaginando um futuro sombrio em que um Estado autoritário usaria grandes telas para controlar o que as pessoas deveriam pensar, temer e odiar.

Talvez ele tenha errado apenas num detalhe.

A tela não precisaria ser obrigatória. Nós acabaríamos carregando uma voluntariamente no bolso, dormindo com ela ao lado da cama e consultando-a poucos minutos depois de acordar.

E nem seria necessário um Ministério da Verdade organizando nossas emoções. Bastaria descobrir quais estímulos fazem cada um de nós parar, clicar, compartilhar, discutir, desejar ou se indignar.

Hoje você pode acordar tranquilo e, dez minutos depois, estar irritado com um político que não conhece, assustado com uma notícia sobre algo que talvez nunca o atinja, incomodado com a vida de alguém que parece melhor que a sua e metido numa discussão entre desconhecidos que vai desaparecer da internet em dois dias.

E ninguém obrigou você a nada.

Nós entramos nisso voluntariamente.

Essa é a pegada do episódio de hoje.

Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?

Então, nós participamos voluntariamente… e é justamente aí que uma filosofia de mais de dois mil anos começa a parecer estranhamente atual. O estoicismo. Porque os estoicos estavam interessados numa pergunta que, no fundo, continua a mesma: se você não pode impedir que o mundo coloque coisas diante dos seus olhos, será que ainda pode decidir o que fazer com elas depois que entram na sua cabeça?

Talvez o problema do nosso tempo não seja apenas informação demais. Talvez tenhamos desaprendido a proteger a fronteira entre aquilo que acontece lá fora e aquilo que permitimos que aconteça aqui dentro.

E, cara, tem uma ironia nisso. Nunca tivemos tanto controle sobre o mundo à nossa volta e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão fácil perder o controle sobre a própria atenção.

Pense um pouco. Com alguns movimentos dos dedos você controla a temperatura da casa, chama um carro, escolhe um filme entre milhares, compra uma passagem, consulta o saldo no banco, conversa com alguém do outro lado do planeta e descobre em segundos o que está acontecendo no mundo.

Criamos ferramentas extraordinárias para ampliar nosso poder sobre o ambiente. Mas basta uma mensagem atravessada no WhatsApp, uma manchete alarmista ou o comentário de um desconhecido numa rede social para azedar nosso humor durante horas.

E é aí que começa a ficar interessante falar de estoicismo.

Mas eu não quero hoje falar daquele estoicismo que virou moda na internet não, muitas vezes apresentado como uma mistura de frases motivacionais, banho gelado e a obrigação de ficar impassível diante de tudo. Não, cara! Estou falando da filosofia que surgiu mais de dois mil anos atrás e que fez gente como Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio pensar numa pergunta bem mais incômoda. Olha aqui: se eu não consigo determinar o que o mundo fará comigo, até que ponto consigo escolher o que farei com aquilo que o mundo faz?

Marco Aurélio viveu no segundo século depois de Cristo e foi imperador romano durante quase vinte anos. Portanto, não estamos falando de alguém que se retirou para uma cabana no alto de uma montanha para escrever frases bonitas sobre tranquilidade não. Ele teve de administrar guerras, epidemias, crises políticas, traições, problemas familiares e um império gigantesco.

Mesmo naquele mundo, que para nós parece lento e silencioso, Marco Aurélio precisava lembrar a si próprio de uma coisa que hoje se tornou ainda mais importante: não deixar que tudo o que acontecia do lado de fora tomasse conta do lado de dentro.

É curioso imaginar o que ele acharia desse nosso cotidiano maluco hoje.

Você acorda, pega o celular e, antes mesmo de colocar os pés no chão, já sabe que houve um terremoto na Ásia, uma crise no Oriente Médio, uma declaração absurda de um político em Brasília, uma queda na Bolsa de Nova York, uma briga entre duas celebridades e um novo estudo dizendo que café faz bem, enquanto outro estudo garante que faz mal.

Em seguida aparece a fotografia de um conhecido em Paris, alguém com um corpo melhor que o seu, uma casa maior, uma carreira aparentemente mais bem-sucedida e uma família que parece ter sido produzida por uma agência de publicidade.

