Cafezinho 690 – O Julgamento de Bolsonaro: Torre, Praça e a Luta pelo Legado da Legitimidade

O Brasil está parado assistindo a contenda entre Jair Bolsonaro e Alexandre de Moraes, o xerife da toga. É curioso ver que, apesar de toda a pirotecnia, pouco se fala sobre o verdadeiro palco desse teatro: a eterna batalha entre a torre e a praça.

Estou falando de algo profundo, quase ancestral: a guerra entre a velha torre do poder centralizado e a praça barulhenta da opinião pública conectada. Niall Ferguson matou a charada quando usou a cidade de Siena como metáfora: de um lado, a imponente Torre del Mangia, símbolo da ordem, da hierarquia, da caneta que resolve tudo. Do outro, a Piazza del Campo, onde a conversa corre solta, onde o “influencer” da Idade Média era o fofoqueiro do mercado. Bolsonaro foi convocado pela torre. Mas sua força está na praça.

Olhando para Moraes, vemos a encarnação da torre: altiva, protocolar, blindada por seguranças e precedentes jurídicos, determinada a dar um basta no que chama de “ataques à democracia”. Já a praça, sempre existiu. Antes era o café do bairro, o rádio de pilha, a conversa de esquina. Hoje é thread, é post, é meme viralizando em grupo de zap. E foi por essa praça que Bolsonaro ascendeu – usando o networking digital.

Agora, a ironia da história: a torre, diante do risco de desmoronar, para calar a praça, mira nos nós principais, derruba uns perfis aqui, uns canais acolá. Prende um bobo aqui, um jornalista alhures… Lembra da Contrarreforma proibindo livros? Pois é, hoje temos “listas de perfis banidos”. Se antes era Index Librorum Prohibitorum, agora é lista enviada ao Google e Spotify – com a devida chancela do Estado laico.

Mas há um detalhe que passa batido nos editoriais dos grandes jornais e nos fios cheios de coragem moral do X: a torre só se sustenta enquanto tem legitimidade. Sem isso, vira castelo de cartas. O poder não se impõe só pelo porrete, mas pelo consentimento dos governados – e aqui, tanto faz se quem manda veste toga ou faixa presidencial. Quando a praça começa a duvidar, quando o “respeito” vira deboche, começa a erosão.

Jair Bolsonaro fez da praça seu palanque, de onde fala para milhões – nem sempre com lucidez, quase sempre com simplismo, mas nunca sem eco. Usou o canal do zap, a live de quinta-feira, o meme tosco. Conquistou a torre porque dominou a praça. Agora, no banco dos réus, tem de prestar contas à torre que tentou desafiar.

Os acontecimentos destes dias quentes são só mais uns capítulos desse embate secular. Moraes – a torre – interroga, Bolsonaro explica para a praça. As torcidas digitais gritam – mas, no fundo, estamos todos assistindo à tentativa desesperada de uma torre que precisa justificar sua existência diante de uma praça que não pede mais permissão para falar. Os deuses e mitos que davam legitimidade ao rei, hoje são curtidas, trends e hashtags.

E aí surge a pergunta que ninguém responde: até quando a torre aguenta sem repensar sua própria arquitetura? Até quando a praça se contenta em ser apenas arena de espetáculo e não agente de mudança real? O problema da democracia não está nas redes sociais nem no STF – está na crise de legitimidade, esse cupim que corrói o alicerce das instituições.

No final, como lembrou Ferguson, tecnologias vão e vêm. O que fica – e pesa – é a qualidade da governança. E, cá entre nós, quem anda olhando para isso ultimamente?