Café Brasil Expresso 1029  – Em busca do tédio perdido

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Há 25 anos colocando a inteligência a serviço do agro. 

Imagine a cena: um homem sozinho, à beira de um lago, observando o reflexo da água. Sem pressa, sem agenda, sem ninguém chamando. Não tem música de fundo, não tem corte rápido, não tem estímulo disputando a atenção. Só o tempo… passando.

Esse homem é Henry David Thoreau. E o lugar é Walden.

No livro Walden, Thoreau escreve algo que, hoje, soa quase como um manifesto contra o mundo moderno. Em um dos trechos mais conhecidos, ele diz que foi viver no meio do mato porque queria “viver profundamente e sugar todo o tutano da vida”, para não chegar ao fim e descobrir que não tinha vivido.

Repara nisso.

Não se trata de fazer mais, nem de produzir mais. É sobre viver… com atenção suficiente para perceber o que está acontecendo.

Thoreau passou dois anos praticamente isolado, observando coisas que, para a maioria de nós, seriam insignificantes: o vento nas árvores, o som da água, o ritmo das estações. Mas, naquele silêncio, alguma coisa acontecia. A mente desacelerava o suficiente para começar a ver padrões, conexões, significados que normalmente passam despercebidos.

Agora corta para hoje.

Agora você está numa fila. Percebe que terá alguns minutos de espera. Antes mesmo de perceber o desconforto, a mão já foi no o bolso. Sacou o celular. A tela acende e pronto. O “tempo perdido” é preenchido. O silêncio é eliminado.

A gente não fica entediado. Impedimos o tédio de acontecer.

E sabe de uma coisa? Talvez seja exatamente aí que esteja o problema.

Porque aquele momento vazio, aquele intervalo que parece inútil, é justamente o espaço onde o cérebro começa a trabalhar de verdade. Onde ideias se organizam, experiências se conectam e pensamentos que estavam pela metade encontram um caminho até o fim.

Thoreau se afastou do mundo para viver isso de forma radical. Mas você não precisa ir para uma cabana no meio da floresta não. Talvez precise reaprender uma coisa simples, que Thoureau já tinha entendido lá atrás: às vezes, é no silêncio que a vida, e o pensamento, finalmente aparecem.

Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil Expresso e eu sou Luciano Pires. Posso entrar?

Você já teve a sensação de que o excesso de estímulo, o celular, notificações, conteúdo infinito, está mexendo com a sua capacidade de pensar, hein? Isso não é uma conclusão elaborada não, é mais um incômodo difuso, aquele momento em que você percebe que passou tempo demais consumindo e tempo de menos elaborado.

A maioria das pessoas sente isso e segue em frente.

Manoush Zomorodi resolveu parar e investigar. Manoush é uma jornalista, autora e apresentadora de podcasts americana que ficou conhecida por estudar, na prática, como a tecnologia afeta o nosso cérebro e comportamento. Ela não é uma “neurocientista de laboratório” não. Ela faz algo talvez até mais interessante: cria experimentos com pessoas reais para observar como a vida digital impacta atenção, criatividade e bem-estar.

Em vez de estudar o cérebro em condições controladas, ela coloca gente comum em situações ligeiramente alteradas e observa o que muda. É uma abordagem quase desconcertante na sua simplicidade, porque não depende de teoria sofisticada não, para revelar algo profundo. Depende de tirar aquilo que virou padrão e ver o que acontece quando o padrão desaparece.

Foi assim que surgiu o projeto “Bored and Brilliant” – Entediado e Brilhante. A proposta, quando você ouve pela primeira vez, parece quase infantil: pedir que milhares de pessoas incluam momentos de tédio deliberado no seu dia. Não é meditação guiada, não é técnica de produtividade, nem é protocolo complexo. É simplesmente retirar o estímulo. Ficar alguns minutos sem preencher o tempo com nada. Sem celular, música ou conversa… sem qualquer tentativa de “aproveitar” aquele espaço de tempo.