E ainda são sete e meia da manhã.

Você nem tomou café e sua cabeça já está tentando administrar guerras, eleições, dinheiro, saúde, aparência, carreira, envelhecimento e a felicidade dos outros.

Talvez o problema não seja apenas o excesso de informação não. Eu acho que é algo mais profundo: começamos a entregar ao mundo o direito de escolher aquilo que merece ocupar a nossa cabeça.

Essa ideia aparece com muita força entre os estoicos.

“Oi Luciano, bom dia, boa tarde, boa noite. Flávia pediatra, falando.

Já sentei aí do seu lado, participei do Líder Cast, uma honra para mim.

E eu acabei de escutar o episódio Te Amo e Te Cancelo e queria dizer que me identifico muito com tudo que você falou relacionado à construção da comunidade.

E de como as pessoas não valorizam, às vezes, de uma maneira monetária, falando, o conhecimento compartilhado e tudo que tem por trás disso.

Eu compartilho também meu conhecimento nas redes há mais de 10 anos, tenho meu consultório, mas compartilho e chega uma hora que você fala, poxa, como sustentar isso do ponto de vista financeiro mesmo.

Porque tem todo um custo, por exemplo, de você pagar uma agência pra  fazer a edição dos vídeos, tem o custo do tempo de estudo, às vezes eu leio um livro e compartilho minhas impressões, então eu leio, eu resumo, é uma dedicação.

E acho que hoje, é o que você falou, as pessoas estão mal acostumadas de receber sem ter uma troca. Mas não é simplesmente pensar do ponto de vista de troca financeira, que você bem falou no episódio, eu dou um dinheiro para você e recebo algo e troca.

É muito mais da responsabilidade, talvez, realmente, de você manter algo que você julga importante, não só para você, mas para a sociedade.

Então, o seu trabalho no Café Brasil é esplêndido e eu acho que você tem que realmente buscar esse reconhecimento, não com tapinhas nas costas, porque acho que isso você já conquistou, né, bem que você falou, mas um reconhecimento de tipo não, eu vou, eu vou pôr a minha mão no bolso para manter algo que eu acredito e não ajudar o Luciano Pires.

Você não tá mendigando nada, na verdade muito pelo contrário, você nem precisa disso, desse reconhecimento.

Mas o que eu queria te dizer é que continue, eu tô aqui, muitas vezes eu ouço com meus filhos, eu compartilho ideias que você traz no meu consultório e respingue em pessoas que às vezes nem conhecem você.

Eu sempre tento falar de você e eu sei que as pessoas acabam às vezes pelo conforto de … mas por que que eu vou pagar uma coisa se eu posso ter um conteúdo não tão profundo mas de graça.

E aí realmente você vai conseguir só atingir quem, de verdade está disposto a olhar para coisas diferentes, a escutar ideias diferentes e sair do raso e tem que ter coragem também para aprofundar e acho que está faltando bastante.

Mas apenas continue, viu, porque é muito bom te escutar sempre. Vida longa ao Café Brasil.”

Flávia, querida, o seu depoimento tem tudo a ver com este episódio aqui. Quando tudo está disponível o tempo inteiro, a gente ccomeça a tratar atenção, conhecimento e trabalho como se não custassem nada.

E aí aparece uma escolha bem estoica: eu posso gastar meu tempo reclamando do comportamento das pessoas ou posso cuidar daquilo que ainda depende de mim.

Quem produz precisa decidir se vale a pena continuar. Quem consome precisa decidir o que merece sua atenção, seu tempo e, às vezes, o seu dinheiro. Sustentar aquilo que julgamos valioso também é uma forma de responsabilidade. Porque, se a gente não faz essas escolhas conscientemente, o mercado, o algoritmo e a conveniência acabam fazendo por nós.

Ouça o LíderCast 403 com a Flávia Oliveira, é muito legal!

Epicteto começa seu famoso Manual dizendo que algumas coisas dependem de nós e outras não. A frase ficou tão conhecida que quase perdeu a força. Virou uma espécie de “não dá para controlar? Então relaxa e goza”, como diria aquela ministra.

Mas não era isso não que Epicteto estava dizendo.

Ele estava tentando desenhar uma fronteira.

