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Imagine um sujeito que passa anos construindo uma empresa de petróleo num lugar onde os outros só enxergavam pedras e dificuldade. Ele investe, inventa uma maneira de extrair petróleo naquela região, contrata gente, movimenta fornecedores e transforma um negócio improvável numa atividade próspera. O nome dele é Ellis Wyatt.
Só que o sucesso começa a incomodar. Em vez de disputar mercado com ele, seus concorrentes encontram no governo uma maneira de limitar a vantagem que ele conquistou. Surgem regras, restrições e decisões tomadas por gente que nunca precisou correr os riscos que Wyatt correu. Aos poucos, ele percebe que a sua recompensa por ter feito melhor é ser impedido de continuar fazendo.
Até que um dia Wyatt desaparece. Ele abandona os negócios e deixa para trás suas instalações de petróleo em chamas. No romance, aquele fogo passa a ser conhecido como a Tocha de Wyatt.
Eu estou falando de A Revolta de Atlas, o romance publicado por Ayn Rand em 1957. Nele, empresários, inventores e profissionais responsáveis por grandes realizações começam a retirar a sua capacidade produtiva de uma sociedade que exige cada vez mais deles e que os trata como culpados pelo próprio sucesso.
Já ouviu isso por aí?
Eu lembrei dessa história ao ler um artigo publicado nesta semana pelo economista Ricardo Schweitzer. E não é porque os empresários brasileiros estejam incendiando refinarias ou desaparecendo nas montanhas do Colorado não. A cena por aqui tem balcão de padaria, caixa de sorveteria e pequenos negócios tocados por gente que termina o expediente muito depois dos funcionários.
Depois da eleição, alguns desses empresários anunciaram que não vão mais participar de campanhas beneficentes, nem distribuir cestas básicas ou patrocinar atividades da comunidade. Eles continuam abrindo as portas, empregando, atendendo clientes e pagando suas contas. O que resolveram suspender foi aquilo que eles faziam por vontade própria, além de suas obrigações.
Olha! A gente não sabe ainda quantos fizeram isso e nem quanto tempo essa decisão vai durar. Mas o gesto merece atenção. Um sujeito que durante anos fez questão de ajudar os outros chegou ao ponto de dizer: chega. E, antes de sair distribuindo certificados de egoísmo, seria muito bom entender como chegamos até aqui.
Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?
O episódio de hoje nasceu de um artigo do economista Ricardo Schweitzer, que passou quase duas décadas no mercado financeiro e hoje escreve a newsletter Cartas do Exílio. O título é O “nós contra eles” mandou a conta. Eu li e não resisti. O subtítulo já entrega o tamanho da encrenca: “Passaram meses enfiando no pequeno empresário a carapuça de egoísta. Na segunda-feira, ele desistiu de tirá-la.”
O artigo do Ricardo diz assim: “Na segunda-feira, um dia depois do segundo turno, o meu Instagram virou um mural de comunicados.
Os autores eram estabelecimentos comerciais, um atrás do outro. Alguns avisavam que estavam encerrando as atividades. Por outro lado, a maioria dizia, com pequenas variações de redação, a mesma coisa: a partir de hoje, não participamos mais de nenhuma ação social. Nada de cesta básica, nada de vaquinha, nada de rifa, nada de campanha de arrecadação para isto ou para aquilo.
Eu desconfiei da minha bolha antes de desconfiar do país. O algoritmo tem o péssimo hábito de me mostrar o que me faz parar de rolar a tela, e um feed não é uma amostra. Fui conferir e encontrei alguma dose de verdade. A imprensa registrou casos em Goiás, em São Paulo e em Santa Catarina: uma marca de produtos da roça que diz ter doado mais de 3 mil cestas em 6 anos, uma sorveteria, uma empresa de Joinville que suspendeu doações e patrocínios e marcou para janeiro de 2032 a data de pensar no assunto de novo.
Quantos são, ninguém sabe. Eu sei que são o bastante para chegar ao meu feed numa segunda-feira de manhã, e o bastante para eu achar que vale a pena entender o que aconteceu.
Comecemos por quem são essas pessoas e porque a imagem que circula sobre elas é a de outra gente.