O que torna isso interessante não é a ideia em si, mas o contexto em que ela aparece. Num mundo em que cada segundo livre é automaticamente ocupado por alguma forma de conteúdo, propor o tédio como prática soa quase como uma afronta. A reação inicial de muita gente não é curiosidade não, é resistência. E é exatamente aí que começa o experimento de verdade.

Quando as pessoas aceitaram o desafio e sustentaram o desconforto por alguns dias, alguma coisa começou a mudar. Não houve um ganho de conhecimento externo, ninguém leu mais, ninguém estudou mais, ninguém se expôs a novas informações não. Ainda assim, relatos começaram a convergir: mais ideias, mais clareza, mais conexões surgindo aparentemente do nada. Aquilo que antes parecia um tempo morto começou a se revelar como um tempo fértil.

O que Manoush capturou ali não foi a criação de uma habilidade nova não. Foi a remoção de um bloqueio. O cérebro não precisava ser ensinado a ser criativo; ele precisava parar de ser interrompido. Aquela sensação de vazio que a gente corre para preencher o tempo todo não era ausência de atividade mental não, era justamente o momento em que um outro tipo de atividade estava tentando acontecer. Mais lenta, menos visível, mas essencial para que ideias se organizem e ganhem forma.

Ao longo do trabalho dela, especialmente nos podcasts que ela conduziu, esse tema aparece por diferentes ângulos, mas sempre converge para o mesmo ponto. Não se trata apenas de vício em celular ou de distração superficial. Trata-se de uma mudança mais profunda na forma como lidamos com a própria atenção. A fragmentação constante não apenas ocupa o tempo; ela altera o tipo de pensamento que a gente consegue sustentar.

E quando tudo é interrompido cedo demais, sabe o que acontece? Nada amadurece.

O mérito do trabalho da Manoush está justamente em tornar visível uma coisa que, de tão cotidiano, passou despercebida. Aquela intuição inicial de que estamos “pensando pior”, ganha forma quando você observa o que acontece na ausência de estímulo. O que acontece não é um vazio, é um processo. Pensamentos que estavam pela metade encontram continuidade. Problemas antigos começam a se reorganizar.

Ideias que pareciam dispersas se conectam sem esforço aparente.

O tédio tornou você criativo novamente.

Bom dia, boa tarde, boa noite, Luciano Pires e time, tudo bem?

Acabei de receber um e-mail aqui da Kicante, rapaz, que legal! Eles estão me falando aqui que o primeiro lote de materiais do Café com Leite foi enviado para as escolas do Niterói. Que bacana, rapaz!

Eu já nem lembrava que eu ajudei nisso. Passou tanto tempo que eu já não lembrava mais. Já tá na hora de vir outro, hein? Bora lá, bora fazer mais um desse?

Eu, quando eu vi o e-mail daqui da Kicante, eu falei, como eu não lembrava, eu achei que era pra falar de uma campanha nova. Eu falei, oba, vou ajudar. Não, é de uma que eu já ajudei. Então tá na hora de fazer uma nova, uai.

Grande Rodrigo Villa, tudo bem, meu caro? Pois é… a gente até começou a aquecer uma nova campanha, dessa vez para apoiar a implementação do projeto nas escolas. Aliás, quando for ao ar este programa aqui, a gente terminou de participar da Bett Educar, nem se se eu vou estar vivo ainda!

A gente usou o Apoia-se, em vez do Kikante, que permite uma integração interessante lá com o Spotify, e fizemos aquele movimento inicial que sempre faz e que antecede uma coisa muito maior: compartilhamos nos nossos grupos de Telegram e com a base de assinantes, gente que já nos conhece e sempre colabora.