De um lado ficam as coisas sobre as quais temos algum domínio: nossos julgamentos, nossas escolhas, nossas intenções e nossas ações. E do outro lado estão a opinião dos outros, o comportamento das pessoas, o passado, o acaso, a doença, a economia, a reputação, a política e boa parte dos resultados que a gente gostaria de alcançar.

Muitos dos nossos problemas começam quando a gente mistura essas duas regiões.

Gastamos uma energia enorme tentando controlar aquilo que não depende de nós e, enquanto fazemos isso, deixamos de cuidar justamente daquilo em que poderíamos agir.

É o sujeito que passa duas horas furioso com uma decisão do governo, mas não consegue organizar as próprias contas. O profissional que perde o sono pensando no que o chefe acha dele, mas não gasta meia hora melhorando o trabalho que vai entregar no dia seguinte. Ou então o pai que passa o jantar inteiro indignado com os rumos da educação brasileira enquanto o filho, sentado diante dele, tenta conversar.

Isso não quer dizer que política, trabalho ou educação não sejam importantes não3. Claro que são. A questão é perceber o momento em que nossa preocupação deixa de produzir alguma ação e passa apenas a gastar nossa atenção.

E atenção talvez seja a palavra mais importante aqui.

Os estoicos não conheciam a expressão “economia da atenção”, mas entenderiam o problema na hora. Hoje existe uma indústria inteira tentando descobrir como capturar alguns segundos da sua cabeça. A notificação quer convencer você de que aquilo que acabou de acontecer é mais importante do que aquilo que estava fazendo. A manchete precisa parecer mais urgente que a anterior. E as redes sociais oferecem uma fila que nunca acaba de coisas para ver, porque aprenderam algo simples: quanto mais reagimos, mais tempo ficamos ali.

E cara, a gente reage muito.

Às vezes até confundimos reação com participação.

Chega uma notícia e parece que precisamos imediatamente ter uma opinião. Alguém diz alguma coisa e sentimos que precisamos responder. Aparece uma polêmica e, poucos minutos depois, já escolhemos um lado, compartilhamos argumentos, encontramos culpados e julgamos pessoas sobre as quais sabemos quase nada.

Epicteto usava uma palavra importante para falar daquele momento em que aceitamos uma primeira impressão como se ela já fosse verdade: assentimento.

Assentimento. A palavra parece complicada, mas a ideia é muito simples. Uma coisa é aquilo que aparece na sua cabeça. Outra é você dizer: “É isso mesmo. É verdade.”

Você manda uma mensagem e a pessoa demora para responder. O fato é o seguinte: ela ainda não respondeu. Mas sua cabeça rapidamente completa a história: “Está me ignorando”. Quando você compra essa interpretação e passa a tratá-la como um fato, deu assentimento.

É isso que os estoicos queriam observar.

Nossa mente produz primeiras impressões o tempo todo. “Ele fez isso porque não gosta de mim.” “Isso vai dar errado.” “Esse sujeito me desrespeitou.” “O país acabou.” “Minha carreira está perdida.”

Não conseguimos impedir que esses pensamentos apareçam. O ponto está no que é que a gente vai fazer com eles depois.

Entre a primeira impressão e o julgamento existe um pequeno espaço em que ainda dá para perguntar: será que foi exatamente assim? Eu conheço todos os fatos? Não estou colocando uma intenção na cabeça da outra pessoa sem saber? Minha reação não ficou maior do que o próprio acontecimento?

E veja como isso bate de frente com o funcionamento das redes sociais.

A lógica digital tenta diminuir justamente esse intervalo. Tudo facilita a reação antes da reflexão. Entendeu? Reagir antes de refletir. O botão está ali: é só curtir, compartilhar, comentar, atacar e defender. Quanto mais rápido você passa do estímulo para a reação, melhor a máquina funciona.

O estoicismo faz quase o contrário. Ele tenta aumentar esse pequeno espaço.

Não para você virar uma pessoa fria ou indiferente, mas porque talvez ainda não saiba o bastante para reagir.