A esquerda brasileira tem um empresário de estimação. É o bonequinho de cartola e bigode do Monopoly, o primo rico do nosso Banco Imobiliário, correndo pelo tabuleiro com um saco de dinheiro debaixo do braço. Vive de cobrar aluguel, de explorar quem trabalha para ele e de sonegar o imposto que, nas raras vezes em que paga, paga reclamando.
O mundo real não poderia ser mais diferente. O sujeito que publicou o comunicado de segunda-feira fecha o caixa às 10 da noite e confere a gaveta duas vezes. Conhece o fornecedor pelo nome e o funcionário pelo apelido. Paga a folha antes de pagar o próprio salário, e nos meses ruins não paga o próprio salário.
É ele quem compra a rifa da festa junina da escola do bairro, quem doa o brinde do bingo da igreja, quem patrocina a camiseta do time de várzea e quem monta, em dezembro, a caixa de brinquedos ao lado do balcão. Nada disso aparece em relatório de sustentabilidade, até porque o patrimônio dele cabe em três itens: um balcão, uma conta no banco e um cobertor curto.
Ao contrário do que certo espectro político fantasia, esse é o empresário que existe em maior número no Brasil.
Durante meses, esse homem ouviu que ele era o problema.
Não sei se alguém na campanha disse isso com essas palavras, e desconfio que nem precisou. O debate sobre o fim da escala 6×1 foi travado, nas redes, como uma luta entre o patrão e o trabalhador — e a palavra “patrão” não distingue o dono de um frigorífico do dono de uma padaria. O discurso de taxar os ricos não explicou onde termina o rico.
O pequeno empresário descobriu, então, uma coisa que nenhum negócio prepara a gente para descobrir: parte das pessoas que ele próprio emprega o vê como um inimigo. Ele assina a carteira de trabalho delas, adianta o salário quando a mãe adoece, segura o emprego quando o movimento cai, e mesmo assim passou a ocupar, na cabeça de algumas delas, o papel do vilão da novela.
Aí, meu caro, vem a conta.
“Bom dia, boa tarde, boa noite Luciano, tudo bem?
Eu estou aqui caminhando para o trabalho, estava refletindo sobre o medo do desconhecido, que é bem comum a todos nós, seres humanos, basta estar vivo para pensar nisso.
E fiquei pensando na época da pandemia, todas as incertezas que a gente tinha, cada informação que vinha às vezes contrariava a anterior, enfim, não tinha nada certo concreto.
E agora, a partir de 2027, com os resultados de ontem, a gente sabe, certeza, que vai ter mais quatro anos de mais dificuldades, mais complexidade, é uma coisa que é fato.
É uma previsão futura com base no histórico.
E eu fiquei pensando o que seria pior, o que seria mais difícil da gente levar, da gente conseguir lidar.
Essa incerteza da época da pandemia ou essa certeza dos próximos anos. Fica a questão aí, Luciano.
Obrigado, um grande abraço e boa semana.”
Esse foi o grande Eduardo Miura, caminhando para o trabalho e pensando na diferença entre o medo do desconhecido e o medo daquilo que a gente já conhece. Durante a pandemia, o que assustava era a falta de referências. Agora, para muita gente, a apreensão vem justamente das referências que a gente tem: decisões econômicas anteriores, dificuldades para empreender, mudanças nas regras e uma perspectiva de mais quatro anos de incertezas. Não existe sentença escrita sobre o futuro, meu caro, mas tampouco existe obrigação de fingir que o passado não ensina nada. E a reação desses pequenos empresários precisa ser lida nesse contexto.
Vamos voltar ao texto do Ricardo
Continuando o texto de Ricardo Schweitzer
“Em outubro, o Congresso aprovou e promulgou o fim da escala 6×1. A partir de meados de dezembro, as empresas terão de adotar a jornada de 42 horas com dois dias de folga, e a jornada cai para 40 horas um ano depois. Para a grande empresa, isso é só uma planilha.
Para a padaria com quatro funcionários, é decidir entre contratar o 5º ou fechar no domingo. A emenda até permite que uma lei alivie a transição dos pequenos, mas essa lei ainda não foi escrita.