Normalmente, esse “esquenta” já mostra a temperatura da campanha. Costumam vir entre 70 e 100 contribuições, o que ajuda a dar a largada na campanha. Só que… Desta vez, a gente soltou esse balão de ensaio e o engajamento foi praticamente nulo. Nulo. E aí a gente aprende rápido. Antes de sair por aí botando o bloco na rua, gritando no mercado, é melhor ouvir o silêncio de quem está por perto. E a gente recolheu a campanha.

Com o Brasil do jeito que está, com os brasileiros normais contando centavos e escolhendo onde colocam energia e dinheiro, a gente vai seguir daqui com o que tem, do jeito que dá.

Mas fica aí o registro. Porque projetos como esse não crescem só na intenção, crescem na ação de quem decide entrar junto.

Se você quiser contribuir com um PIX, fique à vontade. É o 11915670602

Em 2024, a Universidade de Oxford escolheu a expressão brain rot como a palavra do ano. Traduzida de forma direta, seria algo como “apodrecimento cerebral”. O termo pode soar exagerado, mas ele descreve um fenômeno real: o desgaste mental causado pelo consumo contínuo de conteúdos rápidos e superficiais.

Os especialistas não têm observado falta de inteligência, nem perda de capacidade. É outra coisa. É dificuldade de sustentar foco, cansaço mental constante, impaciência com qualquer atividade que exija um pouco mais de tempo. Decidir coisas simples começa a exigir mais esforço. Pensar com profundidade passa a parecer pesado. Tem acontecido com você?

E aqui entra um ponto importante, que costuma ser mal interpretado: o problema não é a tecnologia não.

A tecnologia amplia possibilidades. O problema começa quando ela deixa de ser ferramenta e passa a ocupar todos os espaços. Quando cada intervalo é preenchido. Quando o silêncio desaparece e qualquer sinal de tédio vira algo a ser eliminado imediatamente.

Nesse cenário, o que some não é apenas o tempo ocioso não, é o espaço onde o pensamento se organiza.

A psicóloga Rafaela Reginato faz uma comparação incômoda, mas útil: o consumo de conteúdo digital funciona como um ciclo de recompensa. Cada estímulo rápido gera um pequeno prazer imediato. Só que passageiro. E, como em qualquer ciclo desse tipo, o cérebro começa a pedir mais. Mais frequência, mais intensidade, mais novidade.

E o resultado não aparece só no comportamento, não. Aparece na forma de pensar.

As crianças ficam mais inquietas, os adolescentes menos interessados em atividades que exigem tempo… E os adultos funcionam o dia inteiro, mas terminam o dia com a sensação de esgotamento mental.

Tá se reconhecendo em alguma dessas é?

Os dados ajudam a entender a escala disso. Cerca de 93% dos jovens entre 9 e 17 anos estão conectados à internet, e o celular virou a principal porta de entrada. Isso significa que uma geração inteira está crescendo em um ambiente onde o estímulo é constante e o tédio é praticamente inexistente.

E é justamente aí que a conversa se conecta com o trabalho da Manoush Zomorodi.

Se o cérebro precisa de momentos não estimulados para organizar pensamentos, conectar ideias e gerar insights, o que acontece quando esses momentos desaparecem, hein?

A neuropediatra Madacilina Teixeira chama atenção para isso. Quando o cérebro em formação se acostuma a processar tudo de forma rápida, ele perde prática em fazer o oposto. Pensar com calma, analisar, construir um raciocínio mais longo… Tudo isso passa a exigir um esforço muito maior.

A capacidade não desapareceu, apenas deixou de ser exercitada.

E isso não afeta apenas o desempenho escolar. Afeta a forma como a pessoa toma decisões, lida com frustrações, constrói argumentos, interpreta o mundo.

No fundo, estamos falando de uma troca: mais estímulo imediato em troca de menos profundidade.

Mas então temos que fazer o que, Luciano?  Mudar pro mato, como o Thoureau? Abandonar a tecnologia?