Marco Aurélio falava de uma parte da mente responsável por examinar aquilo que nos acontece e decidir o que fazer com isso. Os estoicos chamavam isso de “faculdade condutora”. “Faculdade condutora”. O nome pode parecer sofisticado, mas pense como se fosse simplesmente um centro de comando.

E daí vem outra imagem interessante, que ficou associada ao pensamento de Marco Aurélio: a cidadela interior.

Uma cidadela era uma fortaleza dentro da cidade, um lugar protegido para onde alguém podia recuar quando o lado de fora estava em desordem. Para os estoicos, nossa mente deveria ter algo parecido. Não um esconderijo para fugir da realidade, mas um lugar de onde fosse possível olhar para o que está acontecendo antes de sair reagindo.

A realidade entra. As notícias chegam. Pessoas nos ofendem. Problemas aparecem. Mas há uma muralha capaz de impedir isso.

A questão é se tudo o que chega precisa ganhar imediatamente acesso ao centro de comando.

Todo insulto tem de virar raiva? Toda notícia precisa virar medo? Toda provocação merece uma resposta?

A cidadela interior é essa ideia de preservar algum controle sobre aquilo que deixamos ocupar a nossa cabeça.

E talvez tenhamos feito exatamente o contrário.

Abrimos os portões.

Hoje qualquer desconhecido, em qualquer lugar do mundo, pode aparecer diante de nós e mudar o nosso estado de espírito. Acontecimentos que não têm nenhuma ligação direta com nossa vida podem ocupar horas das nossas conversas. E algoritmos cujo funcionamento nem conhecemos ajudam a decidir a sequência dos assuntos que vão receber a nossa atenção durante o dia.

E depois, A gente fica espantado porque se sentiu sobrecarregado.

Olha. Aqui é preciso tomar muito cuidado. Ansiedade também é uma condição médica real e complexa, e seria irresponsável reduzir a  ansiedade a uma questão de força de vontade. Não, cara! Mas existe uma angústia cotidiana que nós mesmos alimentamos quando tentamos viver ao mesmo tempo no passado, no presente e em uma porção de futuros que ainda nem existem.

Marco Aurélio percebeu isso há quase dois mil anos.

Em suas Meditações, ele volta várias vezes à ideia de trazer a vida de volta para o presente. Isso pode parecer aquele velho “viva o agora” lembra? “Carpe diem” aquela frase de almofada, mas a proposta é bem mais concreta.

Nossa cabeça olha para um problema que pode durar seis meses e tenta carregar os seis meses inteiros de uma só vez.

Você recebe um diagnóstico e já imagina todo o tratamento, todas as dificuldades e todas as consequências. Aparece um problema financeiro e sua cabeça já está vivendo o ano que vem. Você terá uma conversa difícil amanhã e passa a noite participando de dez versões imaginárias daquela conversa.

O problema real existe, é claro.

Mas uma boa parte do sofrimento já está sendo produzida por uma história que ainda não aconteceu.

E nisso nosso cérebro é muito competente.

Bem, vou parar por aqui na versão aberta do Café Brasil. Mas não vou parar a conversa não.

Na versão exclusiva para assinantes, quero avançar justamente daí: se o problema é real, se a dor existe e se não podemos simplesmente mandar o mundo parar de incomodar, o que que Marco Aurélio e os estoicos propunham fazer?

Vamos falar sobre isso e sobre o que o estoicismo pode oferecer sem virar conformismo, indiferença ou aquela conversa simplista de “pense positivo”.

Continuo esta reflexão exclusivamente para assinantes do Café Brasil Premium. Se o assunto também incomoda você, acesse mundocafebrasil.com e torne-se um assinante. A conversa continua lá.

Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.

De onde veio este programa tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine uma palestra ao vivo. E eu já tenho mais de mil e trezentas no currículo. Conheça os temas que abordo em mundocafebrasil.com.

Mande seu comentário de voz pelo WhatsApp no 11 96429 4746. De novo : 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, uma frase por muitas vezes atribuída a Viktor Frankl:

“Entre o estímulo e a resposta há um espaço. Nesse espaço está nosso poder de escolher a resposta.”