No dia 13 de outubro, doze dias antes do segundo turno, o governo anunciou o perdão de R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias de cerca de 3,6 milhões de microempreendedores. Na semana passada, virou lei. Imagine agora o microempreendedor que, nos últimos anos, deixou de comprar alguma coisa para casa para ficar em dia com o imposto. Ele acaba de descobrir quanto valia a pontualidade dele, e há poucas sensações piores do que a de ter sido otário de boa-fé.
Mas não para por aí.
Em pleno fim de outubro, a 66 dias de janeiro, ninguém sabe qual será a alíquota da CBS, o novo imposto federal sobre o consumo que passa a ser cobrado de fato em 2027. Aliás, já saiu aí, maior do que se esperava. O número ainda está entre o tribunal de contas e o Senado, que tem até meados de dezembro para fixá-lo. Não obstante, quem está no Simples tem até sexta-feira para escolher o regime em que vai recolher o novo imposto no ano que vem. Vai ter que escolher no escuro, sem saber quanto o imposto vai custar.
O absurdo é tamanho que vale repetir: o pequeno empresário tem até sexta para escolher o regime tributário no qual será enquadrado no ano que vem sem saber quanto de imposto isso vai representar. É mais ou menos como aquele antigo programa de TV onde o sujeito, de dentro de uma cabine com isolamento acústico, tinha que9 decidir se preferia ganhar um carro zero ou uma meia furada.
Tudo isso vem de um Estado que retrata o empresário como vilão e, no mesmo movimento, depende do imposto que a atividade dele gera para pagar a máquina e os programas sociais.
O peso do “vilão” é fácil de medir. Os pequenos negócios são 95% das empresas do país. Respondem por cerca de metade do emprego formal no setor privado e abriram a grande maioria das vagas criadas no ano passado. Ficam, em troca, com 26,5% do PIB. Empregam muito e ganham pouco, que é exatamente o contrário do que faz o bonequinho de cartola.
Um dia, cara, ele cansa.
Sem plano e sem manifesto. Senta numa segunda-feira, escreve um comunicado e lava as mãos. Se nada do que ele fez até ontem mereceu consideração, e se a carapuça de egoísta lhe foi enfiada assim mesmo, ele para de lutar contra ela. Dali em diante, cuida do próprio negócio e de mais nada.
Nem tudo o que se disse saiu bonito. Num vídeo gravado depois do comunicado, o dono de uma sorveteria perguntou aos eleitores do outro lado: “Ué, mas o Lula não tirou vocês da pobreza? Por que que vocês estão precisando da cesta básica nossa aqui?”. A frase é cruel, e a crueldade dela é o melhor retrato do que a campanha deixou para trás: quem passa meses sendo tratado como inimigo acaba falando a língua do inimigo.
E há uma ironia que ninguém menciona quando se fala mal do “empresário”.
Entre o fim dos anos 2000 e o começo dos 2010, o BNDES escolheu a dedo um punhado de grandes grupos para transformá-los em campeões nacionais. Um único frigorífico ficou com mais da metade de tudo o que o banco aplicou em internacionalização de empresas brasileiras em uma década. O tribunal de contas acabou concluindo que não houve dano ao erário, e não sou eu quem vai reabrir o processo. Registro apenas que esses empresários, os que conhecem o caminho do gabinete, nunca são lembrados na hora de demonizar o empresariado. A caricatura usa cartola, mas o rosto que ela acerta é o do sorveteiro.
Em 1957, Ayn Rand publicou um romance de mais de 1.000 páginas sobre exatamente isso. Em A Revolta de Atlas, os que produzem cansam de ser tratados como vilões gananciosos por uma sociedade que vive do que eles produzem, e entram em greve. Somem, um a um, para um vale escondido nas montanhas, e o mundo que os desprezava descobre, devagar, que não funciona sem eles. Pelo país inteiro, as pessoas se perguntam “quem é John Galt?” Sem saber que estão perguntando quem foi o primeiro a cruzar os braços.
A versão brasileira é menor e mais triste. Falta o vale escondido, falta o discurso de 60 páginas no rádio, falta John Galt. Sobra um sujeito que continua atrás do balcão, abrindo as mesmas portas no mesmo horário, mas que agora simplesmente vai deixar de montar a caixa de brinquedos em dezembro.
O que vem depois disso é fácil de prever, e nenhum dos lados vai gostar.