Olha, no mundo de hoje, a não ser que você esteja com um propósito de vida de radicalizar, isso não faz sentido. A questão é outra: como reintroduzir na rotina aquilo que foi eliminado, o espaço vazio, o tempo não preenchido, o tédio que permite que o cérebro funcione de outra maneira.

Você entendeu? Como trazer de volta o tédio saudável.

Para pais e mães, isso começa com decisões simples, mas difíceis de sustentar. Rever o uso de telas dentro de casa, estabelecer limites claros, criar momentos em que o silêncio não seja imediatamente ocupado. Isso não é punição, isso é cuidado.

Mas talvez o ponto mais importante não esteja nas regras, e sim no exemplo. Não adianta pedir que uma criança se desconecte se o adulto ao lado não consegue ficar alguns minutos sem olhar para o próprio celular.

O comportamento ensina mais do que qualquer discurso.

O processo de recuperar o tédio perdido também passa por revalorizar atividades que naturalmente exigem tempo e atenção. Leitura, jogos, esportes, hobbies manuais, coisas que não oferecem recompensa imediata, mas que constroem algo ao longo do processo. E, talvez mais importante do que isso, criar espaço para conversa. Perguntar, ouvir, ajudar a criança a refletir sobre o que consome, em vez de apenas consumir.

E tem um ponto que parece pequeno, mas que impacta profundamente: valorizar o silêncio. Aceitar que nem todo momento precisa ser preenchido. Permitir que exista aquele intervalo em que “nada está acontecendo”, quando, na verdade, pode ser exatamente o contrário.

Essa discussão já chegou às escolas. Propostas de restrição ao uso de celulares durante o horário escolar têm aparecido como tentativa de recuperar um ambiente minimamente livre de interrupções constantes. É um tema controverso, claro. Mas, olhando por esse ângulo, não se trata apenas de disciplina. Trata-se de proteger um espaço onde o aprendizado possa acontecer com alguma profundidade.

Sabe por que? Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é o uso de uma ferramenta. É a capacidade de pensar.

E não pense que a capacidade de pensar se desenvolve no excesso de estímulo, não!

Ela se desenvolve, em boa parte, nos momentos que a gente aprendeu a evitar.

Então… se o que Manoush Zomorodi mostrou estiver correto, a questão não é a falta de ideias, de criatividade ou de capacidade de concentração. Talvez a questão seja outra: a gente construiu uma rotina que interrompe sistematicamente os processos mentais dos quais essas coisas dependem.

O tédio, nesse cenário, muda de papel. Ele deixa de ser um intervalo inútil entre momentos produtivos e passa a ser uma condição necessária para que algo mais elaborado aconteça. Como um espaço de transição, um terreno onde o cérebro consegue trabalhar sem ser constantemente redirecionado, sacou?

Isso não exige uma ferramenta nova não, nem uma técnica sofisticada. Exige a disposição de não preencher imediatamente cada segundo livre. Exige sustentar, por alguns minutos, aquela sensação de que “não está acontecendo nada”… quando, na verdade, está acontecendo tudo.

Resumindo: não nos falta capacidade de pensar melhor. Falta é o espaço para deixar o pensamento acontecer.

No episódio exclusivo para assinantes, eu vou mergulhar no que diferentes pesquisadores descobriram sobre o que acontece quando você para de preencher tudo. Mas é só para assinantes…

Tá interessado, é? Assine o Café Brasil. mundocafebrasil.com.

Aqui termina o Café Brasil, que é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.

De onde veio este programa aqui tem muito mais. E se você gosta do podcast, imagine uma palestra ao vivo. E eu já tenho quase mil e trezentas no currículo. Conheça os temas que eu abordo no mundocafebrasil.com.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, eu vou fazer uma coisa que eu nunca fiz no Café Brasil. Eu vou repetir a frase do programa anterior porque ela é sensacional. É uma frase do escritor Henry David Thoreau:

“A riqueza de um homem é proporcional ao número de coisas das quais ele pode abrir mão.”