 

 

[TEC] como dois e dois instrumental

https://www.youtube.com/watch?v=p46rI4nP744

Marco Aurélio, filósofo estoico e imperador romano, sugeria uma coisa que parece simples: quando um problema ficar grande demais, desmonte-o e volte para o presente. Em vez de carregar na cabeça tudo o que pode acontecer nos próximos meses, olhe para o que está diante de você agora.

Talvez você tenha seis meses difíceis pela frente, mas nunca vai viver os seis meses de uma vez. Vai viver esta manhã, depois a tarde, depois a noite. Vai resolver um telefonema, uma consulta, uma conversa, uma decisão.

A vida chega parcelada; nós é que temos o hábito de querer pagá-la à vista.

Essa talvez seja uma das ideias mais úteis do estoicismo para o nosso tempo, porque fomos treinados a antecipar tudo. Acompanhamos pesquisas eleitorais meses antes da eleição, projeções sobre economia, inteligência artificial, clima, emprego, saúde, investimentos. Queremos saber o que vai acontecer porque imaginamos que prever o futuro nos dá algum controle sobre ele.

Só que muitas vezes acontece o contrário: quanto mais futuros inventamos na cabeça, mais problemas conseguimos trazer para o presente.

O estoicismo tenta separar duas coisas que misturamos o tempo inteiro: aquilo que aconteceu e tudo o que nossa cabeça acrescentou ao acontecimento.

E isso não significa fingir que dor não existe.

A imagem do estoico como alguém frio, que recebe qualquer pancada sem sentir nada, é uma caricatura. Sêneca perdeu pessoas que amava, Marco Aurélio perdeu vários filhos e Epicteto conheceu a escravidão. Eles sabiam perfeitamente que a vida machuca.

O que tentavam entender era outra coisa: quanto sofrimento a gente acrescenta à dor que já existe?

Eu perco alguma coisa e, além da perda, começo a dizer que minha vida acabou. Cometo um erro e, em vez de reconhecer que errei, concluo que sou incompetente. Alguém me critica e transformo aquela crítica numa ameaça a quem eu sou.

O acontecimento tem um tamanho. A história que contamos sobre ele pode fazê-lo crescer muito.

As redes sociais fizeram dessa confusão quase um hábito. Você não disse uma bobagem; você é um idiota. Não tomou uma decisão ruim; você é incompetente. Não discordou de mim; você é uma pessoa ruim.

Quando tudo vira identidade, qualquer discussão ganha um peso enorme, porque já não estamos discutindo uma ideia. Estamos defendendo quem acreditamos ser.

Marco Aurélio lembrava a si mesmo que boa parte das coisas que fazemos, dizemos e pensamos é supérflua. E talvez essa palavra seja ainda mais importante hoje do que era na Roma antiga, porque nosso problema já não é encontrar informação.

Informação tem de sobra.

O desafio agora é descobrir o que merece ser ignorado.

O que eu não preciso ler? O que não preciso assistir? Qual discussão não merece resposta? Qual provocação não vale meu tempo? Qual notícia pode perfeitamente esperar até amanhã?

Isso também é disciplina.

Não aquela caricatura do sujeito que acorda às cinco da manhã, mergulha numa banheira de gelo e lê Marco Aurélio antes do café. Estou falando da disciplina de cuidar da própria atenção.

Porque aquilo a que você presta atenção todos os dias começa a mudar a maneira como enxerga o mundo.

Se passa horas consumindo indignação, vai encontrar cada vez mais motivos para se indignar. Se acompanha o tempo todo crimes, escândalos e tragédias, pode começar a achar que o mundo é muito mais perigoso do que realmente é. Se passa boa parte do dia comparando sua vida com as versões editadas da vida dos outros, cedo ou tarde pode chegar à conclusão de que todo mundo está vivendo melhor que você.

Não é fraqueza. É treino.

Aquilo que colocamos diante da cabeça todos os dias acaba virando hábito.

É por isso que gosto de pensar no estoicismo menos como uma filosofia para ficar tranquilo e mais como uma filosofia para continuar dono de si.

E aqui aparece uma armadilha.

A famosa ideia estoica de cuidar daquilo que está sob nosso controle pode facilmente virar uma desculpa para não fazer nada: “Política não depende de mim, não consigo mudar a sociedade, não posso resolver esse problema, então vou cuidar da minha vida”.