Quando o pequeno fecha ou deixa de contratar, há menos gente empregada. Quando ele fatura menos, o governo arrecada menos — e é dessa arrecadação que saem os programas sociais. Quando ele deixa de doar, a cesta básica que o Estado não consegue entregar deixa de chegar por outro caminho. São três perdas, e todas elas recaem justamente sobre as pessoas que o discurso dizia proteger.
O braço cruzado tem cheiro de cansaço. Quem olha de perto vê um homem que se esgotou de ser bom sem receber nem um obrigado. Para quem sustentava a narrativa, essa distinção é irrelevante: o gesto vai ser lido como egoísmo, e vai servir de prova. Para quem estava na fila da cesta, a distinção é igualmente irrelevante, porque a cesta não vai vir nem de onde vinha, nem do CRAS mais próximo.
Passaram meses enfiando no pequeno empresário a carapuça de egoísta. Ele resistiu enquanto pôde, depois se resignou e lavou as mãos. Quem acusava vai enxergar no gesto a confissão que esperava, sem perceber que a ditou palavra por palavra.
Todos perderam — menos os que garantiram a eleição apostando no nós contra eles.”
Esse foi o artigo do Ricardo Schweitzer. E agora, como sempre, eu pararia aqui este episódio, reservando a segunda parte para assinantes.
Tá bom, tá bom… Mas o tema é importante demais para ficar restrito, não é? Então hoje você vai receber o episódio completo, sendo assinante ou não. Quem sabe, ao ouvir o que você está perdendo por não assinar, você se anima.
Vai lá. mundocafebrasil.com.
Agora quero voltar a Ayn Rand, porque tem algo na história de Ellis Wyatt que ajuda a entender a reação desses empresários brasileiros e que passa longe da caricatura do patrão malvado guardando dinheiro debaixo do colchão.
Quando publicou A Revolta de Atlas, em 1957, Ayn Rand estava discutindo uma questão que conhecia de perto. Ela nasceu na Rússia, viveu a Revolução Bolchevique e emigrou para os Estados Unidos. Tinha profunda desconfiança de sistemas que tratam o indivíduo como um instrumento à disposição das necessidades definidas por outras pessoas. Para ela, trabalhar, criar, empreender e perseguir um projeto próprio não eram atividades pelas quais alguém devesse pedir desculpas.
No romance, a engenheira e executiva Dagny Taggart tenta manter uma ferrovia funcionando num país em que produzir se torna cada vez mais difícil. Hank Rearden desenvolve um metal extraordinário e descobre que, quanto mais útil sua invenção, maior o número de pessoas dispostas a decidir o que ele deve fazer com ela. E John Galt organiza a retirada daqueles que se recusam a continuar oferecendo seu talento a um sistema que os condena justamente por possuir esse talento.
O livro tem mais de mil páginas e muita coisa nele é discutível, inclusive a maneira como Rand trata o egoísmo e o altruísmo. Mas existe uma percepção poderosa ali: a cooperação deixa de ser cooperação quando uma das partes passa a considerar a contribuição da outra uma dívida permanente, acompanhada de desprezo por quem paga.
Você prestou atenção? Eu vou repetir:
A cooperação deixa de ser cooperação quando uma das partes passa a considerar a contribuição da outra uma dívida permanente, acompanhada de desprezo por quem a paga.
É essa tensão que eu encontro na história do dono da padaria. Ele não se parece com o milionário do Banco Imobiliário. É o sujeito que calcula o preço do pão olhando a farinha, a energia elétrica, a folha de pagamento, os tributos e aquele equipamento que quebrou quando não podia quebrar. Se as coisas vão bem, ele contrata. Se o movimento cai, é ele quem precisa resolver como pagar todo mundo. E se consegue tirar algum dinheiro para casa no final do mês, descobre nas redes sociais que pertence à classe dos exploradores.
É claro que existem problemas reais nas relações de trabalho brasileiras, aliás, mundiais Reconhecer esses problemas não deveria ser difícil. Existem empresários que abusam da sua posição e empregados que enfrentam condições injustas sim. Mas a política tem uma predileção por personagens sem rosto. Em vez de discutir empresas concretas, produtividade, custos ou abusos demonstráveis, ela reúne milhões de situações diferentes na figura genérica do… patrão. Pronto: o empresário que ajuda a manter a economia funcionando vira, por definição, suspeito.