 

SEGUNDA PARTE – CAFÉ BRASIL

[tec] samba de uma nota só

https://www.youtube.com/watch?v=d3uWyvo0XGs&list=RDd3uWyvo0XGs&start_radio=1

Quando você começa a puxar o fio do tédio, descobre que não é uma ideia isolada, uma provocação simpática de podcast. É um coro. Gente de laboratório, gente de sala de aula, gente que passa a vida tentando entender como a cabeça humana funciona, todos chegando a um ponto meio incômodo: talvez a gente esteja atrapalhando o próprio cérebro.

Sandi Mann, psicóloga britânica conhecida por estudar o tédio, por exemplo, fez um experimento que parece até uma pegadinha. Colocou pessoas para copiar números de uma lista telefônica. Aquela atividade que não exige nada de você além de paciência, e nem isso, porque a paciência vai embora rápido. Depois, pediu que essas mesmas pessoas pensassem em usos criativos para um objeto banal, um copo plástico, por exemplo. Quem passou pelo tédio produziu ideias melhores. Mais variadas, mais inesperadas. Como se o cérebro, abandonado pelo mundo externo, resolvesse trabalhar por conta própria. Quando não há estímulo interessante vindo de fora, ele começa a fabricar estímulo por dentro.

O psicólogo canadense John Eastwood olha para o mesmo fenômeno por outro ângulo. Ele diz que o tédio não é falta de capacidade, nem preguiça. É um desencaixe. Você quer se envolver em alguma coisa, mas aquilo que está à sua frente não prende. Existe energia, existe vontade, mas não existe conexão. E aí surge o desconforto. O problema não é sentir isso, é como a gente responde a isso. Se a solução vira sempre um estímulo fácil, um vídeo curto, uma notificação, qualquer coisa que ocupe a atenção por alguns segundos, o cérebro aprende um truque perigoso: fugir do desconforto em vez de atravessá-lo. E, ao fugir, ele interrompe justamente o processo que poderia levar a algo novo.

Essa lógica aparece de forma ainda mais clara quando você olha para crianças.

Teresa Belton, uma pesquisadora britânica da área de educação que estudou a relação entre tédio e criatividade, observou que crianças mais criativas costumam ter algo em comum: passaram por momentos de tédio. Momentos em que ninguém oferecia uma brincadeira pronta, um roteiro, uma tela piscando. Sem esse cardápio pronto, elas foram obrigadas a inventar. Criaram jogos, histórias, mundos. Agora compare com a cena atual: o menor sinal de vazio e já entra uma tela na mão. Não é que as crianças tenham perdido a capacidade de criar. É que perderam o espaço onde a criação acontece.

O professor de ciência da computação e escritor Cal Newport não fala de tédio como tema central, mas encosta direto no coração do problema. Ele chama de “resistência ao tédio”. Se você não consegue ficar alguns minutos sem estímulo, você não consegue sustentar atenção profunda. E sem atenção profunda não existe pensamento complexo. O cérebro continua funcionando, claro. Responde, reage, produz, mas não aprofunda. Fica raso. Funciona bem na superfície, mas não mergulha.

E aí entra o psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi (mirraí cheek-sent-me-high), que ficou famoso pelo tal do “flow”, aquele estado de imersão total. Só que ele mostra uma coisa que muita gente ignora: antes do flow, existe o tédio. A nossa experiência oscila entre dois polos: ansiedade, quando o desafio é grande demais, e tédio, quando é pequeno demais. O tédio, nesse caso, não é um fim. É um empurrão. Um sinal de que você precisa buscar algo mais desafiador. Mas isso só acontece se você não sair correndo no primeiro segundo de desconforto.