Só que os estoicos não ensinavam isso.

Marco Aurélio administrou um império. Sêneca esteve no centro da política romana. Catão enfrentou César sabendo que poderia perder. A ideia nunca foi abandonar o mundo, mas aprender a separar aquilo que podemos fazer do resultado final daquilo que fazemos.

Posso votar, mas não controlo milhões de votos. Posso educar meus filhos, mas não decido exatamente quem eles serão. Posso fazer um bom trabalho, mas não consigo obrigar o mercado a recompensá-lo. Posso dizer aquilo que considero verdadeiro, mas não tenho como obrigar alguém a acreditar em mim.

Parece uma diferença pequena, mas ela muda bastante nossa relação com o fracasso.

Quando confundimos ação com resultado, começamos a medir nosso valor pelo que aconteceu no final. Deu certo? Sou competente. Deu errado? Sou um fracasso.

O estoicismo coloca outra pergunta na mesa: com aquilo que estava nas suas mãos, você fez o melhor que podia?

É uma pergunta mais difícil porque devolve a responsabilidade para nós sem prometer que teremos controle sobre o resultado.

E talvez essa seja uma provocação especialmente importante hoje.

Estamos cercados por explicações que apontam para fora: o algoritmo, o governo, o chefe, a economia, a família, a escola, o capitalismo, o socialismo, a geração anterior, a geração seguinte.

Muitas dessas forças realmente influenciam nossa vida. Claro que influenciam.

O problema começa quando uma explicação vira uma desculpa completa.

Se tudo o que acontece comigo é consequência de forças externas, então nada depende de mim. E aquilo que parece confortável acaba virando uma prisão, porque, se nada depende de mim, também não há nada que eu possa fazer.

Os estoicos não aceitavam essa saída. Reconheciam o peso das circunstâncias, mas continuavam procurando aquilo que ainda permanecia sob responsabilidade de cada pessoa.

E talvez ninguém mostre isso melhor que Epicteto.

Ele não falou desse assunto do alto de um trono. Epicteto foi escravo.

Um homem que conheceu na própria pele o que significa ter pouquíssima liberdade externa construiu uma filosofia procurando justamente aquilo que seu senhor não conseguia dominar por inteiro: sua maneira de julgar, escolher e responder ao que lhe acontecia.

Isso, claro, não torna a escravidão menos injusta e nem transforma opressão em “problema de atitude”. Significa apenas que, depois de tirar quase tudo de uma pessoa, o opressor ainda não deveria receber de presente o domínio completo sobre sua vida interior.

E é aí que o estoicismo encosta num nervo muito atual.

Nunca tivemos tantas possibilidades de escolha e, ao mesmo tempo, deixamos uma quantidade enorme de gente e de máquinas decidir o que entra na nossa cabeça.

Uma notificação chama nosso olhar. Uma plataforma escolhe o próximo assunto. Uma pesquisa anuncia aquilo que devemos temer. Uma multidão começa a dizer o que pode e o que não pode ser dito. Um desconhecido escreve uma provocação e, de repente, parece que adquirimos a obrigação de responder.

Aos poucos vamos entregando pedaços da nossa autonomia sem que ninguém precise arrancá-los de nós.

Fazemos isso por hábito.

Talvez, então, o gesto estoico mais importante hoje não seja decorar uma frase de Sêneca ou colocar uma estátua de Marco Aurélio sobre a mesa. Talvez seja aprender a perceber o momento em que alguma coisa está capturando você.

Perceber quando uma primeira impressão está virando julgamento rápido demais, quando um problema do futuro começa a cobrar sofrimento antes da hora ou quando uma discussão que não vai mudar absolutamente nada começa a consumir aquilo que você tem de mais escasso: sua atenção.

E tempo e atenção não são a mesma coisa.

 

 

 

Você pode passar duas horas ao lado de alguém sem oferecer a essa pessoa cinco minutos de atenção de verdade. Pode ter uma tarde inteira livre e entregá-la completamente a uma tela.

Talvez seja por isso que Marco Aurélio continue tão atual. Ele não oferece uma técnica para impedir que o mundo incomode você.

O mundo vai continuar incomodando.