Essa caricatura é muito conveniente porque ela elimina a parte trabalhosa da conversa. É bem mais fácil exigir que a padaria contrate mais uma pessoa do que explicar como é que ela vai pagar esse salário sem vender mais pão. É mais simples anunciar um benefício do que discutir quem vai suportar seu custo. O problema é que os números continuam existindo quando termina o comício. A folha vence, o aluguel vence, o fornecedor telefona e o caixa não aceita argumentos ideológicos como forma de pagamento.
Discurso não paga boleto.
Isso tudo não significa que cada medida trabalhista ou tributária seja necessariamente ruim. Significa que suas consequências precisam ser examinadas no mundo em que as empresas de fato operam. Uma grande rede consegue distribuir custos por centenas de unidades, renegociar contratos e recorrer a equipes de especialistas. Mas um pequeno comércio, quando recebe uma nova obrigação, só tem como alternativas reduzir a margem, aumentar os preços, contratar menos ou diminuir o horário de funcionamento. Quem apresenta a conta como se o dinheiro aparecesse por geração espontânea está fazendo política com a contabilidade dos outros.
E aí entra outro aspecto do artigo do Schweitzer. Além de manter o negócio, esse empresário muitas vezes participa da vida da comunidade. Compra a rifa, ajuda a família que teve a casa alagada, patrocina o time do bairro, separa brinquedos para o Natal. Faz isso porque quer, porque conhece as pessoas, porque tem alguma relação com o lugar em que trabalha. Ninguém precisou promulgar uma lei para obrigá-lo a colocar a mão no bolso.
Quando esse mesmo sujeito anuncia que não vai mais participar das campanhas, a reação é quase automática: como pode ser tão egoísta?
Ora, meu caro, antes de exigir explicações pelo fim de uma ajuda voluntária, seria conveniente lembrar que ela existia. A doação não era salário, imposto nem obrigação contratual. Era uma escolha. E a liberdade de fazer uma escolha inclui a possibilidade de rever essa escolha.
E eu não estou dizendo que toda reação seja bonita ou que cada frase dita no calor da indignação mereça aplausos não. O que estou dizendo é que não se compreende esse movimento começando pela condenação de quem reagiu. O discurso político passou meses pintando o empresário como adversário social. Agora, quando alguns empresários anunciam que cuidarão apenas de suas obrigações, muita gente se espanta. Parece o sujeito que passa a tarde inteira chutando a canela do vizinho e, quando recebe um chega pra lá, corre para denunciar a violência.
Afinal o que uma sociedade perde quando aqueles que produzem deixam de se sentir parte dela? E eu não estou falando apenas de doações. A confiança necessária para investir, abrir uma filial, contratar um aprendiz ou arriscar as economias numa ideia depende, em alguma medida, da expectativa de que o esforço vai ser respeitado, não é? Que as regras terão alguma estabilidade. Quando a mensagem pública é a de que produzir torna você um inimigo, não é preciso imaginar uma greve cinematográfica para entender por que alguém pode preferir não ampliar o próprio negócio.
Ayn Rand colocou Atlas no título porque, na mitologia, ele sustenta o céu sobre os ombros. No romance, a imagem serve para representar quem suporta uma parte decisiva do funcionamento da sociedade. O livro pergunta o que aconteceria se essas pessoas decidissem encolher os ombros. É uma provocação literária, é claro. Nenhum empresário sozinho carrega um país. Toda empresa depende de trabalhadores, consumidores, fornecedores e instituições, e isso torna a cooperação indispensável. Mas cooperação pressupõe reconhecimento recíproco. Não funciona muito bem quando um lado se sente autorizado a impor exigências ao outro lado e ainda o acusa por reclamar.
O discurso do nós contra eles oferece um benefício político imediato: organiza uma disputa complicada numa história em que é só apontar o culpado.
Cara, eu brigo com esse discurso do nós contra ele desde o meu livro “Nóis que invertemo as coisa” em 2009.
Depois da eleição, o dono do mercado continua precisando do trabalho de seus funcionários, e os funcionários continuam precisando de uma empresa capaz de pagar seus salários. O governo continua precisando da arrecadação produzida por essa atividade. E a pessoa que aguardava a cesta básica continua precisando dela. Essa interdependência não desaparece porque um palanque resolveu dividir o país entre mocinhos e bandidos.
