Cafezinho 751 – Você também grita?

 

Em 1984, de George Orwell, funcionários interrompem o trabalho e se reúnem diante de uma tela para os “Dois Minutos de Ódio”. Aparece o rosto do inimigo oficial do regime, começam os insultos e logo a sala inteira está gritando.

Winston, o personagem principal, percebe a manipulação. Entende para que serve aquele espetáculo. Mas, em determinado momento, também começa a gritar.

Esse é o detalhe que incomoda: saber que alguém está manipulando você talvez não seja suficiente para escapar.

Você acorda, pega o celular e encontra uma declaração absurda de um político. Abre os comentários, responde a um desconhecido, encaminha o vídeo para o grupo da família. Quando percebe, está irritado, atrasado e discutindo com alguém que nem estava nos seus pensamentos cinco minutos antes. E ainda são 7 e meia da manhã…

Seu filho aparece querendo contar alguma coisa. Você pede que espere. Precisa terminar aquela resposta.

George Orwell imaginou um regime que obrigava as pessoas a olhar para uma tela. Nós compramos a nossa tela e ficamos incomodados quando acaba a bateria.

É fácil reconhecer esse comportamento nos outros, não é? O sujeito perdeu a cabeça, caiu na provocação, acredita em qualquer coisa. Com a gente parece diferente: estamos defendendo uma ideia, combatendo uma injustiça, colocando um idiota no seu devido lugar. E pode até ser. Só que a convicção de estar certo também ajuda a nos manter ali.

Winston, lá no 1984, sabia.

Olha aqui, o problema do nosso tempo não é apenas informação demais. Nós desaprendemos a proteger a fronteira entre aquilo que acontece lá fora e aquilo que permitimos que aconteça aqui dentro.
E tem uma baita ironia nisso. Nunca tivemos tanto controle sobre o mundo à nossa volta e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil perder o controle sobre a própria atenção.
Pense um pouco. Com alguns movimentos dos dedos você controla a temperatura da casa, chama um carro, escolhe um filme entre milhares, compra uma passagem, consulta o saldo no banco, conversa com alguém do outro lado do planeta e descobre em segundos o que está acontecendo no mundo.
Criamos ferramentas extraordinárias para ampliar nosso poder sobre o ambiente. Mas basta uma mensagem atravessada no WhatsApp, uma manchete alarmista ou o comentário de um desconhecido numa rede social para azedar nosso humor durante horas.

E é aí que começa a ficar interessante falar de estoicismo. Epicteto, Sêneca, Marco Aurélio… Os estoicos investigavam o momento em que aquilo que acontece fora de nós começa a comandar o que acontece dentro.

Pense numa mensagem que você mandou e ficou sem resposta. Até aí, existe um fato. Mas sua cabeça acrescenta: “Fulano está me ignorando”. Daqui a pouco você está magoado com uma intenção que atribuiu ao outro sem saber se ela existe.

Agora imagine esse mecanismo funcionando o dia inteiro, alimentado por uma tela que sempre tem outra provocação para oferecer.

No Café Brasil 1053, “Os dois minutos de ódio”, essa conversa leva a uma descoberta incômoda sobre nossa participação no próprio desgaste. E a uma possibilidade de recuperar espaço para julgar, sem precisar abandonar o mundo ou aceitar tudo calado.

Antes de entrar na próxima discussão e entregar mais uma parte do seu dia a ela, venha entender o que fez Winston gritar mesmo sabendo que estava sendo manipulado. Ouça o podcast Café Brasil 1053, “Os dois minutos de ódio”, no seu aplicativo de podcasts ou em mundocafebrasil.com.