Pessoas vão decepcionar você, governos tomarão decisões das quais você discorda, a economia vai mudar, seu corpo vai envelhecer, amigos irão embora e projetos vão fracassar. Outros darão certo por razões que também não estavam inteiramente nas suas mãos.

O estoicismo começa depois que a gente entende isso.

[TEC] como dois e dois

https://www.youtube.com/watch?v=VbnCdazLiNo&list=RDVbnCdazLiNo&start_radio=1

“Como Dois e Dois” foi composta por Caetano Veloso e lançada por Roberto Carlos em 1971, no álbum Roberto Carlos, aquele mesmo de “Detalhes”. A faixa é de Caetano, que aparece como único compositor.

E há nela um verso que ficou famoso: “tudo certo como dois e dois são cinco”.

A frase chama a atenção porque trata como normal uma coisa que sabemos ser absurda. E é difícil não aproximá-la de 1984, de George Orwell, onde a ideia de que dois mais dois podem ser cinco representa uma forma extrema de submissão.

Não basta que o poder obrigue você a repetir uma mentira. A vitória completa acontece quando você passa a aceitá-la como verdade.

E é aqui que a música encontra o tema deste episódio.

Lembra do assentimento de Epicteto? Entre aquilo que chega até nós e aquilo que aceitamos como verdadeiro existe aquele pequeno espaço de que falamos.

O mundo pode repetir mil vezes que dois e dois são cinco. Pode transformar absurdo em consenso, urgência em histeria e opinião em fato. A questão é saber se você ainda examina aquilo que entra na sua cabeça ou se simplesmente aceita e repete.

Talvez seja essa a ligação mais interessante entre Caetano, Orwell e Epicteto.

O problema fica sério quando aquilo que vem de fora deixa de ser apenas uma pressão e passa a funcionar como se fosse nosso próprio julgamento.

A partir daí, ninguém precisa controlar nossa cabeça.

Nós mesmos fazemos o serviço.

sobe

O mundo não foi organizado para preservar sua tranquilidade. Por isso, de algum modo, você precisa aprender a cuidar do que acontece dentro de você. Não para se esconder numa bolha, nem para fugir da realidade, mas justamente para conseguir voltar a ela com alguma lucidez.

Porque quem reage automaticamente a tudo o que aparece não está necessariamente mais ligado à realidade.

Está apenas mais fácil de conduzir.

O que os estoicos querem saber não é se conseguimos controlar o mundo. Isso já sabemos que não conseguimos.

Eles querem saber quanto do mundo estamos permitindo que controle a gente?

sobe

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Não é para todo mundo. Mas, se fizer sentido para você, o próximo passo está em mundocafebrasil.com.

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Em 1984, George Orwell imaginou os “Dois Minutos de Ódio”, um ritual em que uma multidão era conduzida a sentir medo e raiva diante de uma tela. Décadas depois, carregamos nossas próprias telas no bolso e entregamos a elas uma parte crescente da nossa atenção. Neste episódio, Luciano Pires parte de Orwell para chegar a Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio, investigando como o estoicismo pode ajudar a separar fatos de interpretações, ação de resultado e preocupação de responsabilidade. No centro da conversa está uma questão incômoda: quanto daquilo que pensamos, sentimos e tememos ainda passa pelo nosso próprio julgamento?

Host: Luciano Pires – @lucianopires – lucianopires.com.br

Takeaways

  • O estoicismo não propõe indiferença diante do mundo, mas a capacidade de distinguir aquilo sobre o qual podemos agir daquilo que escapa ao nosso controle.
  • Entre uma primeira impressão e o julgamento existe um espaço em que podemos examinar o que aconteceu antes de simplesmente reagir.
  • Proteger a atenção tornou-se uma forma de preservar autonomia num ambiente em que plataformas, notícias, opiniões e estímulos disputam permanentemente espaço dentro da nossa cabeça.

Capítulos

Os Dois Minutos de Ódio
Quando a tela entra na nossa cabeça
O que realmente depende de nós
Epicteto e o poder do assentimento
A cidadela interior
A vida chega parcelada
Quando a explicação vira desculpa
Quanto do mundo estamos permitindo que controle a gente?

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