É precisamente por isso que o gesto descrito por Schweitzer deve ser levado muito a sério. Ele não prova que todos os empresários pensam da mesma maneira, e nem permite prever quantos empregos ou doações serão afetados. Mas revela uma fratura na disposição de colaborar. E seria muito cômodo atribuir essa fratura exclusivamente à irritação de quem resolveu suspender a ajuda, sem examinar o ambiente que tornou o gesto atraente para essas pessoas.
Há quem enxergue nessa reação só mesquinharia. Eu enxergo um aviso. Quando o reconhecimento pelo trabalho dá lugar à suspeita permanente, quando o empreendedor descobre que cada sucesso será usado como argumento para novas cobranças e quando o debate público trata sua atividade como um mal tolerado, a vontade de fazer mais começa a desaparecer. Alguns continuam fazendo apenas o indispensável. Outros deixam de investir. Outros fecham as portas. E há os que simplesmente resolvem não participar mais da rifa.
Bom, quero terminar este episódio deixando pra você um presente. A trilha sonora para os próximos meses. Curta aí:
Fucking Shit, Holy Shit
Shards of Art
Fucking shit
Fuck, holy shit
Holy fuck, shit
Fucking
Fucking holy shit
Fucking Shit
Holy fuck, shit
Fucking
Fucking
Fucking
Fuck, shit, holy fuck
Holy fuck, shit, fucking fuck
Shit, holy fuck, holy fuck, shit
Fucking
bridge
Holy shit, fuck
Fucking shit, fuck
Fuck, fucking
Holy shit, fuck
Fucking shit, fuck
Fucking shit, fucking shit
Fuck, holy shit
Fucking shit, fuck fucking shit
Holy fuck shit, fucking shit
Holy shit, fucking shit
Fuck, shit, holy fuck
Fucking shit
Shitty fuck, shitty fuck
Fuck, shit, holy fuck
Fucking shit
Shit and fuck, shitty fuck
Fucking holy shit
Fucking shit
Holy fuck, fucking shit
Fuck, fucking shit
Holy fuck, shit and fuck
Shit, fuck
bridge
Fuck, shit, holy fuck
Fucking shit, shit and fuck
Fuck, shit, holy fuck
Fucking shit, shit and fuck
Fuck, shit, holy fuck
Fucking fuck
Fucking shit, fuck, fucking shit
Shit and fuck
Shit, fuck
Holy fuck, fucking shit, fucking fuck
Shit, fucking shit, shit and fuck
Shit, fuck
Holy fuck
Fucking
hook
Holy fuck
Holy fuck
Holy fuck
Fucking
Fuck, shit, holy fuck
Fucking shit, shit and fuck
Shitty fuck
Shit and fuck
Fucking shit
Holy fuck, fucking shit
Shit, fuck
Holy fuck
Fucking shit
Fucking shit, shit and fuck
Shitty fuck
Holy fuck
Fucking shit
Holy fuck
Fucking shit, shit and fuck
Shitty fuck
Holy fuck
Você está ouvindo Fucking Shit, Holy Sit com o Shards of art.
Eu encontrei um catálogo bastante variado, desse Shards of art com lançamentos de música eletrônica, faixas vocais e títulos em diferentes idiomas. Deve ser IA esse treco aí. Eu não achei informações biográficas confiáveis sobre os integrantes nem a origem do projeto.
E a Tocha de Wyatt? Bem, no romance de Ayn Rand, aquele fogo continuou queimando depois que o empresário abandonou suas instalações. A chama não produzia mais riqueza; ela iluminava o lugar onde uma atividade produtiva havia sido interrompida. A nossa versão não precisa de uma refinaria incendiada. Ela pode aparecer na porta de um comércio que fechou, na vaga de emprego que ninguém abriu ou na caixa de brinquedos que não será montada em dezembro. Convém prestar atenção a esses sinais, porque, quando a fumaça aparece, meu caro, já passou da hora de perguntar quem é que acendeu o fogo.
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Para terminar, uma frase do economista francês Frédéric Bastiat, que há quase dois séculos fez uma observação que continua desagradavelmente atual:
“O Estado é a grande ficção pela qual todos procuram viver às custas de todos os outros.”