Quando você junta tudo isso, começa a aparecer um padrão. Não é uma teoria isolada, é uma convergência. A ideia de que o tédio não é o inimigo. O inimigo é a incapacidade de suportar o tédio por tempo suficiente para que ele faça o que precisa fazer.

E aí a conversa fica pessoal.

Talvez você não tenha perdido criatividade.

O que você perdeu foi o ambiente onde ela nasce.

Talvez você não tenha ficado menos inteligente.

Você ficou mais estimulado do que o seu cérebro consegue processar.

Talvez você não esteja sem ideias.

Você está é interrompendo todas elas no meio do caminho.

Sacou?

sobe

Pense numa cena simples, bem brasileira. Alguém sentado na calçada, no fim da tarde, olhando o movimento sem pressa. Ou um sujeito pescando, em silêncio, esperando alguma coisa acontecer… ou não. Ou aquele momento no banho, quando você fica sozinho com a própria cabeça. Quantas vezes uma ideia apareceu ali, sem esforço, quase como se tivesse vindo de fora?

Agora compara com a versão atual dessas mesmas situações: fila com celular, espera com celular, silêncio com celular. A diferença não está na tecnologia. Está na interrupção constante. No corte do raciocínio antes dele amadurecer, percebe?

Quando você olha para tudo isso junto, a conclusão é até meio brutal: criatividade não depende de mais informação. Depende de menos interferência.

E mudar isso não exige ferramenta nova, método mirabolante, aplicativo revolucionário. Exige a disposição de ficar alguns minutos sem fazer nada.

Sem preencher, sem fugir. sem anestesiar.

Só deixando o cérebro fazer um trabalho silencioso que você não vê, mas que, quando aparece, você chama simplesmente de… ideia.

[tec] Paciência

https://www.youtube.com/watch?v=Sp9HBlb4MJM&list=RDSp9HBlb4MJM&start_radio=1

 

Você ouve a canção Paciência do Lenine que parece falar de tudo que tratamos neste episódio, sem nunca usar a palavra “tédio”. Essa versão maravilhosa é de Marcos Paulo Campos, que inclui a música 7 anéis de Egberto Gismonti no arranjo. Sensacional!

sobe

Paciência não é sobre ficar parado. É sobre sustentar o tempo necessário para que as coisas aconteçam.

“Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma…”

A frase abre uma tensão. O mundo empurra para a pressa, para o próximo estímulo. E a música aponta na direção contrária. Sem tempo, não há maturação. Sem pausa, não há compreensão.

Quando tudo acontece rápido demais, o pensamento não acompanha. É interrompido antes de ganhar forma.

“Enquanto o tempo acelera e pede pressa…”

A letra reconhece o ambiente, mas sugere um desvio. Não sair do mundo, mas não se deixar arrastar por ele. E aqui entra o tédio.

Porque o tédio é o primeiro contato com esse tempo mais lento. Aquele instante em que nada acontece fora, e o cérebro começa a trabalhar por dentro. Se você atravessa esse momento, as ideias começam a se organizar. Mas isso exige exatamente o que a música propõe: paciência.

sobe

Muito bem. Como assinante, você mergulhou fundo no tema da semana. Mas o Podcast Café Brasil é apenas a porta de entrada do ecossistema Café Brasil!

Se você fizer um upgrade para o plano Academia, com acesso a todos os meus cursos online, vai aprofundar ainda mais o seu repertório, aprender a identificar manipulação e fortalecer o pensamento crítico.

E, se quiser ir ainda mais fundo, existe o MLA – Master Life Administration. É para quem decidiu parar de apenas reagir ao mundo e começar a governar a própria vida, com método, clareza e responsabilidade.

Não é para todo mundo. Mas, se fizer sentido para você, o próximo passo está em mundocafebrasil.com.

E lembre-se: na Livraria Café Brasil temos mais de 15 mil títulos muito especiais, para quem busca conteúdo que presta, inclusive o Merdades e Ventiras, que complementa muito bem este episódio.